Brinquedo Assassino e os Perigos da Dependência Tecnológica

Nova versão está mais para “Rebelião das Máquinas” que para assassino em série
Antônio Pedro de Souza

            A nova versão de Brinquedo Assassino ousou ao abandonar a fórmula do boneco possuído por um assassino em série. Tal ousadia poderia ter custado caro se não tivesse sido tão bem construída pelos produtores do novo filme.

            Desde que começou a ser anunciada, muitos fãs – incluindo este que vos escreve – torceram o nariz para um Chucky movido a wi-fi e não por um espírito maligno como na clássica série iniciada em 1988.

            Pois bem, tempos depois, a surpresa foi agradável: o novo Chucky traz uma nova gama de maldade, inquietante para tempos ultra tecnológicos. Mudar o tom, excluindo o espírito humano reencarnado procurando por vingança por uma máquina com defeito se mostrou um acerto – pelo menos dentro deste novo universo cinematográfico.

Aubrey-Plaza-and-Gabriel-Bateman-star-in-Orion-Pictures_-CHILD_S-PLAY[1]
Aubrey Plaza e Gabriel Bateman em cena de Brinquedo Assassino

            Chucky agora é uma máquina com computador interno e, como tal, aprende coisas novas que podem ir da simples criação de um brinquedo com palitos quebrados para seu dono até a arrancar a pele de um rosto humano e embrulhá-la para presente (uma “singela” homenagem a O Massacre da Serra Elétrica 2).

            Neste ponto, Brinquedo Assassino se distancia da obra original e se aproxima de filmes como O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas. O boneco vai perdendo sua essência de computador que pode ser controlado, para uma máquina capaz de controlar – outras máquinas e os destinos dos humanos que cruzam seu caminho. Esse processo é inquietante, ressaltando os exageros da inteligência artificial.

Conflitos de acordo com o tempo

            Um dos motes de Brinquedo Assassino (1988) foi o perigo da publicidade excessiva voltada para crianças e adolescentes. Todo o chamariz dos bonecos Good Guys (no Brasil “Cara Legal” e, depois, “Bonzinho”) e como isso poderia afetar a vida dos pequenos – como Andy – deram o norte para a produção. Desta vez o debate gira em torno da nossa extrema dependência tecnológica: quando queremos comer, pedimos por aplicativo; se quisermos um carro, pedimos por um aplicativo; a TV não é mais a mesma de poucos anos atrás e, sim, um compilado de aplicativos numa tela. Vivemos por meio de aplicativos, mas… E quando a morte também vem por eles? Esta é a grande questão de Brinquedo Assassino (2019) e, por isso mesmo, seu maior acerto, uma vez que não se limita a ser uma simples refilmagem, que altera alguns nomes e situações, mas se mantém no mesmo universo, na mesma proposta – vide Halloween (2008) e O Massacre da Serra Elétrica (2003) – ou tendo a infeliz ideia de mudar completamente o roteiro, criando uma história totalmente nova e desagradável – vide Cemitério Maldito (2019).

Chucky-and-Gabriel-Bateman-in-CHILD_S-PLAY[1]
Um raro momento de diversão…

            O mérito de Brinquedo Assassino é abrir as portas para uma nova realidade, criando um universo novo para Chucky e suas desafortunadas vítimas, sem abrir mão do respeito que a série de filmes originais (já com sete títulos) merece.

            Há momentos ótimos a ser destacados, entre eles a sequência em que Andy e os amigos assistem O Massacre da Serra Elétrica 2 – e de onde Chucky se inspira para algumas mortes. As cenas de assassinatos, em geral, são memoráveis afinal, pode não ser mais o Charles Lee Ray, mas ainda é o Chucky e o público quer ver sangue jorrando!

Possibilidade de universos paralelos

            Ainda não sabemos se a MGM vai investir na sequência desta saga criando, assim, um universo paralelo que coexista com o da Universal, uma vez que Don Mancini já anunciou a criação de uma série de TV que contará os eventos a partir do fim de O Culto de Chucky. Mas seria interessante termos essas duas versões convivendo, ampliando a experiência do público e, claro, trazendo dose extra de Chucky, um dos mais notórios assassinos em série do cinema, para deleite dos fãs.

            Por fim, vale ressaltar que Brinquedo Assassino pode agradar tanto a nova leva de fãs – que não conheceram o Chucky original ou tiveram acesso apenas aos últimos filmes da franquia – quando os fãs mais saudosistas, que acompanham a saga desde o princípio. Para isso, basta entender que adaptações podem e devem ser feitas, desde que não tentem superar e/ou desconsiderar a beleza e a importância de suas fontes originais.

O jornalista assistiu ao filme a convite da Imagem Filmes

Assista ao trailer aqui:

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s