Nunca foi sobre corrupção, sempre foi sobre mau-caratismo

Na guerra eleitoral, fala mais alto o interesse pessoal do que o bem-estar coletivo

Antônio Pedro de Souza

Depois da vitória acachapante da extrema direita no primeiro turno das eleições 2026, uma máxima repetida pelos eleitores deste viés político precisa ser analisada com a devida atenção: muitos dos que votaram em Flávio Bolsonaro, que irá disputar o 2º turno com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de outubro, dizem votar em candidatos do Partido Liberal porque são contra a corrupção. A realidade, porém, mostra dados bem diferentes. Entre os políticos do PL com mais votos neste pleito, incluindo Nikolas Ferreira (o mais votado do Brasil) e o candidato à presidência, todos têm alguma ligação com o escândalo do banco Master e Daniel Vorcaro. Para se ter ideia, de uma lista de nove candidatos de vários partidos que têm ligação com Vorcaro, sete conseguiram se eleger (ou reeleger) no dia 4 de outubro. Destes sete, cinco são de direta, sendo dois do PL. Apenas dois são da esquerda.

Para dar os devidos nomes e partidos: Nikolas Ferreira (PL/MG) e Mário Frias (PL/SP); Antônio Rueda (União Brasil Brasil/RS) e Elmar Nascimento (União Brasil/RS); Hugo Motta (Republicanos/PB) são os cinco políticos da direita envolvidos no caso Vorcaro que conseguiram uma vaga para o mandato que se inicia em 2027. Da esquerda, temos Jacques Wagner e Rui Costa (ambos do PT/BA). Ainda no time da direita, completa a lista o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, do PL. Todos esses políticos trocaram mensagens e/ou utilizaram serviços de Daniel Vorcaro, pivô do maior esquema de corrupção do Brasil, que supera com folga o famigerado mensalão no começo dos anos 2000.

A título de comparação, o desvio de dinheiro público revelado em 2005 foi de, aproximadamente, R$101 milhões, enquanto o caso Master, descoberto em 2025, já é estimado em R$50 bilhões. Ou seja, o esquema de Daniel Vorcaro, envolvendo majoritariamente os políticos da extrema direita, já é 500 vezes maior que o ocorrido há vinte anos. Não se trata aqui de relativizar um crime, mas constatar que se os bolsonaristas estivessem realmente lutando contra a corrupção, não passariam nem perto de certos candidatos.

Quer outro dado curioso (e real)? Frequentemente associado ao PT, o escândalo do mensalão teve outro partido como coprotagonista: exatamente o PL, atual casa do clã Bolsonaro e, intimamente ligado ao caso Master. Ou seja: a extrema direita que bate no peito e brada ser contra o PT por causa da corrupção, escolhe um partido envolvido nos maiores crimes de corrupção das últimas duas décadas. Logo, a questão nunca foi ser contra a corrupção.

Nikolas Ferreira foi o campeão absoluto de votos no país. Mas registros mostram que ele viajou em aviões do Vorcaro, trocou mensagens com intimidade de velhos amigos e segue tranquilamente com sua pauta preconceituosa sem ser incomodado, e sem incomodar seus apoiadores, que acham normal ter um deputado homofóbico e racista.

Mário Frias agradeceu os “incentivos” de Vorcaro ao filme “Dark Horse”, enquanto Flávio pediu dinheiro a Daniel para a conclusão da bisonha obra cinematográfica sobre seu pai, Jair Bolsonaro.

Resta lembrar que esse dinheiro desviado por Daniel Vorcaro envolve dinheiro de aposentadoria de servidores públicos. Pessoas carentes e que viram suas economias ruir perante a insaciável sede de poder da extrema direita. A mesma extrema direita negacionista da saúde (as 700 mil mortes na pandemia são um fato). A mesma extrema direita que se diz ser patriota, mas estampa bandeiras dos EUA e Israel em suas manifestações; que grita “Brasil acima de tudo”, mas pede intervenção de Donald Trump no dia a dia brasileiro; diz ser a favor da religião, mas não respeita a fé alheia; diz ser a favor da liberdade, mas mantém discursos inflamados contra a população LGBT, os negros e os indígenas; se diz conservadora, mas aceita com naturalidade o envolvimento de seus políticos em orgias promovidas pelo banqueiro corrupto.

Portanto, para os eleitores da família Bolsonaro, o posicionamento nunca foi o de ser contra a corrupção e, sim, o de se beneficiar dela. Para eles, vale muito mais a hipocrisia de apoiar criminosos, do que aceitar que outras pessoas, julgadas por eles como “diferentes”, tenham acesso a uma vida com o mínimo de dignidade. Nunca foi sobre ser contra a corrupção. Sempre foi sobre ser mau-caráter mesmo.

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