Crítica: Dia D

“E se a maior conspiração da História fosse real e de fato viesse a ser divulgada/revelada para todo o mundo, em tempo real?”

Luca Ramalho Rizzuti

Tenho para mim que toda boa obra de ficção que se preze nasce de um “e se?” (ou como diriam o mesmo no inglês “what if?”). Inclusive, dentro do cinema de gênero. O terror tem seus “guarda-chuvas” teóricos e como abordagens temáticos para muitos “e ses” conceituais, explorando, nossos mitos, nossas lendas e nossos maiores medos, de diferentes épocas e recortes.

O sci-fi não foge a isso.

Bom, a pergunta que não se cala no momento é: seria este novo filme de Steven Spielberg um produto do gênero sci-fi? A resposta mais rigorosa possível que eu possa dar é: sim, é, mas não se restringe apenas a um experimento de gênero nos moldes convencionais e tradicionais, até dentro do que o diretor já explorou outras vezes desde os primórdios de sua carreira.

De fato, é incrivelmente fascinante assistir a um filme de Steven Spielberg sobre seres alienígenas em pleno 2026. Período este de plenas tensões políticas no mundo, em que, talvez, pareça que o caldo social não esteja nem propício a isso. Começamos o país com o Trump, atual presidente estadunidense invadindo um país sul-americano (Venezuela), sendo humilhado inclusive por líderes de Estado de outras nações como Xi Jinping (da China). E isso não só porque o diretor esteja revisitando um tema que ajudou a definir sua carreira, como dito, mas porque o mundo finalmente parece ter alcançado algumas das perguntas que ele faz há pelo menos quarenta e cinco anos. Em uma era dominada por vazamentos governamentais, audiências sobre OVNIs, teorias conspiratórias absurdas e intensas, e discussões cada vez mais intensas sobre vida fora da Terra, este “Dia D” surge como uma obra curiosa e estranhamente contemporânea. E repito, para que se faça necessária a afirmação, não se trata só de um tratado cinematográfico e experimento de gênero. É mais que isso: é um filme sobre informação, sobre a crença e sobre o impacto devastador que uma verdade pode ter quando deixa de ser hipótese para se tornar fato consumado.

Os trailers mentem e enganam como sempre, mas por omissão. Spielberg não voltou ao tema para repetir a fórmula ou para filmar de um jeito lúdico e fabulesco, como o fez em 1982, com “E.T. – O extraterrestre” — voltou para virá-la pelo avesso. “Dia D” não oferece o caos que o público foi condicionado a esperar de um filme sobre extraterrestres (ou ao menos, oferece um caos diferente, como uma luta pela verdade): nada de cidades varridas do mapa, nada de frotas inimigas rasgando a atmosfera e de aparições de espécies alienígenas tecnologicamente mais evoluídas como em seu “Guerra dos Mundos”. O perigo, desta vez, tem mais rostos. São caras fardados de pretos, em carros pretos, em organizações que lutam para acobertar os fatos escondidos que apenas um grupo específico de pessoas sabe, experienciou ou teve acesso (os personagens de Emily Blunt e de Josh O’Connor, que, aliás, parecem mais que só terem tido contatos com o que está além da nossa mera compreensão terrena, mas atingiram o sobrenatural e chegaram à quintessência da alma e do ser: Margaret Fairchild parece conhecer todo o mundo só de se aproximar; e Danny Kellner consegue inclusive decifrar códigos complexos e mensagens cifradas com a mente).  O inimigo, o elemento antagônico tem a cara de quem sabe demais — e de quem fará qualquer coisa para que ninguém mais descubra.
É nessa tensão que o filme respira. O roteiro de  Koepp (moldado a partir da história concebida por Spielberg) constrói a trama como um jogo de gato-e-rato entre os guardiões de um segredo de décadas e aqueles que, por acidente ou obstinação, começam a puxar os fios errados. Há instituições dispostas a sufocar qualquer rastro, há pessoas que arriscam tudo para que a verdade não morra com elas — e há um relógio correndo. Não o relógio de uma invasão iminente, mas o da supressão: quanto tempo ainda é possível manter o mundo no escuro antes que ele se ilumine?
Spielberg envolve tudo isso numa neblina de desconforto que raramente se dissipa. A sensação dominante não é de terror, mas de vertigem — a de personagens que percebem, aos poucos, que o chão em que pisaram a vida inteira foi construído sobre uma omissão monumental.

Este filme é o oposto de muito exemplar contemporâneo no cinema mainstream, que se esforça para trazer um peso característico para qualquer cena mundana. Porém, na medida em que a narrativa integra aspectos mais específicos da trama com o tema do cinema de modo mais sutil, o longa melhora muito. Tudo bem que o filme já começa muito fluido (a primeira meia hora já é muito fluida) e todo ele o é. A jornada metafísica que Spielberg fabula aqui, de um modo mais sério e como um thriller, e a busca material por revelar verdades antes que seja tarde e que o inimigo (sempre o governo e as instituições) e as possibilidades de representação que as imagens oferecem funcionam como mediações dramáticas e íntimas muito expressivas.
O que não deixa de ser um grande exemplo da habilidade de Steven Spielberg em fazer filmes aparentemente pretensiosos sobre grandes temas, mas sem cair na cilada que vários caem. Apesar do cineasta lidar, nessa obra, com toda uma questão de um tema que para ele sempre foi de interesse (o que serviria de um meta-comentário para seu próprio cinema), ele consegue encontrar um tom que não é meramente narcisista ou centralizador, ou meloso e apelativo ao extremo.

Desse modo, a relação com o cinema nunca se limita a uma visão puramente ingênua ou infantilizada. Ela está integrada nos dramas mundanos.

Para Steven, o realismo já está implícito na natureza da linguagem cinematográfica, que deve ser respeitada a partir do olhar artístico de cada cineasta.

Para isso, o artista nunca serve apenas a si próprio; ele responde a uma força sagrada acima dele, agindo como instrumento de uma ordem divina.
Apesar de seus filmes lidarem com temas simbólicos a partir de um olhar muito doce e inocente, o cineasta sempre alcançava tais resultados conservando elementos concretos em cena, sem recorrer a meras simbologias limitadoras.
Uma imagem, no cinema de Spielberg, assim como em Shyamalan ou em Tarkovski, nunca se restringe a um símbolo que faz alusão a um conceito pré-determinado. Ela evidencia elementos materiais em cena — a natureza, um rosto, um ambiente, um objetivo na ação dramática, uma pintura — que funcionam como formas de transfiguração para definições metafísicas.
E numa era em que até seus colegas de geração como Martin Scorsese se “rende” a IAs e, para muitos cinéfilos, agora “jogado na lata do lixo da História da Arte do Cinema”, assim como um Darren Aronofsky que, poxa, fez uma série inteira com uso de Inteligência Artificial, Spielberg acredita que tanto o elemento humano, quanto a metafísica, o poder que reside no simbólico daquilo que o humano e científico ainda não conseguiu explicar (como extraterrestres), ou a inocência e a fábula, como “armas de storytelling” (brinquemos figurativamente, em “teoria do autor”, que um diretor, quando faz um filme, é como Deus, que faz da linguagem do Cinema e do audiovisual instrumento de sua vontade para criar suas obras, é o que quero dizer), Steven ainda prova ter seu diferencial e merecer nossa atenção.

Algo digno de nota.

Cotação por ossos:

9,5

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