
O trabalho de Christopher Nolan tende a trabalhar mitos de baixo para cima, reduzindo os elementos mais fantásticos das obras para um espaço realista, de forma que consiga modernizar as figuras que aborda. Isso nunca foi mais claro do que na sua trilogia do Cavaleiro das Trevas, onde o morcego de Gotham City cede suas características mais caricatas para dar lugar a uma austeridade realista. Os filmes desinflam qualquer elemento cartunesco das obras e buscam traçar razões dos porquês seria razoável alguém se vestir de morcego para proteger uma cidade ou vestir uma máscara de espantalho, se fantasiar de palhaço, etc. O problema desses filmes não vem da necessidade de trazer uma visão “matura” para essas obras (como Matt Reeves provou no ótimo “The Batman”) mas de como, no caminho para tal, o diretor achata todo o fascínio psicológico e interesse burlesco que a obra tem. E acaba tornando o projeto num festival de autoimportância e pouca imaginação.
A Odisseia é a primeira vez desde o fim da sua saga do Batman que o diretor encontra um material com uma escala mitológica e, dessa vez, significativamente maior: cheio de deuses, criaturas fantásticas e manifestações divinas que circulam seu mundo. O projeto de trazer uma credibilidade realista para obra, sem ornamentos e a privando de exageros, inserindo o material num mundo de pose sóbria, continua bem similar. Os castelos e cavernas da Odisseia de Nolan são pouco espetaculares, personagens se referem uns aos outros de forma informal (“father” é “dad”m), as armaduras e vestes dos seus guerreiros e personagens também não provocam qualquer encanto ou parecem carregados de qualquer paixão ou lirismo, que se esperaria de um poema épico. Por seus meios realistas, o Nolan é por definição agressivamente prosaico. Desde antes do primeiro frame IMAX brilhar a tela, tudo isso já é bem evidente quando ouvimos o Bardo de Travis Scott recitar uma versão dos contos de Odisseu (Matt Damon), que viajou para as terras distantes de Troia e a conquistou com o truque de esconder homens em um cavalo e presentear os troianos, através de fragmentos frasais singulares. “Um homem. Uma ideia. Um truque.” é basicamente como Nolan conta a Odisseia também. A fragmentação temporal, relato fatual, com alguma neutralidade, buscando apenas a essência dos momentos do impacto e a relação estrutural com a obra já estão ali.
Por mais que Nolan busque tirar ênfase dos elementos mais grandiosos da obra, também não parece muito confortável com seus momentos mais mundanos. A primeira hora do filme é inflada em montagem paralela obsessiva entre cenas de Telemachus em Ítaca, com alguns pequenos vislumbres de Odisseu (cujo filme tenta, mas não consegue elaborar qualquer senso lírico em sua ausência, pois nunca se mantém presente). São planos curtos, contados frame a frame para avançar a narrativa mas não arrastar, que parece ser arquitetada para “passar pela parte chata, o mais rápido possível”. É um grande tiro no pé para escala de A Odisseia, que não entende que o começo pequeno é importante para que a história acumule intimidade antes de chegar em seus ápices e desfrutar de seu gigantismo. O trabalho parece não confiar que uma audiência contemporânea teria paciência para assistir um épico hoje em dia. Seria fácil descartar A Odisseia em cima disso mas, por mais fatigante que essa primeira hora do filme é, em algum momento a montadora Jennifer Lame encontra o pulso do filme e a A Odisseia começa a interessar. A visão ultra literal do Nolan em cima do material exaltado de Homero encontra seus interesses na brutalidade da guerra e até consegue compreender alguma mística dentro desse mundo.
É um filme que nega qualquer aspecto mais pitoresco das suas imagens, filmadas em IMAX e entregues ao mundo em cinco razões de aspecto diferentes, o longa não tem grandes quadros mas busca uma tatilidade de seu realismo. A sequência com o Ciclope Polifemo tem um raro momento de animação do diretor com algum elemento de cena, que consegue orquestrar a tensão e um senso místico ao redor da figura. Ao final da sequência, Odisseu fura o olho da criatura, que roga a seu pai, Poseidon, por punição para o insolente. É evidente que na Odisseia de Nolan ninguém verá deuses. De todas as escolhas a fim de desinflar o poema de Homero, essa parece ser a que melhor funciona. Fora aparições de Athena (que assume o corpo de Zendaya) para Odisseu e uma sequência central do longa onde os personagens fazem um ritual para encontrar os mortos, os deuses não são personagens concretos em A Odisseia. Porém, o que Nolan busca é elaborar as divindades como presenças físicas na cena através de outros elementos. Athena diz que a linguagem dos deuses é universal – o sorriso de uma criança, um mar agitado, o fogo alto. Em A Odisseia, os deuses existem ocultos aos olhos humanos, mas se manifestam como o mar turbulento, com a tempestade nos céus, como um olhar, como um momento de realização. Nolan consegue sugerir uma presença divina nesse mundo realista através de elementos mais sutis de cena.
Ideia em si de lotar um cavalo gigante de homens para invadir um reino já carrega algum valor fantástico. A primeira vez que encontramos o cavalo, enterrado pela metade na areia da praia, observado por Sinon (Elliot Page) a distância, tenta elaborar algum senso surreal ao redor da imagem. Mais tarde no longa entramos no cavalo junto dos soldados de Agamenon (Benny Safdie), um espaço imundo, cheio de excrescências, que Nolan vai contextualizar como um gesto de guerra ultimamente profano. Odisseu, similar a Oppenheimer, também é um personagem que fez algo porque podia, sem se perguntar se deveria. A jornada de Odisseu é de voltar para casa, mas o personagem parece estar em um autoexílio inconsciente, não se reconhecendo após observar o horror da máquina de guerra que criou. O choque de responsabilidade de Odisseu é mais convincente que o do Oppenheimer de Nolan, algo que é essencial para sustentar a segunda metade do épico. Tridimensionalidade dos personagens nunca foi um forte do Nolan, mas aqui o Damon evoca uma complexidade moral para o herói de A Odisseia que consegue segurar o longa pelos seus mares mais instáveis, de pontes entre grandes cenas buscando ser as mais objetivas possíveis, lotadas de diálogos expositivos. O Himish Patel, interpretando Eurylochus, tem o trabalho ingrato de entregar todas as piores linhas do filme, relembrando a audiência de grandes temas e reiterando obviedades. É milagroso o que ele faz com o personagem, ainda conseguindo estabelecer um laço envolvente com o Odisseu de Damon.
Existem dois grandes momentos com Penelope (Anne Hathaway, facilmente é a personagem mais interessante do projeto), sua negociação com Antínoo (Robert Pattinson), através das linhas inacabadas da mortalha de Odisseu – momento de raro lirismo na obra do Nolan como um todo, e também o único onde o longa confia em um plano só para carregar a cena; e o segundo vem no reencontro de Penelope com Odisseu, disfarçado de velho pedinte, dizendo ser Sinon e falando sobre seus atos na guerra. Esse último talvez seja um dos poucos momentos onde o Nolan consegue conciliar bem seus diálogos sussurrados sob câmeras IMAX, montados paralelamente com a escala da batalha de Troia. A força do momento com Penelope colore o conflito interno de Odisseu, dando peso às novas imagens. É um jogo rico de montagem e, algumas vezes, o diretor tem boas ideias com seu truque favorito. Mas pela maior parte, nas idas e vindas temporais do filme, A Odisseia troca intimidade por intensidade. O épico parece sempre manter uma urgência, impulsionado pela trilha sonora crescente do Ludwig Goransson, recurso que o Nolan vem usando há alguns anos, mas raramente consegue parar para sentir a jornada interna de seus personagens. Ajuda que são personagens extremamente arquetípicos e o diretor trabalha com o que essas pessoas representam, suportando eles no peso simbólico da jornada de Odisseu. Mas, ao assemelhar eles muito mais a conceitos do que a figuras tridimensionais, Nolan também achata grande parte dos ganhos do longa. O que faz da Odisseia uma experiência cheia de impulsos, mas com pouca força de permanência.
Raphael Lages
