O que o caos nos ônibus de BH e Região Metropolitana nos ensina sobre nosso voto?

Errar ao escolher os candidatos neste domingo pode nos obrigar a penar por mais quatro anos no transporte coletivo

Antônio Pedro de Souza

A cena se repete indefinidamente: você chega ao ponto da linha 506 (Jardim da Glória/Estação Oiapoque) nas margens da Rodovia MG-10, em Vespasiano, às 6h40. O próximo ônibus está previsto para sair às 6h48. Dá 6h50, 7h e, às vezes, só então o motorista chega. Não saindo antes das 7h10. O fato ocorre em outros horários o longo do dia: O horário das 12h40 vira o das 13h, mas o ônibus só sai às 13h20. O último horário, das 19h36, muitas vezes não acontece. Na necessidade de chegar ao seu trabalho ou estudo sem atrasos, você descarta a linha 506 e pega o circular – 5715, 5605, 5815, etc – até a Estação Morro Alto e, de lá, escolhe uma das opções: 500 (Estação Morro Alto/Estação Oiapoque – Diteta), 501 (Estação Morro Alto/Estação Oiapoque – Paradora), 503 (Estação Morro Alto/Hospitais – Semidireta) ou 504 (Estação Morro Alto/Túnel da Lagoinha, trajeto pela avenida Cristiano Machado), mas o problema se repete: o horário das 7h vira o das 7h12, que vira o das 7h24 que, finalmente, sai às 7h36 – lotado, com brigas nas filas, fiscais atônitos que não conseguem controlar o alto fluxo de passageiros, e ônibus sucateados. Aí você pensa: posso pegar o metrô e me esquivar deste trânsito amalucado. Sim, nobre leitor. Acontece que não há uma linha ligando a Estação Morro Alto à Estação Vilarinho e os ônibus circulares que levam os passageiros dos bairros ao metrô são escassos e, com os sucessivos aumentos das passagens pós-privatização, chegar ao trabalho de metrô tem se tornado mais oneroso. Além disso, os horários do citado transporte têm sofrido alterações constantes, devido a obras ao longo da linha.

Chegam os fins de semana e feriados e a situação piora: quando há um feriado na sexta-feira ou na segunda, as linhas que operam em Vespasiano adotam, no sábado, a chamada escala de “sábado atípico”. Na teoria, deveria haver mais ônibus. Em vez de, por exemplo, uma viagem às 16h e outra às 16h30, haveria um às 16h, outra às 16h20 e mais uma às 16h40 (informações do site do DER/MG para a linha 5715). Na prática, não acontecem nenhuma das três viagens. Às vezes, ocorre uma às 16h e outra somente às 17h… Além disso, a linha 506 aos sábados (atípicos ou não) só roda até às 9h e, depois, somente a partir das 16h. Não há ônibus aos domingos e feriados. Na estação Morro Alto, as linhas 500, 501 e 503 são substituídas aos sábados, domingos e feriados pela única linha 505, que faz o itinerário pelo Centro e hospitais. O problema é que, nessas ocasiões, são retirados de circulação os ônibus articulados. Fazendo com que o fluxo de passageiros de três linhas seja colocado à mercê de apenas uma linha com ônibus convencional, desconsiderando que aos sábados ainda há muita gente no trabalho e, mesmo aos domingos, há muitos usuários que dependem das linhas. No começo da noite de domingo, os intervalos das viagens das linhas vespasianenses costuma ser de 90 minutos. Demora mais tempo para sair um ônibus da estação Morro Alto, do que o trajeto deste mesmo ônibus em seu itinerário habitual.

Aos fins de noite, a situação piora, independente do dia da semana: com a pandemia, foram retirados os ônibus noturnos. Após o fim do período de calamidade, eles não voltaram. Para se ter uma ideia, pegando como exemplo as mesmas linhas citadas anteriormente, em 2017 ou 2018,  você poderia ir a Belo Horizonte, participar de um evento, voltar para a área hospitalar e pegar a linha 503 à 1h20, 2h30 ou 3h40 da manhã. Chegava na Estação Morro Alto e poderia pegar o circular 5605 (Serra Dourada e Bernardo de Souza) que, no horário noturno, atendia aos bairros Jardim Daliana, Maria José e Gávea. Ele saía à meia-noite e meia e também à 1h30, 2h30 e 3h30. A partir das 4h20, as demais linhas circulavam normalmente. Como dito, durante a pandemia, as linhas noturnas foram suspensas e hoje, cerca de cinco anos após o fim do período de calamidade, ainda não foram restabelecidas. O último Move 503 sai da Estação Bernardo Monteiro (Hospitais) por volta da meia-noite, passando pela estação Aarão Reis (Praça da Estação) e se encaminhando para a Estação Morro Alto. No mesmo horário sai o último 501 da Estação Oiapoque. Eles chegam juntos, por volta da meia-noite e meia na Estação Morro Alto e, de lá, apenas dois circulares levam os últimos passageiros para seus bairros. O primeiro circular atende a região do Morro Alto: Nova Pampulha, Suely, Nova York, etc. O segundo atende o Santa Clara, Serra Dourada, Gávea e depois segue para a região do Caieiras. Não entra em todos os bairros. Não atende a todos os passageiros, que precisam se deslocar a pé de pontos estratégicos para suas casas, no começo da madrugada. A partir daí, por cerca de quatro horas, nenhum ônibus circula em Vespasiano.

Todos esses casos ocorrem na cidade que tem uma deputada que se gaba de trazer mais verba para o município, cuja mãe já foi prefeita do município. Mas Vespasiano não está sozinha no caos do transporte coletivo: basta um pouco de pesquisa e vemos as mesmas reclamações vindas de Santa Luzia, Ribeirão das Neves, Contagem, Betim, Ibirité, Confins e da própria capital, Belo Horizonte. Há poucos horários, há ônibus sucateados, faltam linhas noturnas.

No auge da pandemia, um grupo de empresários de empresas de ônibus foi flagrado “furando a fila” das vacinas. O caso gerou repercussão, já que havia pessoas sem condições de pagar pelo remédio e que estavam morrendo nos leitos – muitas vezes improvisados – dos hospitais. Descobriu-se, depois, que os próprios empresários caíram num golpe de uma falsa enfermeira e de que a vacina que eles tomaram era falsa. O caso acabou abafado, ninguém foi preso ou multado e os tais empresários passaram a ser tratados como vítimas, enquanto as verdadeiras vítimas morriam sem ar.

Esses mesmos empresários pedem socorro constantemente para o Governo (leia-se, para o dinheiro dos impostos pagos pelo cidadão) para salvar suas empresas, mesmo que a passagem da RMBH seja uma das mais caras, em vista de um dos serviços mais porcos do país. E tome subsídio, e tome ajuda, e os passageiros pagam a conta, sem ter retorno.

É preciso pensar direito em quem votar. Não adianta vestirmos rosa (alô, Vespasiano!), votar no deputado que tem uma ambulância e que quer colocar a filha em Brasília, escolher aquele outro que se diz preocupado com os animais, mas, que na prática votam a favor da privatização da Copasa, querem colocar pedágios nas principais rodovias da Região Metropolitana e que não estão dando a mínima para os usuários do transporte coletivo.

Os próximos quatro anos começam neste domingo. Pensemos bem, para não nos arrependermos depois.

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