Quem perde é o eleitor

Na briga de egos políticos, quem sai perdendo não é a emissora que cancelou o debate; mas o eleitor que não conheceu as propostas de todos os lados

Antônio Pedro de Souza

Sábado, 3 de outubro de 2026, véspera das eleições presidenciais. Talvez o pleito mais importante da década. Em uma eleição praticamente decidida em relação aos candidatos que se enfrentarão no segundo turno – talvez, apenas faltando decidir quem se classificará em primeiro ou segundo lugar para a segunda parte da escolha popular. Só que isso não é um simples campeonato, como os que costumamos ver e torcer por times e nações do coração: Não é uma superliga de vôlei; não é um campeonato brasileiro; não é Fórmula 1 ou Copa do Mundo. São as eleições. Após a escolha deste domingo, teremos que conviver com quatro anos de acertos ou dissabores e, por isso, conhecer as propostas dos candidatos é essencial antes de exercemos nosso direito ao voto.

Em relação a conhecer as propostas, vale salientar que todos os candidatos já deixaram muito claro para suas respetivas bolhas o que pensam, o que almejam e o que farão entre 2027 e 2030. E aí entra a questão central desta análise: eles deixaram claro para suas bolhas, mas um presidente não governa apenas para seus eleitores. Ele governa para toda uma nação, inclusive para aqueles que não os escolheram. E precisa ouvir o clamor do povo – mesmo quem não os elegeu. É assim que funciona – ou deveria funcionar – uma democracia. E foi essa regra que alguns presidentes recentes, como Jair Bolsonaro no Brasil, ou Donald Trump nos EUA, esqueceram em seus mandatos.

Saindo desta discussão e olhando para o campo das propostas e das trocas de ideias, outro fato preocupante foi a falta de diálogo durante a campanha. Falando especificamente dos debates eleitorais, em 2026 apenas um encontro entre os presidenciáveis ocorreu: em 23 de agosto, na Band (com parceria da TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan e Estadão). Na ocasião, estiveram presentes Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury. Os principais presidenciáveis, Lula e Flávio, além de Romeu Zema optaram por não participar e tiveram seus púlpitos vazios exibidos durante a transmissão do evento.

Em 14/9, o pool formado por CNN, SBT, RedeTV! e outros veículos cancelou o debate, por causa da falta de confirmação dos principais nomes ao Palácio do Planalto. O mesmo ocorreu em 27/9, na RecordTV e, por fim, em 1º de outubro na Globo – tradicionalmente o último e mais aguardado debate.

Luiz Inácio Lula da Silva informou previamente que não compareceria ao debate da emissora carioca, e Flávio Bolsonaro desistiu nos momentos finais ao saber que a Justiça havia emitido uma notificação de que a emissora convidasse Renan Santos, mesmo que o partido do candidato não tivesse a representação mínima no Congresso, como exige a legislação eleitoral.

O problema não é confirmar ou não sua presença. Afinal, tratam-se de “convites”, ou seja, nenhum candidato é obrigado a participar dos encontros nesta ou naquela emissora. O problema específico é deixar de dar um parecer ao público em geral. Lula usou em 2026, a mesma estratégia de Jair Bolsonaro em 2018. Na ocasião, alegando uma recuperação de saúde, o presidenciável recusou o convite para ir ao debate da Globo, mas deu uma entrevista exclusiva na Record no mesmo dia e horário. Ou seja: apenas trocou de emissora e não apresentou suas propostas para o público em geral, falando apenas para seus eleitores, sua bolha, enquanto os demais candidatos se encaravam na emissora concorrente. O resultado? Ganhou as eleições falando apenas para os seus.

Neste ano, Lula recusou todos os debates, mas deu uma entrevista ao podcast Flow no dia e horário daquele que seria o último encontro de presidenciáveis antes do 1º turno. Ou seja: trocou o formato, chamado por ele mesmo de “engessado”, para ter mais de uma hora de fala apenas para o seu público.

Vale ressaltar, mais uma vez, nenhum candidato é obrigado a comparecer nos debates e não há crime eleitoral em dar entrevistas exclusivas para este ou aquele veículo; mas quem sai perdendo não é a emissora e, sim, o eleitor, que deixa de presenciar uma troca de ideias e uma gama variada de assuntos. Lula disse no Flow que acha o modelo dos atuais debates engessado, porque você fala durante 1 ou dois minutos e precisa aguardar mais 10 ou 15 para voltar a falar, enquanto no podcast ele poderia falar ininterruptamente durante mais de uma hora. Sim, mas essa é a premissa do debate – inclusive, é para isso que servem os cronômetros estampados na tela – para que todos os candidatos tenham o mesmo tempo de fala e voz, já que nem mesmo no horário político obrigatório, há essa igualdade.

Imaginemos, agora, o cenário da próxima eleição em 2030: oito ou dez candidatos, nenhum deles aceita o convite para o debate, mas todos resolvem fazer lives ou dar entrevistas exclusivas no mesmo dia e horário. O eleitor não terá essa visão macro da situação e, mais uma vez, os candidatos falarão apenas para suas bolhas.

Em relação a números absolutos, a TV aberta tradicional, ainda tem alcance que a internet não consegue. Para se ter uma ideia, durante a entrevista ao Flow, Lula conseguiu um pico de 1.640.193 espectadores simultâneos; no mesmo momento, a live de Flávio Bolsonaro, em seu próprio canal do Youtube arregimentou 534.560 pessoas. Quem via Lula, não via Flávio; quem via Flávio, não via Lula; e quem não quis ver os dois, migrou para a novela “Quem Ama Cuida”, da Globo – que cancelou o debate e realocou a trama para o seu horário de origem. A audiência da TV? “Apenas” 22,6 pontos de média (na Grande São Paulo), o que equivale a 4,5 milhões de espectadores naquela região. Ou seja, somente na Grande São Paulo, a saga de Adriana x Pilar teve mais espectadores do que Lula e Flávio juntos, sendo transmitidos via internet para todo o território nacional.

Isso não significa que a internet não seja importante e nem que deva ser desconsiderada para fins eleitorais, mas significa que, por exemplo, aquela senhorinha humilde, de uma cidadezinha pequena, sem sinal de wifi, sem smartphone ou computador, não conseguiu acompanhar as falas dos dois principais candidatos ao cargo mais alto do país. Mas essa mesma senhorinha pode ter acesso a um aparelho de rádio (mesmo à pilha) ou TV mais simples e poderia tê-los assistidos não apenas em um, mas em quatro debates programados para a temporada, dos quais três foram cancelados e um não contou nem com Lula, nem com Flávio.

Ao recusarem os debates, Lula e Flávio não viraram as costas para a emissora X ou o jornalista Z. Eles recusaram estabelecer uma conexão direta com o seu próprio eleitor, que espera que o próximo presidente faça uma mudança razoável na realidade do país.

Abraçar as novas mídias e os novos meios de comunicação não é o problema. O problema é virar as costas para as demais pessoas que não compõem o seu seleto grupo de seguidores.

É uma pena que os dois principais nomes à presidência e que, provavelmente chegarão ao segundo turno, tenham se esquecido disso.

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Foto: Reprodução dos púlpitos vazios no debate da Band.

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