Um novo olhar sobre manias e neuroses: “Depois a louca sou eu” traz à tona problemas corriqueiros de quem não se sente muito “normal”

Filme estrelado por Débora Falabella é uma grata surpresa em tempos de pandemia

Antônio Pedro de Souza

            O longa-metragem “Depois a Louca sou Eu”, embora seja uma obra ficção, reacende a discussão sobre pequenas neuras e manias que, de um modo ou de outro, todos temos no dia a dia. Aproveitando-se muito bem da máxima “De médico e louco, todo mundo tem um pouco”, o filme acompanha a tumultuada rotina de Dani, brilhantemente defendida por Débora Falabella, uma jovem publicitária que, aos poucos, vai nos mostrando todos os seus traumas, manias e esquisitices. Além de torcer pelo sucesso dela, vamos nos identificando com certas situações mostradas na tela, percebendo que, no fim, nem tudo é culpa da pessoa tida como “louca” pela sociedade.

            O filme começa com Dani ainda criança em um lar aparentemente feliz. Quando essa felicidade é rompida, a menina começa a criar alguns mecanismos de defesa. O primeiro trauma é quando ela acha uma suposta perna de barata em um lanche. A partir daí, “barata” passa a significar perigo para tudo em sua vida e ela vai se moldando sob um manto de proteção exagerada por parte da mãe, que se estende até mesmo após sua saída de casa. Numa das cenas mais fortes, que mostram essa superproteção, Dani passa a morar em um apartamento em frente à casa de sua mãe. Ela está declarando independência, mas nem tanto. Em uma visita, a mãe leva comida e afirma categoricamente: “Não é porque você me abandonou, que vou te deixar morrer de fome!”. Não, não havia sido um “abandono”. Dani só havia se mudado para o outro lado da rua. E não, a moça não morreria de fome: em várias cenas a vimos se alimentar em seu apartamento. Isso só mostra como a presença obsessiva da mãe causa um clima de opressão, que auxilia no aumento de desajustes psicológicos da filha.

            E o filme é repleto de cenas assim: Dani deixa de ser madrinha de um casamento porque tem medo de voar. Fica deslocada em uma festa de ano-novo porque o trajeto de sua casa até a praia seria de “quatro horas, mas com o trânsito pode ir pra oito horas e, se houver um acidente, pode aumentar para 12 horas, além disso, seu pai ficaria sozinho com a cachorra dele e sua mãe ficaria sozinha com a cachorra dela, enquanto ela (Dani) ficaria sozinha com o namorado numa festa na praia…”

Débora Falabella como “Dani” em “Depois a louca sou eu” – Foto: Desirée do Valle/Divulgação

            Ao tentar fazer diversas terapias, o resultado só piora e suas crises de ansiedade e pânico aumentam. Neste ponto, é inserido um novo personagem na vida de Dani: trata-se de Gilberto (Gustavo Vaz), um psicanalista que sofre com os mesmos sintomas de Dani. Enquanto os dois iniciam uma caminhada de autodescoberta, Silvia (Yara de Novaes), mãe de Dani, surta ao saber que a filha está se envolvendo com alguém tão problemático quanto ela mesma.

            Dani, agora, tem que lidar com três dilemas: as neuras de Gilberto – a principal delas, a morte iminente do pai, que “nem está doente ou internado, mas que, como todos, vai morrer um dia”, as neuras da mãe “se ele é como você, fique o mais longe possível” e suas próprias neuras, que vêm e vão de maneira aleatória.

            Tentando driblar esse caos em que sua vida se transformou, Dani se entrega aos remédios, o que causa alívio a princípio, mas logo se mostra uma grande armadilha. Segundo a própria protagonista, um dos primeiros sintomas é “não sentir nada”. Nada quando recebe uma notícia ruim, quando recebe uma notícia boa, quando se está fazendo sexo… À medida, porém, que avança nos remédios, sua vida profissional também deslancha: ela troca a agência de publicidade por uma vaga de redatora televisiva e uma coluna em uma conceituada revista. O próximo passo é escrever um livro e, na campanha de lançamento de sua obra, antigos fantasmas voltam a lhe assombrar, fazendo com que Dani encare-os de uma vez por todas e tome, talvez, a decisão mais difícil de sua vida: continuar se esquivando, rebaixando-se e sendo dominada por seus medos e sua mãe, ou ir à luta e declarar sua verdadeira independência em relação a sua vida.

Débora Falabella e Gustavo Vaz em cena. Foto: Stella Carvalho/Divulgação

            Muito bem escrito, o filme é baseado no livro homônimo de Tati Bernardi e tem como foco um dos dramas mais comuns à geração conhecida como millennial: a ansiedade! Tudo é para agora, urgente, não há tempo para respirar e olhar a cidade pela janela. Se isso pode ser bom para as carreiras profissionais (funcionário produtivo enriquece mais a empresa), é péssimo para a saúde física e psicológica. Quantos profissionais relativamente novos não morrem com problemas cardiovasculares? Quantos não se viciam em remédios “tarja preta”? Quantos não cometem suicídio? O filme, embora cômico, ajuda a jogar luz sobre essas questões tão delicadas e que encontramos facilmente numa simples ida à padaria ou banca de revistas. Aliás, com a pressa diária, está cada vez mais comum não irmos à padaria ou à banca de revista e, sim, pedirmos tudo por aplicativos…

            Dani gosta de escrever, sempre gostou, mas cursou Publicidade e Propaganda para ter uma “profissão consolidada” e que pagasse bem. Quantos não abrem mão de seus sonhos por simples imposição da sociedade? Pior, por simples imposição da família? Quando descobre que pode ser feliz e ganhar dinheiro escrevendo, Dani tem sua primeira vitória contra seu “antigo eu”, embora a figura dominadora da mãe esteja ali para lhe lembrar de que, se tudo der errado e ela “passar fome”, pode voltar para casa porque sua mãe vai perdoar a “desfeita”!

            Com direção acertada de Júlia Rezende, o filme flui naturalmente pela tela, prendendo o espectador dos créditos iniciais ao finais, sem ficar cansativo. A maneira como a história é contada, parcialmente fragmentada, também auxilia no entendimento e no andamento da trama. Em determinados momentos, Dani volta ao seu passado para se lembrar de um detalhe, mas sua memória a trai e ela acaba se contradizendo, rendendo sequências muito boas. Em outros momentos, quando o assunto é mais delicado, outra vez Júlia Rezende acerta, dando um tom mais sóbrio ao longa. Por fim, temos os momentos de “dupla realidade”, em que a mente de Dani pensa uma coisa para, logo depois, ficarmos sabendo que ela fez outra totalmente diferente. Esses efeitos causam uma aproximação imensa com o público, afinal, quantas vezes não nos pegamos pensando em uma discussão com um desafeto que, na verdade, nunca aconteceu? Dani vive esses momentos de devaneios que são comuns à maioria dos mortais. Ou seja, ela não é louca, só está tendo crises constantes por problemas cotidianos.

Débora Falabella e Rômulo Arantes Neto na conturbada festa na praia – Foto: Desirée do Valle/Divulgação

            As atuações do trio de protagonistas é um show à parte: Débora Falabella, Yara de Novaes e Gustavo Vaz se entregam totalmente aos personagens, convencendo o público e fazendo com que torçamos verdadeiramente para eles. A participação de Evandro Mesquita, embora curta, é também de grande valia para o filme, acrescentando a última gota de “loucura” que o enredo precisava.    

            Destaque também para as cenas de nudez e sexo, completamente dentro do roteiro, sem apelar para um “sexismo barato” que estaria ali apenas para garantir audiência. Tudo no roteiro tem um motivo para acontecer. Por falar nisso, um dos detalhes que vale a pena ser observado é a relação de Dani com o próprio corpo. Basta observar a “cena do vômito”, para entender a necessidade e urgência que a protagonista tem de se libertar das amarras psicológicas que a detêm…

            Por fim, mas não menos importante, outro fato que joga a favor do filme é que ele foi totalmente filmado antes da pandemia de COVID-19 (o lançamento estava previsto para abril de 2020 e foi adiado para este ano). Isso faz com que as crises de pânico e ansiedade nascidas no caos sanitário em que o mundo está inserido não tenham interferido na construção do longa. Nele, é retratado um mundo “normal”, sem menção ao coronavírus, com Dani lutando para sobreviver a situações relacionadas ao trabalho, amigos e família. Seria fácil ter feito um filme sobre ansiedade num mundo imerso na pandemia. Esse distanciamento permitiu uma humanização maior da personagem central ao mesmo tempo que, por ser lançado ainda na pandemia, permite que nos enxerguemos como qualquer um daqueles personagens que passam por maus bocados na projeção. Afinal, se já era normal ser “louco” antes, agora, então…

***

Nota: 10 ossos

FICHA TÉCNICA:

Direção:Júlia Rezende
Roteiro:Gustavo Lipstzein baseado no livro homônimo de Tati Bernardi
Edição:Maria Rezende
Trilha Sonora:Berna Ceppas
Produção:Mariza Leão (Morena Filmes)
Elenco:Débora Falabella (Dani)
Yara de Novaes (Sílvia)
Gustavo Vaz (Gilberto)
Duda Batista (Dani criança)
Rômulo Arantes Neto (Kadu)
Evandro Mesquita (apresentador do ‘Johnny Show’)
Cristina Pereira (Nona)
Debora Lamm (Consteladora)
Beatriz Oblasser (Dani adolescente)  
Ano de Produção/Lançamento:Filmado em 2019, lançado em 25/02/2021
País de Origem:Brasil
Duração:86min
Idioma Original:Português
Cor:Colorido
Estúdios/Distribuidoras:Morena Filmes
Globo Filmes
Miravista Filmes
Paris Filmes
Downtown Filmes
Simba Content
Gênero:Comédia dramática

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