Crítica: Michael

Quem controla o entretenimento, controla a cultura

Luca Ramalho Rizzuti

“Whooooo!”

“Ihhhhh-ihhh!”

“Auuu!”



Atrás das cortinas do entretenimento há um intricado jogo de poder, cujo efeito é capaz de promover grande dominação cultural ou dar aos indivíduos signos de resistência e até de contracultura. Filmes, músicas, shows e artistas midiáticos são construídos ao redor de um discurso que seduz, fascina, comove e influencia o público, e quem controla esse discurso exerce enorme poder político.
Quem controla o entretenimento, controla a cultura, normaliza as condutas e espreme os valores a serem seguidos numa sociedade. E por isso o cinema e a música, formas de entretenimento massivo, são as trincheiras de onde se trava a guerra pelo poder cultural.
Anitta ou Gusttavo Lima, Caetano Veloso ou Lobão, Roger Waters ou Eric Clapton, na música, já foram veículos de ideias opostas, tal como no cinema Charles Spencer Chaplin e John Wayne, Marlon Brando e Clint Eastwood, Leonardo DiCaprio e Dwayne Johnson, corporificaram ideologias antagônicas.
E tivemos Michael Jackson: ícone inigualável na cultura pop mundial, aquele que definiu e redefiniu o que é ser um símbolo pop, e requebrou em toda a amplitude do espectro político. Um magnata diria que o sucesso está, justamente, em vender ao mesmo tempo para pretos e brancos, feministas e machistas, progressistas e conservadores. E Michael, de fato, fez isso tudo com louvor. Então chega seu filme aos cinemas…
A onda das cinebiografias musicais, que atingiu níveis comerciais absurdos desde “Bohemian Rhapsody”, de Bryan Singer (o diretor creditado*, pois também foi parcialmente conduzido por Dexter Fletcher), em 2018, ganha um de seus capítulos mais esperados agora, com a ficcionalização da jornada epopeica, a trajetória do Rei do Pop.

Em “Michael”, que entra em cartaz na quinta-feira (23) – pós-feriado – nos cinemas brasileiros, o produtor Graham King, mesmo do filme sobre o Freddie (Rami Malek) e o Queen, lança o desafio de abranger uma parte significativa da tão conhecida história de Michael Jackson, partindo de sua infância, com o grupo The Jackson 5, até o auge de sua fama, após o estouro de vendas de seus primeiros álbuns em carreira solo.
E como se já não fosse complicado, como se não bastasse ser um desafio hercúleo o de condensar uma vida de um artista dessa magnitude —  nessa escala de fama global — em um longa de pouco mais de duas horas (vale lembrar que o corte inicial, antes de ser reeditado, estava previsto para totalizar até mais que três horas), “Michael” ainda tem que se situar numa “sinuca-de-bico” entre a fidelidade biográfica e as obrigações contratuais. 
O projeto, que cobre apenas a primeira metade da vida do artista, possui várias amarras de liberdade criativa. Sem antes falar no seu maior problema, seu “calcanhar de Aquiles”, é um filme “clean“, feito para ser “lindo” e “especial” demais. Feito para agradar. Não criar conflito. É o típico filme feito sob medida para fãs. Na embalagem pronta para todo mundo sair encantado e achando que era um “homem absolutamente maravilhoso”. Filme para o grande público é assim. Não pode “ofender” muito, senão desagrada. Afinal de contas, quem raios pagaria centavos no ingresso num filme intitulado “Michael” se for para pintá-lo como um “ser humano reprovável”. (E não que ele fosse, pois tudo que se tem de informação pública a respeito dele, é o homem gentil que era, mas que a mídia por décadas queria pintar como “monstro”.)
O ponto é a falta de responsabilidade ao conferir camadas ao personagem Michael. Tanto que se esquiva de qualquer polêmica em torno da figura dele. A questão é de estrutura. É que se tornou uma fórmula fácil para cinebiografias: quando não quer chocar ou “manchar” a imagem ou conferir ambiguidade dramática ao biografado, torne-o superficial ou um santo.
É que precisavam de um conflito pra tocar a história (já que narrativamente, isso é básico: sem conflito, não há história), e não podia ser racial (tanto que não há qualquer engajamento real com uma luta étnico-racial de fato; outras figuras da negritude parecem nem existir naquele mundo, aliás), ou assédio, pedofilia, nem a Janet Jackson. Escolheram o pai dele, então.
Não que Joseph Jackson (vivido aqui por Colman Domingo) não tenha sido um monstro, um carrasco na vida artística e pessoal dos filhos, sabe-se que sim, isso é público, inclusive. Mas a questão é o achatamento em prol de uma falta de complexidade: santificar o Michael como um ídolo imaculado, perfeito; satanizar Joseph como um vilão nefasto. O personagem verídico (falecido em 2018, nove anos depois do filho), foi notório pela violência física e psicológica com que tratava os filhos, mas tanto a caracterização do ator Domingo quanto o texto não lhe conferem qualquer complexidade ou senso verdadeiro de intimidação.
Tanto é que virou um cacoete das “biopics”, que nem o brasileiro “Homem com H”, de Esmir Filho, conseguiu fugir. E a questão nem é o argumento de fidelidade biológica “ah, mas porque na vida real, a vida desses artistas foi assim”; bom, até porque, se for para ser assim, leríamos livros ou assistiríamos a documentários sobre os artistas ao invés de também procurarmos nos entreter com a ficcionalização de suas vidas em tela. Não, quando se está contando uma história/estória, precisa-se haver um grau de comprometimento.
Quem interpreta o Michael aqui é Jaafar Jackson, sobrinho real do próprio e filho do cantor e baixista Jermaine Jackson, um dos membros originais do The Jackson 5. Além da vantagem biológica, o ator, estreante no cinema (introducing Jaafar Jackson), vira o próprio Michael e dá vida a ele nas telas muito bem. Jaafar incorpora a voz e até os trejeitos do artista com uma fluidez que escapa da armadilha comum de uma simples imitação. Além de cantar e de dançar, exprime muito bem a ótima dicotomia entre a retratação do artista, ou a retração, a timidez e o modo misterioso do astro, enquanto estrela, e sua necessidade inerente de ser e de se provar o maior e mais intocável ícone musical que já existiu.
Com a direção de Antoine Fuqua, que ama trabalhar com Denzel Washington, por exemplo (e que já há muito tempo não via um filme realmente bom dele),
há toda a inexistência de nuances ou sutileza na construção dramática do protagonista (retratado como um ser de pureza inalcançável) e das figuras que o cercam (os irmãos Jackson mal ganham vida ao longo da obra), “Michael” compensa na reprodução cuidadosa de passagens essenciais para a compreensão de seu fenômeno. A sequência de recriação dos icônicos clipes de “Beat It” e especialmente de “Thriller”, o hino — que quebrou barreiras do formato e se tornou um divisor de águas na história da cultura pop — é um dos momentos que priorizam a contemplação da tão poderosa iconografia e dão o tempo necessário para o espectador se envolver com a música sem interromper a estrutura do filme. Mas de resto, “Don’t Stop Til You Get Enough”“Billie Jean”, “Human Nature” e “Bad”… nada de mais.
Longe de ter a complexidade e um respeito (ainda que não 100% fidedigno) que um “Elvis” — falando nisso, com a energia da direção de Baz Luhrmann — ou “Rocketman” tiveram com suas figuras retratadas, acho que mesmo dentro de uma estratégia comercial cheia de restrições, faz falta, aqui e em outras cinebiografias musicais, um olhar verdadeiramente humano sobre essas figuras tão difíceis de entender. Melhor seria ter isso do que continuar tendo filmes “chapa-brancas” sobre vida de artistas.
Chegará uma hora que isso vai se esgotar… Afinal, este não é um filme exatamente  sobre a pessoa Michael, e sim sobre a marca “Michael Jackson”, enquanto um ídolo perfeito. Isso vai decepcionar muita gente? Sim, mas vai agradar também e já está garantindo muita bilheteria, independentemente de qualquer coisa do tipo. Além da distribuição e do marketing, a intenção é, naturalmente, alcançar o maior número possível de pessoas e agradar os milhões de fãs espalhados pelo mundo. E certamente o fará.
Bom, isso meio que já era esperado — que o filme amenizasse o que tem em torno da figura Michael em prol do marketing e do entretenimento e de não tocar em temas espinhosos e que são caros ao nome Jackson. Até porque, a propósito, os próprios Jackson’s têm o nome assinado e envolvido na produção do filme.
O problema é que esse tipo de abordagem mais rasa, em última análise, deixa o grande público ainda mais distante de realmente entender os seus mitos: seus músicos e suas figuras. Algo lastimável pelo desperdício, mas previsível dentro da indústria.
P.S.: ⚠️ cuidado para quem tem spoilerfobia: na cena pós-crédito, ele aparece falando que ainda está vivo nos dias de hoje e dá seu gritinho “Auuuu!” 🤣🤣🤣

***

Cotação por Ossos:

6,0

***

Ficha Técnica:

Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Produção:
Graham King
John Branca
John McClain
Direção de fotografia: Dion Beebe
Direção de Arte:
Jason Perrine
Eric Sundahl
Direção de elenco:
Kimberly Hardin
Victoria Thomas
Figurinista: Marci Rodgers
Designer de produção: Barbara Ling
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Elenco:
Jaafar Jackson – Michael Jackson
Colman Domingo – Joe Jackson
Nia Long – Katherine Jackson
Miles Teller – John Branca
Juliano Krue Valdi – Michael Jackson criança
Jamal R. Henderson – Jermaine Jackson
Jayden Harville – Jermaine Jackson criança
Tre Horton – Marlon Jackson
Rhyan Hill – Tito Jackson
Judah Edwards – Tito Jackson criança
Joseph David-Jones – Jackie Jackson
Nathaniel Logan McIntyre – Jackie Jackson criança
Laura Harrier – Suzanne de Passe
Larenz Tate – Barry Gordy
Kat Graham – Diana Ross
Jessica Sula – La Toya Jackson
Kendrick Sampson – Quincy Jones
KeiLyn Durrel Jones – Bill Bray
Kevin Shinick – Dick Clark
Derek Luke – Johnnie Cochran

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Fotos: Capa – Divulgação Espaço/Z

Miolo: Divulgação Palavra! Assessoria em Comunicação

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