“O 3º Andar – Terror na Rua Malasaña” entrega o que promete:

Uma perturbadora história sobrenatural com direito a bons sustos

Antônio Pedro de Souza

            Uma família se muda para um apartamento antigo no meio de uma populosa cidade. Pouco tempo depois, eventos estranhos começam a afetar negativamente cada um dos membros do círculo familiar. Isso soa como um bom clichê do cinema hollywoodiano? Pode até ser, mas “O 3º Andar – Terror na Rua Malasaña” é uma inquietante história rodada na Espanha que, sem abrir mão do clichê, proporciona aos espectadores excelentes momentos de terror.

            O filme gira em torno de uma família recém-chegada a Madri, vinda de uma cidade do interior não especificada. A dinâmica familiar se mostra confusa e, ao longo da projeção, vamos tomando conhecimento dos detalhes e do verdadeiro grau de parentesco que há entre eles. O clã é formado por Manolo, o pai; Candela, a mãe; Amparo, filha mais velha que esconde um segredo; Pepe, rapaz que apresenta problemas fonoaudiólogos; Rafita, como é chamado o pequeno Rafael, de 5 anos e, claro, o Vovô, pai de Candela, com problemas de saúde típicos da idade avançada.

            A chegada ao apartamento 302A do edifício localizado à rua Malasaña, Centro de Madri, é celebrada com entusiasmo por essas pessoas que passam por dificuldades financeiras e viram no novo endereço a oportunidade de recomeçar.

            Já no dia da mudança, o pequeno Rafita se perde em um dos cômodos do apartamento e o desenrolar da trama nos traz a primeira cena de aflição do filme. No dia seguinte, enquanto os pais começam em seus empregos novos, as coisas saem totalmente do controle: Apenas Rafita e Vovô parecem ver algo se movimentando nas sombras da casa e, quando Vovô sai para “buscar ajuda”, Rafita tem uma experiência sobrenatural digna de Poltergeist – O Fenômeno. A cena, muito bem construída, editada e sonorizada, apresenta a real dimensão do terror escondido nas entranhas do edifício. O menino está fazendo um lanche quando é atraído pelo barulho da TV ligada. Na tela, um programa infantil começa a ser exibido…

            Quando Amparo volta das compras, não encontra Rafita, nem o Vovô. A moça sai pelas ruas e vê seu avô parado em meio ao trânsito. Ela o leva de volta ao apartamento, mas o irmão não é mais visto. Uma busca começa a ser feita, mas não há indícios da criança nas imediações.

            Paralelamente a esses acontecimentos, o jovem Pepe vive sua própria experiência sobrenatural, ao ser atraído pela doce Clara, moradora do apartamento 302B. Mas Clara também esconde um segredo, que só será revelado – parte dele, pelo menos – no porão do prédio.

            Enquanto isso, Amparo consegue fazer contato com Rafita e o salva, num local totalmente improvável. E os pais? Bem, Manolo não consegue se adequar ao trabalho e Candela tem uma experiência sobrenatural na loja em que trabalha. Na busca por respostas, ela vai atrás da única cliente que parece saber o que está acontecendo, enquanto Amparo descobre o paradeiro da antiga moradora do 302A, e também vai em busca de respostas.

            O clímax do filme se dá exatamente aí: enquanto a cliente de Candela e sua filha paranormal tentam exorcizar o espírito que assombra o apartamento, Amparo descobre o real segredo de Clara, o motivo de sua obsessão por crianças e, óbvio, o interesse dela por Pepe. Aterrorizada com a descoberta, a moça volta para o apartamento e, junto com as paranormais, tenta impedir que a fúria de Clara destrua de uma vez por todas sua família.

            Muito bem escrito, filmado, editado e sonorizado, O 3º Andar – Terror na Rua Malasaña consegue manter o clima de suspense sempre crescente, fazendo com que o espectador não desvie o olhar da tela e tente descobrir os segredos espalhados em cada cena. Não é o tipo de filme que entrega tudo gratuitamente, mesmo sendo uma produção que recorre ao clichê da casa mal-assombrada. É um filme em que a tensão cresce de acordo com o desenvolvimento da projeção.

            Como já dito, o som ambiente e a trilha sonora são muito bem executados, propiciando momentos de sustos e de apreensão nas horas certas. A fotografia traz um charme à parte: sendo sombria nas cenas adequadas, mas sem carregar na escuridão: é possível ver os personagens perfeitamente, mesmo nos momentos do porão, corredor e quartos com pouca luz, ou seja: um verdadeiro deleite aos fãs de terror.

            Outro ponto positivo – embora isso não tenha relação direta com o desenrolar da história – é que o filme foi totalmente produzido antes da pandemia (chegou a ter a estreia marcada para março e, depois, abril deste ano); assim, ele não traz os vícios que, fatalmente, serão marca de uma geração futura de filmes de terror: as mazelas do coronavírus.

            Não! O 3º Andar – Terror na Rua Malasaña é uma pura, boa e limpa – ou seria “suja”? – história de terror. Ambientado em 1976, o longa traz os aspectos comuns da época: telefones de disco, telefones públicos na esquina, aparelhos televisores em preto e branco, falta total de celulares, discos de vinil, etc.

            Há, talvez, um pequeno deslize narrativo: o prólogo, embora promissor, acaba não tenho importância nenhuma para o desenrolar da história, mesmo mostrando o fatídico apartamento 302B. Soa quase como um curta-metragem a parte, a menos, claro, que os produtores tenham pensado em desenvolvê-lo como um novo filme, à lá universo de Invocação do Mal, por exemplo.

            Ainda sobre o prólogo, ele se passa em 1972 e é focado em apenas duas crianças que, ao brincarem nas escadas entre o 3º e o 4º andar, deixam um bolinha de gude escorregar para a porta do apartamento 302B. Os meninos entram no apartamento e uma prévia do que seria apresentado no filme propriamente dito é vista. Passam-se quatro anos e vemos a família de Manolo e Candela chegando ao prédio…

            Por saber usar a história clichê de uma maneira criativa, sem obviedade e ainda trazendo uma mensagem contra preconceitos enraizados na sociedade, O 3º Andar – Terror na Rua Malasaña é um filme que merece ser visto uma vez para se assustar, uma segunda vez para perceber e entender melhor as nuances narrativa e, a partir da terceira vez, simplesmente por ser um belo filme mesmo!

Assista ao trailer dublado aqui

Assista ao trailer legendado aqui

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