Conhecemos Bear (Michael Johnston), confessando amor apaixonadamente de forma um pouco psicótica. Logo descobrimos que ele está ensaiando para finalmente confessar a Nikki (Inde Naverrette), sua crush há anos, o que sente. Estamos assistindo comédia romântica sinistra até que Bear quebra um Salgueiro do Desejo e pede que Nikki o “ame mais do que qualquer pessoa do mundo.” Claramente não leu ou viu muitos filmes sobre desejos ou gênios. A garota fica completamente obcecada com ele, e precisa-se de pouca imaginação para entender como esse tiro vai sair pela culatra.
O grande forte de Curry Barker, no seu segundo longa como diretor (tendo o primeiro, Milk & Serial (2024) custado $800 e sido lançado gratuitamente no YouTube), é sempre entender as implicações cômicas das suas cenas e conseguir preservar uma ambiguidade entre o humor e o horror a todo momento, algo que permite que Obsessão (2025, Obsession) mantenha uma complexidade na exploração comportamental dos personagens. O filme ainda vai jogar em algumas obviedades do gênero, de pegar gestos comumente românticos e revira-los até que fiquem de ordem ultimamente macabra. Nikki assiste Bear dormir, desaparecendo em sombras escorada na parede do quarto, como um espirito obsessor. A sequência progride transformando diálogos associados ao afetivo em dinâmicas que soam sombrias, jogada bem manjada e que o filme vai usar à exaustão, mas ganha potência quando Barker enxerga um humor de esquete nas reações do protagonista. Entendendo a dimensão mais patética dessa figura, enquanto alfineta todas as inseguranças dela.
Bear parte de ser uma figura de insegurança masculina, o Michael Johnston traz uma ansiedade controlada razoavelmente gostável ao personagem. O que Barker propõe aqui é uma dimensão mais macabra por trás dessa fachada de “nice guy”. A princípio o que aparenta insegurança, se revela como uma impossibilidade de compreender a tridimensionalidade de sua parceira. É evidente como a premissa aborda consentimento como tema, mas mais fascinante ainda é como busca localizar o desejo do protagonista e desestruturar qualquer sensibilidade ou romance que pareça sugerir. “A Nikki gosta de mim?” pergunta Bear para algo que certamente parece com a Nikki, mas definitivamente não é ela. Bear é apaixonado por Nikki ou, meramente, por seu corpo?

Como filme de possessão, Obsessão também vai buscar exagerar dinâmica controladoras do feminino, também examinando uma possibilidade tóxica nessa esfera, conseguindo escapar da armadilha de ser um filme de “namorada maluca,” tirando agência da personagem. É até interessante pensar o trabalho como uma caricatura desse imaginário. O cineasta organiza todo o humor do filme nas perturbações e no patético de Bear chocando isso com o comportamento obsessivo da namorada. Assim, Nikki não é o alvo da piada. A Inde Naverrette sabe projetar essa instabilidade sinistra e entender a personagem como algo de uma entidade, deixando conflito espiritual interno dela muito evidente, mas também manter o desespero melancólico dos comportamentos que reproduz. Mesmo iluminada em sombras que ocultam ou distorcem seu rosto – processo também desloca a personalidade da personalidade de seu corpo – Naverrette sempre move em automação, como se buscasse alcançar alguma pose pré-determinada.
Gravado em uma razão de aspecto um pouco mais quadrada que o normal (em 1.50:1, que evidencia bem mais a verticalidade dos quadros), é refrescante como o diretor vai organizar as cenas em profundidade de campo, sempre mantendo Nikki como uma ameaça nos quadros quando consegue. O diretor também muitas vezes vai contar com enquadramentos simétricos, centralizando os personagens nos quadros, buscando trazer um desconforto e uma ideia mais mecânica para as interações, o que faz o filme soar um tanto posado muitas vezes. Junto do desenho de som invasivo, que vai preencher silêncios e destacar cada gesto, o trabalho muitas vezes é calculado demais para conseguir realmente deixar as ideias decantarem. Parte disso, é a natureza popular que o filme busca, parte disso me parece insegurança com a própria encenação.

Isso vai acabar criando uma dinâmica particularmente exaustiva com a premissa, que já se telegrafa desde o momento que é apresentada e, fora a natureza mais perturbada das reações de Bear, revela muita pouca surpresa e se encaminha de forma protocolar até a conclusão. O que faz o trabalho soar um tanto pragmático, o que interessa pouco num filme tão interessado em revelar os personagens através desse estresse comportamental.
E aqui começo a questionar também o quanto o terror do Barker funciona, de fato, para além das formas como ele vai usar dele para gerar humor. O momento onde o protagonista liga para a central do “Salgueiro do Desejo,” é o melhor do filme pois não é só o ápice cômico, como também encerra com um dos únicos momentos genuinamente arrepiantes do longa. Todos os outros parecem funcionar mais em como comunicam com os esquetes ou os temas.
Raphael Lages
