A Trilogia do Antes: Amadurecimento sob as lentes do cinema

Antônio Pedro de Souza

Iniciada em 1995, a chamada “Trilogia do Antes”, do diretor Richard Linklater, explora a vida dos personagens Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) em três momentos distintos de suas vidas. O primeiro longa, “Antes do Amanhecer”, se passa em uma noite em Viena. Jesse e Céline são dois estudantes que se conhecem em um trem e resolvem passar algumas horas juntos, antes que o dia amanheça e eles tenham que seguir caminhos distintos. A noite revela boas surpresas, conflitos e inseguranças internas e, claro, romance. Quando o dia amanhece, Jesse e Céline combinam de se reencontrarem em um ano, naquele mesmo lugar.

O segundo filme foi lançado nove anos depois. Intitulado de “Antes do Pôr-do-Sol”, mostra o reencontro de Jesse e Céline após quase uma década. Ele, um escritor consagrado, lança um livro e vê Céline na fila de autógrafos. Juntos, relembram o primeiro encontro e veem que o sentimento surgido anos antes ainda não morreu.

Mais nove anos se passam e, então, chegamos à “Antes da Meia-Noite”. Agora, Jesse e Céline são casados, pais de gêmeas e, aparentemente, felizes. Porém, Jesse sente que precisa estar mais próximo do seu filho, que mora nos EUA, fruto do primeiro casamento. Ao longo de uma noite, o casal terá o amor testado, colocando em xeque seu relacionamento. Será que, finalmente, Céline e Jesse conseguirão alinhar suas vidas?

De maneira geral, a Trilogia do Antes explora o amadurecimento, tanto dos personagens, quanto dos atores, sob a ótica do cinema. É interessante como a história começa em 1995, mostrando um ar de inocência existente naquele período que encerraria uma década, um século e um milênio. É algo parecido com o que acontece com as primeiras temporadas de “Friends”: um humor ao mesmo tempo leve e profundo, provocador e sutil, que comove e diverte e, por isso, fica tão marcado na memória afetiva dos fãs.

Ethan Hawke vinha de filmes como “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989) e “Vivos” (1993), que foi a segunda adaptação para o cinema do caso real de um time que caiu na Cordilheira dos Andes em 1972. Julie Delpy participou da “Trilogia das Cores”, entre outros filmes.

Já no primeiro longa, tanto Julie, quanto Ethan ajudaram Richard Linklater e a escritora Kim Krizan com alguns ajustes no roteiro, porém não foram creditados. Em uma entrevista, Julie disse que o fato de ter o nome de uma atriz quase desconhecida na equipe de roteiristas, poderia prejudicar a campanha de financiamento do filme. A partir do segundo longa, porém, tanto ela quanto Hawke são creditados como corroteiristas.

Considerado um filme “minimalista”, percebemos que a história de “Antes do Amanhecer” é, na verdade, profunda e cheia de nuances: ela fala sobre aqueles encontros que acontecem por acaso e que podem mudar para sempre a vida de duas pessoas.

Quando passamos para o segundo filme, “Antes do Pôr do Sol”, já temos uma visão de mundo completamente diferente da vista no primeiro longa.

Vale ressaltar que aquela “inocência” ficou para trás, bem nos anos 1990. O atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, mergulhou o mundo em uma paranoia e um medo real de novos ataques e toda aquela aura de positividade que envolvia a chegada do terceiro milênio ficou profundamente corrompida.

Ainda assim, temos o reascender de uma nova esperança, quando reencontramos o casal Jesse e Céline. Sabemos aqui que eles seguiram por caminhos diferentes após o primeiro filme, mas quis o destino que eles tivessem uma nova chance.

Isso nos faz lembrar de outra obra famosa da década de 1990: na série animada “Doug”, o garoto protagonista, Doug Funnie, era apaixonado por Patti Maionese, mas a série termina sem sabermos, de fato, se eles ficaram juntos. Muitos anos depois, o criador do seriado contou em uma entrevista que, provavelmente, Doug e Patty não teriam se casado, já que aquela amizade, bem como o “primeiro amor” que sentiam um pelo outro era algo comum daquele momento peculiar entre a infância e a adolescência, mas que na maioria das vezes terminaria com cada um seguindo por um caminho.

Em “Antes do Pôr-do-Sol”, Céline e Jesse tem a oportunidade de colocar o assunto em dia. Não é simplesmente “recomeçar de onde parou”, mas entender o que aconteceu com cada um deles e o que os levou a seguir os seus rumos próprios.

Uma curiosidade marcante do filme é que ele ocorre em tempo real, ou seja, os personagens tinham pouco mais de uma hora para colocarem a conversa em dia, e o filme tem essa mesma medida de tempo. Esse efeito de tempo cronológico ser semelhante ao tempo narrativo, havia sido consagrado pela série 24 horas, que estreou em 2001.

Embora, inicialmente, “Antes do Amanhecer” não tenha sido um sucesso comercial, o que não justificaria uma continuação, Linklater, Hawke e Delpy entenderam que os fãs do longa original mereciam saber o que aconteceu aos personagens e, por isso, começaram a trabalhar na continuação. As filmagens duraram cerca de 15 dias e além do “tempo real”, outras semelhanças entre a vida real e a ficção foram mantidas na obra, como os signos dos personagens/atores, e algumas composições de Julie, que acabaram entrando na trilha sonora do filme.

Se a inocência dos anos 90 havia ficado para trás, a paranoia dos anos 2000 também pôde ser deixada de lado, embora o pessimismo crescente da década de 2010 fosse latente no cinema e na vida real. É nesse contexto que, em 2013, chega às telonas “Antes da Meia-Noite”.

Aqui, Jesse e Céline estão casados e são pais de gêmeas, mas o relacionamento de Jesse com seu filho do primeiro casamento é conturbado. Por causa disso, ele pensa em se mudar para Chicago, o que deixa Céline apreensiva sobre o futuro dos dois.

Seguindo o mesmo formato dos filmes anteriores, o filme tem um tempo narrativo reduzido: começando no fim de uma tarde e terminando, como o título sugere, antes da meia-noite daquele mesmo dia. Este pequeno intervalo de tempo é mais que necessário para que Jesse e Céline discutam o relacionamento, coloquem suas prioridades sobre a mesa e o público descubra se, depois de tantos anos, eles ficarão ou não juntos.

Filmado em cerca de 18 dias na Grécia, o longa foi rodado sob sigilo, sem nenhum anúncio oficial de que a nova sequência estivesse sendo produzida.

Enfim, a Trilogia do Antes explora o amadurecimento de personagens ao longo da vida. Uma espécie de “Coming of age”, que já começa no pós-adolescência e segue rumo à maturidade. Outras obras também abordaram esse “crescimento” de seus personagens, entre elas o livro brasileiro “Éramos Seis”, de Maria José Dupré e o filme “Boyhood”, que mostra, também, os mesmos atores em diferentes fases da vida. Tanto no caso de “Boyhood”, quanto nos filmes de Linklater, o diferencial é que são os mesmos atores e o mesmo roteirista/diretor, dando vida e sequência aos mesmos personagens. Ou seja: não há uma mudança de fase em que se troca todo o elenco, o que deixa a história mais convincente e próxima do público. Quem viu o filme original com seus 18 anos, em 1995, voltou para ver a sequência com 27 e, depois, com 36, amadurecendo junto com seus personagens favoritos.

Outros exemplos icônicos deste amadurecimento perante as telas são o do ator Alex Vincent, na franquia “Brinquedo Assassino” e o elenco principal dos oito filmes de “Harry Potter”, apenas para citar alguns.

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