Em “Creed II”, recursos técnicos impressionam mais que a própria narrativa

Apesar de enredo confuso, produção emociona pela relação do protagonista com outros personagens da trama

Yasmine Evaristo*

          Creed II, sequência do filme de 2015, dá continuidade a história de Adonis “Creed” Johnson (Michael B. Jordan), filho do boxeador Apolo Creed, da franquia Rocky. Nesse novo episódio, que estreia hoje (24), nos cinemas de todo o país, o boxeador é exposto à dolorosa memória da morte do seu pai. O também boxeador russo, Ivan Drago (Dulph Lundgren) retorna aos Estados Unidos com o intuito de recuperar a honra perdida ao ser derrotado por Rocky Balboa (Sylvester Stallone). Para que isso aconteça, seu filho, Viktor Drago (Florian Munteanu), desafia Adonis a lutar pelo cinturão – recém conquistado pelo estadunidense – de campeão dos pesos pesados.

          O filme mostra um Adonis bem menos maduro do que conhecemos ao fim do filme anterior. O personagem que havia passado por uma jornada de autoconhecimento parece ter esquecido de tudo. Inebriado pela fama, Creed chega a abrir mão dos conselhos de seu “tio” Balboa.

          No outro continente, a situação entre familiares também é complexa. Drago filho foi criado pelo seu pai para ser uma besta vingativa. A montanha de músculos mal fala. Seu foco é aperfeiçoar sua técnica de lutas, motivado pelo seu pai que crê na vitória como meio de recuperar tudo o que foi perdido: respeito, esposa, cidadania.

          É preciso abrir mão da racionalidade – que leva a enxergar as previsibilidades do roteiro -, e sentir toda carga das escolhas profissionais daqueles boxeadores. Mas é aí que mora o problema, pois não fica muito bem estabelecido quais as motivações do protagonista. Por mais mesquinha e violenta que seja a motivação dos russos, ao menos elas estão claras.

          A personagem escolhida para iniciar a intriga entre os lutadores desaparece no decorrer da história. O agente Buddy Marcelle (Russel Hornsby) que se faz presente no início, indo às lutas, acompanhando Drago na coletiva e aparecendo em eventos para incitar a vingança em Adonis, de uma hora para outra some, tendo apenas uma aparição, antes do clímax, com uma última provocação. Ele poderia ter sido mais bem aproveitado, até o fim da trama, como um vilão clássico e vil que está em cena apenas para “pôr lenha na fogueira”.

           Os pontos mais positivos do filme são as escolhas de cores e iluminação nas transições que demarcam as motivações de Creed. No início, especificamente na cena de abertura, ele se encontra em um ambiente bem iluminado, rodeado de repórteres e fotógrafos. Em contraponto, Drago treina em um espaço escuro e acinzentado. À medida que Apolo vive sua decadência emocional, os tons acinzentados passam a fazer parte de seu entorno. Ao aceitar que precisa mudar sua técnica e conhecer novas maneiras de treinamento há uma explosão de luz, bem definida pelo cenário escolhido, o deserto.

          Além dos conflitos de Apolo com o boxe e a morte de seu pai, “Creed II” também abordará a relação do lutador com a namorada/noiva Bianca (Tessa Thompson) que está grávida e passa pelo medo de ter uma filha surda. A dificuldade de Rocky de reatar a relação com o seu filho (Milo Ventimiglia) também é uma das subtramas do filme. Elas servem de escape dramático para acentuar em as relações das personagens com o protagonista.

          Ainda assim, há meios de se emocionar com as cenas de luta, que apresentam intensidade e muito ódio. O ringue é uma arena. O roteiro deixa explícito que ali não há moral que julgue a morte de alguém. Inclusive, em vários momentos, o fato do pai de Adonis ter sido morto durante uma luta é tratada com naturalidade. Falta apelo dramático para demarcar isso como errado, sujo, cruel. A ideia está ali, pairando, mas não é efetivamente explorada.

           É mais fácil se emocionar ao ver o garoto imaturo maltratar seu mestre, ou ao ouvir a trilha clássica da vitória e relembrar de toda a trajetória percorrida desde 1976. O filme te convida a se entregar à emoção de ver Rocky Balboa passando o bastão de grande boxeador para Adonis Creed. Pena que o jovem se mostre descrente de que está lutando por algo que realmente importe para si.

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*Publicado originalmente no site Feira Cultural em 24/01/2019

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