Feliz Ano Velho: Por que começar 2019 com esse filme?

Longa inspirado no romance de Marcelo Paiva é feito de modo singelo, mas nos faz questionar a sociedade em que estamos inseridos…

Por Antônio Pedro de Souza

Eu devia ter uns treze anos quando li pela primeira vez “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva e fiquei encantado pela história. Bem, confesso que, a princípio, os palavrões me chocaram um pouco. Eu já era um leitor voraz, mas estava me iniciando em uma literatura mais adulta. Um dia, conversando com uma vizinha sobre os livros que ambos estávamos lendo, ela me perguntou se na biblioteca que eu frequentava havia esse livro. Eu respondi que já o havia visto por lá, mas que nunca o lera. Ela pediu que eu o pegasse emprestado para ela e mencionou o filme. Uma semana depois, peguei o livro, ela leu e, antes de eu devolver para a biblioteca, li também. Uma baita história! Fiquei anos procurando pelo filme, mas nunca o encontrei. Recentemente, vi que o Canal Brasil (TV Paga) ia passá-lo e deixei gravando. Acabei assistindo, de propósito, no dia 1º de janeiro.

            O filme e fantástico e tão bem escrito quanto o próprio livro. E por que eu deixei para vê-lo justo na virada do ano?

            Alguns motivos são óbvios: tanto no filme quanto no livro, o protagonista passa a viver de suas recordações, de seu passado em detrimento ao presente. Daí o “Feliz Ano Velho” do título. Na cena em que ele vai para o hospital fazer sua primeira sessão de fisioterapia, ele diz ao acompanhante: “Para mim, 1980 está começando agora!”. Nada mais justo, então, que iniciar um ano, vendo um filme que, de certo modo, fala da virada de ano – ainda que metaforicamente. O segundo motivo é o momento sombrio em que estamos vivendo. A posse do presidente Jair Bolsonaro vem cercada de incertezas, bem como as da época em que o filme e o livro se passam: as sombras da ditadura militar ainda pairavam sobre o Brasil na primeira metade da década de 1980 e a censura só acabaria em 1988. Ou seja: o protagonista vivia momentos de dúvida, sendo seu próprio pai uma das vítimas dos anos de chumbo. E o pior é que esta história é real: o pai de Marcelo Rubens Paiva, o deputado federal Rubens Paiva foi levado por militares durante o regime e não voltou a ser mais visto, tornando-se mais um número entre os desaparecidos/torturados/mortos pela ditadura militar no Brasil. Assim, em meio à turbulência da ocasião, nada mais propício que substituir a nauseante posse do nosso atual presidente, por esse recorte histórico filmado em meados da década de 1980.

            Feliz Ano Velho começa com Mario deitado em uma cama de hospital, a cabeça enfaixada e várias dúvidas. O filme corta para ele no carro, indo à fisioterapia. Lá, conhece algumas pessoas em situações parecidas. Aos poucos, ele começa a recordar fatos de sua vida, antes do acidente que o colocara na cadeira de rodas. É interessante perceber como o livro e o filme se casam em alguns momentos. Por exemplo, no livro, o narrador se refere à ocasião do acidente como “A Festa do Biiiiiiiiin”, em alusão ao momento em que mergulha no lago, bate com a cabeça em uma pedra e passa a ouvir apenas um zumbido, um “biiiiiiiiin” até ser socorrido e, então, perder os sentidos. No filme, quando o mergulho é mostrado, o áudio das pessoas em volta do lago é substituído por um angustiando zumbido, um “biiiiiiiin” que ecoa em nossas ouvidos por alguns segundos.

            Com trilha sonora que remete aos anos 1970 e 1980, variando de acordo com os flashbacks do protagonista, o filme mostra bastante dos costumes culturais e políticos daquelas décadas: Alunos de faculdade envolvidos em protestos contra o sistema vigente, roupas, músicas, além de meios de burlar a vigilância severa da ditadura. Some-se a isso, o corpos nus e jovens de atores como Marcos Breda, Malu Mader, entre outros, cujos seios, nádegas, vaginas e pênis podem ser observados em algumas das cenas mais quentes.

            Essas cenas podem ser explicadas, principalmente, pelo momento em que o filme foi lançado: 1987. A ditadura havia ficado para trás há dois anos e, embora a censura ainda perdurasse, o cinema e a TV conseguiam dar suas primeiras lufadas de ar sem o perigo de um governo autoritário. A pornochanchada, uma das principais fontes de protesto cinematográfico, também estava ficando para trás, dando lugar a histórias que não abriam mão do sexo, mas que lançavam mão de uma densidade maior.

            A nudez, porém, não marca apenas as cenas mais picantes. Ela eleva a dramatização em alguns pontos, como no sonho de Mário em que seu pai é executado pelos militares da ditadura. O pai está nu, vendado e amarrado a um poste de madeira em uma área descampada e começa a ser alvejado por vários soldados.

            Assim, Feliz Ano Velho acaba se tornando um filme ímpar: reconta a história de um livro lançado em 1982 que, por sua vez, narra fatos ocorridos em meados de 1979 e 1980, além dos anos anteriores, ou seja: é um condensado de três momentos distintos: infância de juventude de Mário, momento do acidente e principais fatos pós-acidente, culminando com a escrita do romance. Por ter sido filmado após o fim da ditadura, o longa ainda consegue passar um ar de otimismo para o futuro, algo que o livro, lançado três anos antes da redemocratização, ficaria incapacitado de fazer.

            Merecem destaques as atuações de Marcos Breda como Mario, Malu Mader como Ana e Ângela, duas mulheres que aparecerão em momentos distintos da vida do rapaz, mudando sua forma de ver o mundo – há, ainda, uma estranha e metafórica ligação entre elas: No passado, Ana pinta um lenço e dá de presente para Mário. No futuro, ele dá o lenço à Ângela que usa o desenho para compor o cenário de seu novo espetáculo de balé. O desenho em questão é um sol, que também pode ser visto pairando sobre o protagonista nos créditos iniciais e pouco antes dos créditos finais. Ainda a atuação de Eva Wilma, como mãe de Mário. Ela aparece pouco no filme, mas sempre em momentos marcantes.

            Talvez por contenção de gastos ou apenas para formar uma história mais enxuta, o filme acaba rifando algumas passagens do livro. Assim, ficam de fora momentos divertidos como quando o protagonista lembra de seu gato girando sobre o disco de vinil na radiola da família ou quando começava a ter pensamentos sexuais no ônibus e, depois, tinha que disfarçar uma ereção quando ia descer do veículo. Entram, porém, momentos peculiares de sua vida já na cadeira de rodas, como a sua primeira ida ao cinema após o acidente, quando um cara, desconhecendo sua paralisia, insiste para que Mário afaste suas pernas para que ele possa se sentar na cadeira vazia ao lado.

            Assim, em meio às incertezas do nosso próprio tempo, vale a pena ver essa clássico que chegou aos trinta anos e conhecer as incertezas que reinavam naquele tempo. E quer saber? Não são muito diferentes das atuais. A todos, um feliz ano velho! Ou melhor, novo! Quem sabe?

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Nota: 10

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Sinopse oficial:

Mário, um jovem que perdeu o pai durante a ditadura militar, mergulha em um lago e acaba sofrendo um acidente e ficando tetraplégico. Preso em uma cadeira de rodas, o rapaz busca formas de sobrevivência e começa a escrever sobre o seu passado. Logo ele finaliza um livro, que se torna um sucesso nas livrarias.

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Clique aqui para assistir à cena do acidente

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Ficha Técnica:

Título: Feliz Ano Velho

Título Original: Feliz Ano Velho

Diretor: Roberto Gervitz

Roteirista: Roberto Gervitz inspirado no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva

Elenco:

Marcos Breda – Mário

Malu Mader – Ana

Malu Mader – Ângela

Betty Gofman – Soninha

Júlio Levy – Gorda

Odilon Wagner – Carlos

Eva Wilva – Lúcia

Marco Nanini – Beto

Isabel Ribeiro – Gisela

Carlos Loffler – Klauss

Estúdios Produtores:

Embrafilme

Quanta Centro de Produção

Produção: 1987

Lançamento: 1988

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