“Corra!” promove o retorno do terror à “Tela Quente”

Filme vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original traz de volta gênero quase esquecido pela sessão de filmes

Antônio Pedro de Souza

            O filme “Corra!” (2017), dirigido por Jordan Peele, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original e exibido nesta segunda-feira, 02/11, em Tela Quente, propicia ao público uma excelente história que, entre outros temas, aborda o racismo enraizado na sociedade – seja nos EUA, Brasil ou qualquer parte do mundo. Mas além de levantar essa pertinente discussão ao ser veiculado numa das sessões de maior visibilidade da TV aberta, a exibição de “Corra!” tem outro detalhe importante para o universo cinematográfico: a volta do gênero terror à Tela Quente, da Rede Globo.

            Lançada em março de 1988, a sessão se firmou como a principal da emissora e uma das principais da TV aberta, sendo responsável pela introdução de grandes produções – nacionais e estrangeiras – no segmento. Por ser a principal vitrine de lançamentos cinematográficos da Globo, a Tela Quente apresenta uma imensa variedade de gêneros em suas exibições: ação, comédia, romance, drama, infantil e, claro, terror, suspense e seus derivados.

            Porém, talvez ditada por uma mudança no comportamento do público que, de certo modo se tronou estranhamente conservador (pelo menos na aparência) nos últimos anos, a Tela Quente vem deixando de lado esse gênero cinematográfico tão querido por cinéfilos.

            Alguns fatores ajudam a explicar esse “abandono”: a audiência da TV mudou bastante na última década, com o streaming conquistando uma fatia preciosa do público; além disso, algumas arbitrariedades políticas e a já citada postura conservadora da população, atrapalharam bastante os planos das emissoras de TV sobre o que programar e em que horário. O próprio Ministério Público abriu mão da veiculação da faixa etária por horário há alguns anos. Por exemplo: Programas para maiores de 12 anos só poderiam ser transmitidos após as 20h. Isso caiu em desuso, mas ainda causa algumas dores de cabeça por cisma de uma parcela desinformada da população e também de juristas: é notório o caso de um telespectador que entrou na justiça contra a Globo após uma exibição de “A Lagoa Azul” na “Sessão da Tarde” em 2017. Resultado: o filme, que se tornou um clássico na sessão, não foi mais exibido desde então. Da mesma forma, as reprises do Vale a Pena Ver de Novo, que passaram a exibir novelas +12, foram ligeiramente empurradas para mais tarde, começando por volta das 16h45 e jogando “Malhação” (que oscila entre +10 e +12) para às 18h e a novela das seis para às 18h30. No alto da noite, a novela das oito, que passou a ser chamada de “novela das nove” em 2011, com “Insensato Coração”, está começando, desde a edição especial de “Fina Estampa”, às 22h.

            Com parte do público migrando para o streaming, e outra parte comprando brigas políticas e declarando guerra à emissora carioca, a Globo precisou optar por filmes de fácil aceitação para manter viva a Tela Quente, além de adotar outras medidas que agradaram a uns e desagradaram a outros. Pra começar, suprimiu o termo “inédito” da maior parte de seus filmes, levando em consideração de que a maioria já havia sido exibida em canais de TV por assinatura e, claro, plataformas de streaming. Agora, o termo “inédito” é usado em pouquíssimas situações. Os “chamadões” de filmes, aqueles comerciais com quase dois minutos de duração, exibidos em março, apresentando os principais filmes que seriam mostrados ao longo do ano, também mudaram drasticamente: foram diminuindo após 2012, chegaram a ser extintos e só voltaram ano passado, bem diferentes do formato original. A diferença entre a “temporada de inéditos” e o “período de reprises” também mudou bastante. Até 2014, por exemplo, os filmes inéditos estreavam em fins de março/começo de abril e seguiam até a última semana de dezembro ou primeira de janeiro. Entre janeiro e março, os principais filmes dos dois anos anteriores eram reprisados. Desde 2015, a emissora eliminou essa diferença, com a temporada do ano corrente começando já em janeiro e mesclando filmes inéditos e reprises, de acordo com a necessidade do canal.

            Voltemos agora aos gêneros: O primeiro filme exibido foi “O Retorno de Jedi”, em março de 1988, filme de ação/aventura/ficção científica. Mas em boa parte das décadas de 1990 e 2000, o terror (e seus subgêneros) dominou a sessão. Títulos das franquias “Sexta-Feira 13”, “Brinquedo Assassino”, “A Hora do Pesadelo”, “Pânico”, entre outros foram exibidos na sessão. No começo dos anos 2010, houve uma redução drástica de exibições de filmes do gênero e a Tela Quente passou a optar por filmes de ação, drama e comédia. Além de, ocasionalmente, animações.

            Para se ter uma ideia de quanto tempo não pinta um terror na faixa, nossa pesquisa encontrou o registro de “Caso 39”, exibido em 19 de novembro de… 2012! Aliás, 2012 foi um ano em que o terror conseguiu reinar em Tela Quente: além de “Caso 39”, foram exibidos “Obsessiva” (30/04), “Anjos e Demônios” (23/04), “Presságio” (1º/10), “Garota Infernal” (15/10) e “O Fim da Escuridão” (12/11).

            Em 2013, foram exibidos alguns thrillers, como “Na Mira da Morte” e “Reféns”; em 2014, o suspense “Playdate – Amizades Perigosas” e algumas produções de ficção científica como “Super 8”, “Cowboys & Aliens” e “Gigantes de Aço”, além da versão de 2011 de “A Hora do Espanto”, mais focada na comédia que a versão original.

            Em 2015, o terror foi totalmente substituído por alguns suspenses e thrillers mais leves, com foco mais na ação, que no medo. São exemplos dessa safra: “Assassinos de Aluguel” e “Perseguição Implacável”, por exemplo. O mesmo vale para o ótimo “Sétimo”, exibido em 2016.

            Enfim, desde então, a sessão realmente optou por não aterrorizar seu público. Recentemente, cogitou-se a ideia de apresentar “Megatubarão”, uma espécie de “terrir” de monstro, em que um tubarão gigante faz misérias com banhistas incautos. Mas o filme não ganhou data de exibição e continua na fila da emissora. Coube, então, a “Corra!” a honra de reintroduzir o terror às segundas-feiras.

            Filme de terror psicológico, o longa, como já dito, explora o racismo enraizado na sociedade, mostrando que os piores monstros podem ser nós mesmos, os humanos. De Jordan Peele, o filme é parte do catálogo da BlumHouse, estúdio famoso por produções de terror que mesclam temas sobrenaturais e psicológicos e que trouxe obras como “Verdade ou Desafio”, “A Morte Te Dá Parabéns”, “Uma Noite de Crime”, “Ma”, entre outros. Aliás, fica o pedido para que a Globo pense em exibir essas obras no futuro.

            Vida longa à Tela Quente, ao terror e, claro, ao Terror na Tela Quente! Bom retorno!

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