Crítica: Pinóquio (2026)

Parece mentira, mas fábula sobre o menino feito de madeira ganhou mais uma versão nos cinemas

Antônio Pedro de Souza

Algumas histórias são eternas e, por isso, sempre serão recontadas. Entre elas, os clássicos contos de fadas e fábulas eternizados por nomes como Perrault, Grimm, La Fontaine, Esopo… Cada um em sua época, soube dar vida a seres imaginários, objetos até então inanimados, animais que passaram a ter características e comportamentos humanos.

Com o advento do cinema de animação ainda na primeira metade do século XX, os estúdios de Walt Disney souberam dar uma nova roupagem a essas histórias e, de maneira curiosa, pegaram para si, pelo menos no imaginário popular, a autoria e o controle de vários desses contos. Assim é impossível desassociar, por exemplo, “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Alice no País das Maravilhas”, “Cinderela”, “A Bela Adormecida” e “A Pequena Sereia”, para citar apenas alguns títulos, das produções da Disney, mesmo que seus autores originais tenham vivido muito antes da invenção da sétima arte. Alguns desses contos, por exemplo, vêm da tradição oral e, após várias gerações, ganharam registros por escrito nas mãos talentosas dos autores citados.

No caso de Pinóquio, a história ganhou as páginas em 1883, pelo italiano Carlo Collodi e versa sobre um boneco de madeira que quer ser gente. Corta para o famigerado século XX e as incontáveis adaptações Disney e temos a versão animada clássica de 1940, sendo quase impossível, a partir de então, desassociar estúdio e personagem.

Mas o carismático boneco era bom demais para ficar preso em apenas uma casa. Com a história original caindo em domínio público, sucederam outras adaptações dos mais variados estúdios. Tivemos Pinóquio de terror, Pinóquio futurista, obras explorando um caráter mais sombrio, mais leve, e até discutindo sexualidade, como no caso do carismático Pinóquio da franquia Shrek.

Nos últimos anos, uma nova leva de filmes com personagem ganhou vida: Guillermo Del Toro, conhecido por suas obras mais expressionistas, fez uma versão que se aproxima mais do clima de “O Labirinto do Fauno”, por exemplo.

E, agora, temos mais uma versão do conto, produzida na Rússia. Com visual atraente e tentando mesclar gêneros cinematográficos, o filme dirigido por Igor Voloshin, peca exatamente em se afastar do conto original e embarcar numa caçada por uma chave mágica (sim, outras histórias inspiram o longa).

Embora o mote inicial seja o livro de Carlo Collodi, a história logo ganha uma vida (ou mentira?) própria, trilhando novos caminhos e descobertas para os personagens e o público. Para completar a mistura de filme infantil, fantasia e aventura, o longa-metragem ainda se aventura no gênero musical – para desespero do espectador, já que os números de dança e canto são bem aquém do esperado. No começo, é até bonitinho, mas logo enjoa. E quando começa a se repetir na tela, dá vontade de deixar a projeção de lado.

Enfim, a crítica aqui não é exclusivamente ao filme Pinóquio, mas a um “novo jeito” de se fazer (ou tentar fazer) cinema: não há nenhum problema em se misturar gêneros cinematográficos, mas pelo menos ter o esmero de que cada um deles tenha o seu devido tempo, cuidado e desenvolvimento em tela. Lembram de como “Emilia Pérez” não se sustentava como um filme de drama, como um musical ou como um filme de ação? Pois é, “Pinóquio” (2026) sofre do mesmo mal. Não sabemos se estamos diante de um musical teatralizado, de uma comédia familiar, de um suspense infanto-juvenil ou, simplesmente, de um filme próprio para crianças.

Além disso, o fato de se distanciar da história original, mas se vender como uma “adaptação fiel”, queima a credibilidade do título. Não há problema em se afastar de suas origens, desde que você deixe isso claro para o público. “Espelho, Espelho Meu” soube fazer isso muito bem com “Branca de Neve”, por exemplo.

Por fim, vale ressaltar a fotografia que, carrega um clima de melancolia e deixa as coisas mais sombrias. Se é para criar suspense, que haja sombras expressionistas no cenário. Esse detalhe é importante. Do mais, há uma miscelânea de contos clássicos, trilha sonora que não convence e personagens mal desenvolvidos. Uma pena. O “rei da mentira” merecia bem mais que uma simples mentira cinematográfica.

***

Cotação por Ossos:

7,0

***

Ficha Técnica:

Direção:

Igor Voloshin

Elenco:

Vitaliya Kornienko
Aleksandr Yatsenko
Fedor Bondarchuk

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