CRÍTICA: HALLOWEEN ENDS

Final satisfatório para uma franquia icônica

Antônio Pedro de Souza

Em 1978, John Carpenter e Debra Hill levaram às telonas um dos filmes que serviria de base para diversas outras produções cinematográficas a partir dali: “Halloween”. Filmado de maneira simples, com poucos recursos e elenco enxuto, trazia como protagonista Laurie Strode, vivida pela estreante Jamie Lee Curtis, filha de uma estrela de Hollywood: Janet Leigh que, por sua vez, já havia tido seus dias de vítima de psicopata no clássico “Psicose” (1960).

“Halloween”, aliás, presta várias homenagens ao longa de Alfred Hitchcock: o nome do médico de Michael Myers é Samuel Loomis, mesmo nome do namorado de Marion Crane na fita de 1960.

Enfim, “Halloween” conseguiu fisgar o público e lançou novas diretrizes para o cinema de terror naquele finzinho de década. Michael Myers é um garoto que, numa noite do dia das bruxas em 1963, surta e mata a irmã, Judith, a facadas. Os pais chegam em casa e internam o garoto num sanatório.

Quinze anos se passam e vemos o Dr. Loomis chegando ao local com uma enfermeira. Michael será sedado, levado a uma audiência e transferido de clínica. Esse era o plano. Mas ao chegarem ao local, Loomis e sua assistente percebem que os internos estão soltos no pátio sob a chuva. E então Michael rouba o carro dos dois e foge sem destino aparente.

Na manhã seguinte, Loomis segue o rastro de sangue deixado por Michael até a pequena Haddonfield. É dia 31 de outubro e os jovens se preparam para os festejos de halloween. Só que muitos deles não sairão vivos desta noite.

NOVA TRILOGIA

Quarenta anos após o lançamento do clássico absoluto, a Blumhouse, em associação com a Universal Pictures traz de volta a estrela Jamie Lee Curtis para um embate final (???) com o assassino mascarado Michael Myers. Em “Halloween” (2018), vemos uma Laurie completamente destroçada e atormentada há 40 anos pelo “fantasma” de Myers. Ela vive em uma verdadeira fortaleza, afastada de todos e sempre vigiada. Também mantém uma rígida disciplina de treino e caça, o que a faz ser considerada louca por todos na cidade e a afastou dolorosamente de sua filha e neta.

Mas Laurie era a pessoa mais sensata da história, porque Michael volta disposto a acabar com o que começou em 1978. O pesadelo de Haddonfield está vivo e ninguém poderá detê-lo.

Apesar de desconsiderar todos os filmes da franquia (com exceção do filme de 1978), a sequência de 2018 acaba prestando homenagens aos longas que compõem o “Myersverso”: as crianças usam máscaras Silver Shamrock (Halloween III), tem o casal de vizinhos Sr. e Sra. Elrod (Halloween II) e diversas referências aqui e ali. O longa é divertidamente tenso e poderia pôr um fim à franquia, dada sua cena final (talvez fosse esse o plano dos roteiristas, se o filme não tivesse feito MUITO sucesso nos cinema). Sucesso no cinema significa dinheiro e dinheiro atrai mais dinheiro, o que significa mais continuações. Assim, foram anunciadas mais duas histórias: “Halloween Kills” e “Halloween Ends”.

“Halloween Kills” é o mais fraco dos três filmes desta nova leva. A despeito de desconsiderar os eventos mostrados em “Halloween II” (1981), o filme repete várias cenas do outro longa, suprimindo, basicamente, a fraternidade de Laurie e Michael (Sim, nesta nova trilogia, eles NÃO SÃO IRMÃOS, por isso o “filme 2” precisou ser desconsiderado). Fora isso, é mais do mesmo: Umas cenas boas no corredor do hospital, umas mortes criativas e… só! O filme conseguiu a proeza de reunir parte do elenco principal, de 1978, apenas para aniquilá-lo com facilidade. A tal “força feminina” de três gerações que deveria ser explorada no longa, infelizmente não aconteceu de maneira satisfatória.

Além disso, o filme sofreu pra ver a luz do dia (ou seria as sombras noite, já que se trata de um filme de terror?): a ideia era lançar “Halloween” em 2018, “Halloween Kills” em 2020 e “Halloween Ends” em 2022, mas a pandemia de COVID-19 afetou o cronograma e por pouco o longa nem era lançado nos cinemas. Chegou-se a ventilar a hipótese de que o filme fosse direto para o streaming, um sacrilégio com a franquia.

Felizmente, em outubro de 2021, Michael e Laurie se encontraram nas telonas e de lá migraram para as mídias físicas (uma edição caprichada em DVD da Universal, com direito a vários bônus) e também para as plataformas de vídeo por demanda.

Então, o grande embate estava agendado para outubro deste ano: finalmente Michael e Laurie se reencontrariam para a resolução da rixa iniciada lá em 1978.

FINALMENTE, O “ENDS”

Assista aqui ao trailer comentado de “Halloween Ends”:

“Halloween Ends” traz muito mais de um drama sombrio do que um terror slasher (pelo menos até o ato final) e, talvez, seja esse o grande acerto do filme. Temos aqui um novo protagonista: Corey, vítima de um boato/acidente em 2019, quando os eventos mostrados em “Halloween” e “Halloween Kills” completavam um ano. Inicialmente, a única a acreditar no rapaz é Laurie. Damos um salto no tempo e a vida de Corey está destroçada, embora ele tenha sido inocentado pela justiça. A vida de Laurie também não está muito boa, mas menos melancólica que a mostrada nos dois longas anteriores. Para tentar se reerguer, ela escreve um livro, uma espécie de diário sobre como enfrentou seus demônios (Sidney Prescott manda lembranças). Também tenta auxiliar sua neta a superar a morte dos pais (Se você não viu “Halloween Kills”, desculpe pelo spoiler).

E Michael Myers segue desaparecido há quatro anos.

Passamos, então, a acompanhar o crescimento de Laurie e sua neta e a derrocada de Corey, que se deixa levar cada vez mais pelo “lado sombrio da força”, o que pode ser uma boa ideia para lhe proteger dos inimigos, mas também é a chave para trazer de volta o vilão da máscara branca.

Com a volta de Michael Myers, ninguém em Haddonfield está a salvo. Laurie sabe disso e está disposta a morrer, caso isso signifique o fim de seu algoz.

Com um roteiro infinitamente superior ao de “Halloween Kills”, esta terceira parte da nova fornada de filmes traz cenas de encher os olhos, embates morais e éticos e muitos sustos. Em suma, é uma reinvenção da própria franquia que dá muito certo porque respeita o espectador, os personagens que amamos há décadas e o elenco (veterano e novato).

Jamie Lee Curtis não se mostra acomodada e põe a história para funcionar de um jeito totalmente crível. O jovem Rohan Campbell é um achado na pele de Corey, sabendo dosar melancolia, esperança e surtos nos momentos certos. Andi Matichak reprisa seu papel como Allyson, a neta de Laurie, e Nick Castle como a “forma humana” de Michael Myers – tão icônico quanto Jamie.

A trilha sonora traz elementos de rock e baladas românticas e o único porém, é que a nova trilogia não explorou, em nenhum momento, “Mr. Sandman”, ícone dos filmes antigos. Se os produtores homenagearam até as máscaras do “filme 3”, poderiam ter incluído a canção na voz das Chordettes em alguma cena.

Várias cenas de “Ends” são memoráveis e, se você for assisti-lo nos cinemas, preste atenção na sequência inicial (passada em 2019, e que irá guiar metade do roteiro), a cena da estação de rádio, perto do fim, divertidamente aterrorizante e, claro, a pancadaria final entre Laurie e Michael – o que nos leva ao epílogo satisfatório do filme.

O maior acerto de “Halloween Ends”, como já dito, é respeitar o legado dos personagens e de seus intérpretes. Além, claro, de não achar que o público é idiota. A direção de David Gordon Green (que também dirigiu os dois longas anteriores) é acertada e o roteiro dele e de Danny McBride nos levam a essa conclusão que, se não tem extravagâncias, também não deixa a desejar. A produção executiva é de John Carpenter e Jamie Lee Curtis.

***

COTAÇÃO POR OSSOS: 10

LINHAS DO TEMPO:

A franquia “Halloween” pode ser conferida sob diversos prismas. O Projeto Lumi criou um “mapa” com as linhas do tempo para você não se perder:

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