Filme de David Frankel mostra que nem sempre é preciso reinventar a roda para continuar sendo um clássico
O ano era 2006 e meu amigo Klelvin e eu líamos as sinopses dos filmes em cartaz nos cinemas diariamente no jornal Aqui, dos Diários Associados, antes de entrar para o colégio Machado de Assis, no Centro de Vespasiano. Sem conhecer nada sobre o mundo da moda, julgávamos que havia um erro de digitação no título “O Diabo Veste Prada” (pensávamos que deveria ser “prata”). Tempos depois, a fama do filme foi crescendo, ele foi anunciado como atração do “Cinema 2009” na Globo e eu comprei o DVD nas Lojas Americanas. Ainda sem entender o contexto da palavra “Prada”, o longa-metragem se tornou um dos meus queridinhos. Tão querido, que após comprar o DVD (e, posteriormente, o Blu-Ray), comprei também o livro e o CD com a trilha sonora. E, então, aprendi os nomes de alguns estilistas famosos que eram citados ou apareciam durante a projeção de quase duas horas.
Lançado em 2003, o livro que deu origem ao filme se tornou um best seller e alçou sua autora, Lauren Weisberger à fama. Ela “exorciza” sua experiência como assistente de Anna Wintour, então editora-chefe da revista Vogue. Em 2006, o livro foi adaptado para o cinema, com Maryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt. O resto é história.
A adaptação cinematográfica traz algumas alterações pontuais à trama impressa: no livro, o namorado de Andrea é Alex, e ele é professor; enquanto no filme é Nate, trabalhando como cozinheiro. No livro, não existe o personagem Doug, e Lily, melhor amiga de Andrea, sofre com o alcoolismo, é estudante universitária e trabalha como garçonete. Também conhecemos mais a fundo a família da protagonista (no filme, apenas o pai aparece), bem como um pouco mais da família de Miranda.
As missões, porém, continuam impossíveis: incluindo a hilária sequência da “busca pelo Harry Potter” que, embora seja levemente diferente da vista nas telas, segue com um toque de loucura à la Runway.
E temos, claro, Christian Thompson (no filme), que se chama Christian Collinsworth (no livro) e é o mesmo babaca em ambas as versões. Justiça seja feita: Alex/Nate não pode ser considerado tão tóxico quando ampliamos o olhar sobre toda a história.
Passados dez anos do lançamento do livro, Lauren brindou os leitores com “A Vingança Veste Prada”, continuação direta da obra original, mas que trazia alguns elementos que faziam mais sentido para quem tinha visto o filme, é verdade. A essa altura, muitos fãs já se perguntavam quando é que teríamos uma continuação do filme, visto o sucesso do primeiro longa.
A resposta mais óbvia era 2016, marcando os 10 anos de lançamento do filme e, seguindo a tradição do espaço de uma década entre os livros. Talvez se tivesse sido lançado naquele ano, teríamos, sim, uma adaptação fiel de “A Vingança Veste Prada”. Mas isso não aconteceu e, agora, mais dez anos depois, embora eu ame o segundo livro, realmente não faz muito sentido adaptá-lo tal como foi escrito. Os tempos mudaram de maneira acelerada e alguns tópicos abordados há dez anos, soariam estranhos hoje.
Quando o segundo livro começa, Andrea está se casando com um milionário, cuja mãe não gosta dela. Descobrimos que ela e Emily se reencontraram numa vida pós-Runway e que fundaram uma revista voltada para noivas. Andy ainda tem pesadelos com Miranda e, num determinado momento, ela assiste a um documentário sobre a editora-chefe na TV por assinatura. Na tela, Miranda parece não saber o nome ou não se lembrar de suas assistentes atuais e passadas.
À medida que a revista de noivas de Emily e Andrea faz sucesso, surge um convite inesperado de Miranda que, a essa altura, além de mandar na Runway, manda também na editora Elias-Clark: ela é a diretora de negócios da corporação e quer comprar o título de suas ex-assistentes, incluindo-o no vasto acervo da editora. Andrea olha a oferta com relutância, enquanto Emily baba pela oportunidade de conviver novamente com a ex-chefe.
Miranda também passa por dramas pessoais, com suas filhas crescidas e uma delas sendo adepta ao “submundo do rock” e um estilo de moda peculiar demais para que a mãe encare com bom humor.
Entre idas e vindas, Emily, seu marido e o marido de Andrea tramam a venda da revista para Miranda, sem que a mocinha se dê conta. Felizmente, todos são devidamente castigados no final e, num daqueles clichês emocionantes de romance água com açúcar, Andrea reencontra Alex nas páginas finais.
Agora, esqueça toda essa trama, porque “O Diabo Veste Prada 2” desconsidera praticamente todo e qualquer elemento de “A Vingança Veste Prada” e parte para uma história quase totalmente nova.
Andrea é uma jornalista respeitada, que recebe um prêmio e é demitida na mesma noite. Já Miranda, encara uma crise sem precedentes ao ver a Runway envolvida num escândalo sobre trabalho escravo em uma grife de moda.
Irv Ravitz, presidente e dono da Elias-Clark, exige que Miranda dê um jeito na imagem da revista e, para ajudá-la, ele contrata Andrea(!). A moça assume o cargo de editora de especiais apenas para descobrir que Miranda não a suporta, continua sendo autoritária, mas que aceita fazer algumas concessões em nome da Runway e de sua tão aguardada promoção como diretora-geral da Elias-Clark (referência aos eventos mostrados no segundo livro). A promoção tem sido protelada por Irv e, agora que Andrea entrou na jogada, pode ser a grande oportunidade de Miranda. Enquanto isso, Emily trabalha como diretora comercial da Dior e promete ser uma pedra no sapato da ex-chefe, bem como da ex-colega.
É claro que muita coisa mudou desde 2006: Miranda não pode mais jogar casacos em suas assistentes, porque “alguém reclamou no RH”. A revista também está sofrendo: o avanço predatório das mídias digitais minou a versão impressa que, “ainda existe, mas quase ninguém compra”, o que se torna um novo desafio para Andy: produzir matérias interessantes para o formato digital e impresso, atraindo novos leitores e não espantando os que ainda prestigiam a Runway.
Numa das reviravoltas do destino, Miranda não só pode perder sua promoção, como também o emprego e levar todos, incluindo Andrea e Nigel, com ela para o limbo do jornalismo. Preocupada com sua carreira e com o emprego dos colegas, Andrea tem um plano brilhante e resolve se aliar à Emily para, juntas, salvar a Runway. Aqui, entra uma prova de fidelidade, que remete à traição citada no segundo livro, mas com um desfecho diferente – pelo menos em partes.
Com um guarda-roupa novinho da mais alta costura, “O Diabo Veste Prada 2”, como dito na apresentação deste texto, não reinventa a roda: não há elementos totalmente novos ou mirabolantes em relação ao primeiro filme, e talvez por isso mesmo, honra em cumprir o papel de um clássico: sua essência é mantida. Para prender os fãs do longa de 2006, a primeira parte é cheia de referências que, aos poucos vão se diluindo para que o novo filme não seja apenas uma colagem de boas ideias e saudosismos. Temos, sim, uma nova história, novos embates e uma personalidade própria, mas sem abrir mão das características que tanto amamos nos personagens do original.
O fato de Miranda não poder agredir suas assistentes o tempo todo soa engraçado na medida certa: Ela ainda é aquela megera de vinte anos atrás, mas também é a humana que tem saudade das filhas, que quer manter um casamento funcionando e, claro, ter o seu emprego por tempo indeterminado.
Andrea ainda é a jornalista sonhadora, mas com um pé mais fincado na realidade, além de ter amadurecido mais. Está mais corajosa. Emily continua deslumbrada pelo mundo da moda, mas também está ciente de sua própria importância para este mundo. Bem como Nigel que, simplesmente, ama seu trabalho e quer executá-lo da melhor maneira possível. Lily também evoluiu: sendo diretora da galeria de arte e confidente de Andy. Irv Ravitz está ciente de seu poder (ele é o único ser capaz de bater de frente com Miranda), mas terá que passar a bola para seu filho Jay, que se mostra atrapalhado e incompetente, colocando a carreira de todos em risco.
Entre os novos personagens, temos uma ricaça interpretada por Lucy Liu e seu ex-marido e atual affair de Emily, interpretado por Justin Theroux. Aliás, embora apareçam pouco em cena, são os dois que ditarão os rumos da Elias-Clark e, obviamente, da Runway, então vale ficar de olho em cada aparição.
Além da modernização nas relações de trabalho e dos desafios de convivência entre o jornalismo digital, o impresso e o mundo paranoico de influenciadores digitais, vale a pena reparar no choque de gerações que, embora não seja explorado com profundidade, aparece em tela com erros e acertos tanto para os novos talentos Runway, quanto para os veteranos. Ou seja: quando há união de diferentes forças, as coisas fluem.
O momento dos desfiles brinda o público saudoso do primeiro filme. Aqui, trocam-se as passarelas de Paris pelas de Milão e, ao som de “Vogue”, somos apresentados a uma variedade de vestidos, bolsas, calças, saias e outros adereços da moda.
Nos raros momentos de confidência, tal qual em 2006, Miranda reconhece o valor de Andrea – só para pedir mais uma ou duas missões. Só que, agora, a própria Andrea tem mais valor e poderá ter um embate mais igualitário.
Destaque, ainda, para a participação de Lady Gaga (nos desfiles em Milão) e para a trilha sonora, que traz do original a já citada “Vogue”, além do tema instrumental principal, “Suite From The Devil Wears Prada”. A seleção de músicas não é tão eletrizante quanto a do primeiro filme, mas ainda assim é boa, como os novos “clássicos modernos” do mundinho badalado das celebridades.
Enfim, “O Diabo Veste Prada 2” é eficaz ao que se propõe, respeitoso ao primeiro filme e consegue contar uma história própria sem se apegar apenas à nostalgia, como é comum em tantas sequências. A nostalgia existe, claro, mas somente nos momentos certos. Afinal, a moda (e o jornalismo) mudam a cada momento.
“É só isso!”
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Cotação por Ossos:
8,0
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