Crítica: Anatomia do Caos

Sim, de fato, ainda precisamos discutir a gestão da pandemia da Covid-19 no Brasil. Mas talvez a abordagem explicativa, que toma o espectador por idiota e amnésico, não seja a mais interessante hoje.

Luca Ramalho Rizzuti

Real que consta em “Anatomia do Caos” que a pandemia de Covid-19 teve uma gestão catastrófica no Brasil. O (des)presidente Jair Bolsonaro e seus ministros negaram vacinas; fizeram propaganda de medicamentos sem eficácia comprovada por um rigor científico; incentivaram a propagação do vírus, visando uma imunidade de rebanho, e, por fim, envolveram-se em esquemas corruptos de aquisição de vacinas superfaturadas. Mais de 700 mil pessoas morreram em decorrência de uma doença que poderia ser controlada e combatida, caso houvesse real disposição das autoridades nessa investida. O episódio demonstrou falta de empatia, de liderança e de transparência por parte do primeiro político pós-reabertura democrática a não conseguir sua reeleição nas urnas.

A diretora Dandara Ferreira tem razão neste diagnóstico. Seria difícil contradizer evidências tão facilmente comprováveis a respeito do passado recente — até porque, como o filme também lembra, todos nós fomos afetados, seja por perda de entes queridos, seja por prejuízo econômico. Em um vídeo de divulgação na Internet, a cineasta explica que criou esta obra “para que esse história não seja esquecida”, frisando que “o cinema tem um papel de utilidade pública, e é também político”, o que não é mentira. São pretensões nobres, e igualmente defensáveis. De fato, ninguém deveria ignorar ou minimizar o que houve no país (seja em período eleitoral, ou fora dele). Todo cinema de fato é político; e a função de memória dos materiais de arquivo constitui uma das potências do audiovisual. Novamente, não há nada a contestar nesse pressuposto. É um postulado que nem cabe discutir.

Seguinte, Bill Nichols em “Introdução ao Documentário” postula que, para um bom documentário que se preze, precisa se ter “a” defesa de um ponto de vista. Afinal, documentário (cinematograficamente, enquanto linguagem) não é e nem precisa ser jornalismo (o que também tem seu lugar), mas está fora de discussão aqui.

Isso o filme de Dandara até tem e faz e é firme, mas como o faz? Eis a questão. Lembrando que filmes também são documentários e conciliam forma e conteúdo.

As ressalvas ao longa-metragem provêm de como, e de quando, estas reflexões são elaboradas. A autora opta pela abordagem abrangente e cronológica. Lista fatos, pontuando os momentos marcantes desta gestão equivocada. Ao se focar na CPI da Covid, a montagem privilegia os instantes em que os depoentes se contradizem nas respostas básicas, se perdem na papelada, ou ainda, quando as videochamadas travam. Existe certo prazer em mostrá-los na condição de trapalhões, para além de perversos e irresponsáveis. Entretanto, de modo geral, os acontecimentos sublinhados devem estar frescos na lembrança de qualquer espectador disposto a assistir a um documentário brasileiro a respeito da Covid nos cinemas. Ou se pressupõe que um bolsonarista convicto, e um eleitor indeciso, comprariam o ingresso para esta sessão? (A questão se mostra pertinente, visto a pretenção anunciada de pensar o filme enquanto utilidade pública). 
Logo, este lembrete chega às salas escuras ao mesmo tempo cedo demais, e tarde demais. Cedo, porque a pandemia ocorreu há poucos anos, e ainda processamos as transformações no Brasil desde a crise sanitária. Tarde, porque as discussões acaloradas a respeito do vírus e sua gestão foram deixadas em segundo plano, desde o fim da pandemia — justamente pela vontade de passar a outra coisa, de evitar o tema da contaminação, dos remédios, e daquela gestão, que saturaram o imaginário durante aproximadamente três anos. Por isso, a reincidência de frases a respeito do “histórico de atleta”“Deixa de frescura e mimimi”“E daí, eu não sou coveiro?” e outras similares apenas enfiam o dedo numa ferida não plenamente cicatrizada. De que maneira poderíamos efetuar o luto através desta coletânea de piores momentos?
Mesmo que aborde especificamente a CPI da Covid, é difícil dizer que “Anatomia do Caos” traga alguma reflexão inédita (e deveria? Alguns perguntarão), instigante, ou minimamente diferente de tantas que o antecederam. O olhar panorâmico, incluindo contagem progressiva de mortos na tela, junto a uma assombrosa música de suspense em modo true crime, apenas nos relembra daquilo que não esquecemos (pelo menos — vale repetir — os espectadores dispostos ao contato com a obra). Após tantos documentários similares nos últimos anos, associando o caos social e político brasileiro à gestão Bolsonaro, vide um modelo bem Petra Costa (caso de “No Céu da Pátria Nesse Instante” e “Quando Falta o Ar”), paira a impressão de que a obra carece de um ponto de vista. Seu posicionamento ideológico é claríssimo, assim como seus métodos. Entretanto, ressente-se a falta de um olhar pessoal ao mesmo problema apresentado. Não se discute, não se problematiza nada. Fica patinando no óbvio.
A memória fundamental da Covid poderia ocorrer por meio de algum caso humano específico; pela batalha particular de um ou outro político; pelo caso selecionado de alguma cidade; pelo viés estritamente farmacêutico; pela comparação com a gestão do problema por outros países, etc. Haveria inúmeras possibilidades de retomar o tema — que, de fato, ainda pode e deve ser intensamente debatido — sem produzir tamanha sensação de déjà vu, nem nos explicar o óbvio novamente. O problema desta abordagem reside no pressuposto de que precisamos ser introduzidos didaticamente ao tema, naquele modelo “professoral” que assola um setor da esquerda há um bom tempo. Mesmo com um assunto ainda fresco na memória e no sangue de cada um. Ao invés de terapêuticas ou conciliadoras, as recordações de risadinhas de Bolsonaro revelam-se perversas, não reflexivas. Em outras palavras, em fragmentos desta natureza, dialoga-se mais com a emoção do que com a razão, o que nos impede de estabelecer o mínimo distanciamento necessário ao debate. E o que se queria de fato? Comover apenas? Causar mais choque e revolta (de algo que é do conhecimento de todos) ou contribuir na arena do debate público?

***

Cotação por ossos: 2,0





Deixe um comentário