Os 21 anos de “Titanic”: A Febre Cinematográfica Que Conquistou Fãs em Diversos Formatos

O filme de James Cameron passou por diversas mídias, aumentando sua legião de seguidores em duas décadas
Antônio Pedro de Souza*

 

          James Cameron iniciou sua carreira no começo da década de 1980. Entre os títulos daquela década, Cameron participou da produção de “Mercenários das Galáxias” (1980) e “Fuga de Nova York” (1981), até dirigir “Piranha 2” (1981). No entanto, seu primeiro grande momento foi “O Exterminador do Futuro” (1984). O sucesso abriu as portas dos estúdios de Hollywood para James.

         Na década de 1990, o cineasta revisitaria a história do robô assassino na sequência que é considerada por muitos a melhor da série: “O Exterminador do Futuro 2: O Dia do Julgamento Final” (1991) foi um dos filmes mais caros já produzidos (até aquele ano) e um dos mais lucrativos. A partir daí, James envolveu-se com outros projetos até que, na metade dos anos 90, deu início ao audacioso filme baseado no naufrágio mais famoso do mundo.

     O cineasta filmou os destroços originais do navio naufragado em 1912 e os reproduziu, com fidelidade, para o filme. No making-off disponível em alguns DVDs e Blu-Rays, Cameron informa que fez uma extensa pesquisa para que tudo saísse o mais perfeito possível: da lista de músicas executada pela orquestra à cor dos fogos de artifício/sinaleiros usados na época. Tudo foi estudado minuciosamente, para se evitar erros grotescos. Em um depoimento, James fala que, durante as filmagens dos restos do Titanic, eles observaram uma porta aberta em uma das laterais do navio e começaram a discutir o que poderia tê-la aberto: a força da água? O impacto com o iceberg? Uma pequena cena foi então criada para “explicar” tal abertura…

       No entanto, mesmo com todo o cuidado dispensado por Cameron e sua equipe, alguns erros cronológicos e de continuidade podem ser observados no decorrer do filme. Entre eles, há três que merecem destaque: a cena em que Cal está tomando o café da manhã e a criada pergunta se ele aceita mais. Nesse momento há um pequeno deslize de continuidade, já que Cal está com encostando a xícara no pires e, quando a câmera corta para a criada lhe fazendo a pergunta, ele está com a xícara encostada nos lábios descendo-a novamente ao pires. Embora não seja filmada em plano sequência, a cena mostra exatamente uma continuidade da ação, o que evidencia o erro. Outro erro é na cena em que Rose quebra um vidro de segurança para retirar o machado e salvar Jack. No primeiro corte, apenas um pedaço de vidro fica preso na estrutura, já no segundo ângulo, há vários pedaços visíveis ainda presos na caixa. Por fim, a frente do navio: há diversos momentos em que percebemos que não há ligação entre dois lances de grades e, em outros momentos, os mesmos lances estão conectados. Tais erros, porém, não diminuem a qualidade e o apreço que o filme conquistou nessas duas décadas.

         Sobre a famosa trilha sonora, James Cameron convidou James Horner para compor uma trilha unicamente instrumental. O compositor, no entanto, acreditava que uma canção deveria possuir letra e voz. Foi aí que surgiu “My Heart Will Go On”, em parceria com Will Jennings e oferecida à Celine Dion, para interpretar. A cantora recusou a proposta, pois não gostara da letra. Depois de muita insistência, Celine reconsiderou e gravou a canção, que foi aceita também por Cameron e incluída filme, tornando-se tão famosa quanto o longa.

           O ano de 1997 começou em polvorosa com a promessa do filme. Embora não fosse a primeira (e nem seria a última) versão cinematográfica sobre o naufrágio, era um das mais comentadas, devido à grandiosidade da produção. Os detalhes, cuidadosamente pensados, impressionavam.

         Lançada pouco antes, em 1996, a minissérie “Titanic”, estrelada por Catherine Zeta Jones aumentou a ansiedade sobre a produção de Cameron e traz um dado curioso: era a primeira vez que uma adaptação, para o cinema ou TV, mostrava o Titanic se partindo ao meio.

      Cameron, contudo, seguia com seu projeto, chamado por muitos de “megalomaníaco”: a réplica do navio tinha dimensões parecidas com o original e o orçamento beirava os duzentos milhões de dólares. O filme foi produzido pelos estúdios Paramount (“Psicose” e “Sexta-Feira 13”) e 20th Century Fox (“Esqueceram de Mim” e “Os Simpsons”), sendo distribuído internacionalmente pelo segundo estúdio.

      O elenco era encabeçado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet e o roteiro mesclava elementos reais do naufrágio a uma história fictícia. Após alguns atrasos, o filme chegou aos cinemas americanos em 19 de dezembro de 1997 e se tornou um fenômeno – de público e crítica – imediato. Fora dos EUA, o sucesso se repetiu. No Brasil, a produção estreou em 16 de janeiro de 1998. Várias pessoas que assistiram ao longa na época, relatam as enormes filas nas portas dos cinemas. Muitas vezes, os ingressos tinham que ser comprados com antecedência, tamanha era a procura.

Febre

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Reprodução da capa da revista “Titônica”, paródia da Turma da Mônica ao filme “Titanic” – MSP/Divulgação

          A “Febre-Titanic” foi tanta, que acabou inspirando derivados: diversas histórias da Turma da Mônica, por exemplo, produzidas pelo cartunista Maurício de Sousa, usaram como “gancho”, o filme. As mais famosas foram “O Caso do Pôster”, história lançada em uma revista da Mônica em 1998 e a paródia “Titônica”, lançada na série “Clássicos do Cinema” em 2007.

        O filme ultrapassou os dois bilhões de dólares em bilheteria e sua trilha sonora permaneceu 16 semanas no primeiro lugar de vendas da Billboard.

          Passado o frenesi cinematográfico, Titanic foi lançado em vídeo. Os luxuosos VHS duplos ganharam as prateleiras das videolocadoras – era comum cada loja possuir vários exemplares, devido à grande procura pelo filme – e, mais tarde, das lojas de varejo. As fitas, disponíveis nas versões dubladas e legendadas, dispararam em locações e vendas. Há quem conte, como veremos adiante, da existência de um VHS triplo: duas fitas com filme e uma com os bastidores.

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Os famosos – e hoje, raros – VHS de Titanic – Foto: Antônio Pedro de Souza

          Eu mesmo assisti ao filme pela primeira vez no Natal de 1998 neste formato. Um tio alugou o filme e todos nos reunimos na sala para conhecer a tão famosa história. Fiquei apaixonado na hora pelo longa.

         Meses depois, já em 1999, assisti de novo, quando um amigo do meu pai comprou o filme e nos emprestou as fitas. Lembro de ter visto umas duas vezes antes de devolver.

       Foi mais ou menos entre essa febre de locações e vendas no varejo, que o filme passou na TV a cabo pela primeira vez. Porém, o serviço ainda era pouco usado no Brasil. Em março de 2000, a Rede Globo anunciou o famoso “pacotão de filmes” inéditos que seriam exibidos no decorrer daquele ano e lá estava o famoso Titanic

          Aguardado por vários fãs e por pessoas que ainda não o tinham assistido, o filme foi finalmente exibido na TV aberta em duas partes: na quinta-feira, 14 e na sexta-feira, 15 de dezembro daquele ano, no “Cinema Especial”, logo após a novela “Laços de Família”. A audiência foi às alturas com a exibição, ultrapassando os 50 pontos. Nos anos seguintes, a Globo o reexibiu em “Tela Quente”, “Temperatura Máxima”, “SuperCine” e, mais uma vez, no “Cinema Especial”. Todas as re-exibições, porém, tiveram apenas um “capítulo”, ao contrário da primeira exibição. Depois, a Record o exibiu algumas vezes.

        Ainda na primeira metade da década, o filme foi lançado em DVD, em diversas versões, todas porém, primando por uma boa qualidade de imagem e áudio, como pudera ser verificado no cinema e mesmo em fita de vídeo. A versão simples – e primeira a ser lançada – trazia o filme apenas legendado e a capa era idêntica à do VHS. A diferença era que, enquanto o VHS era duplo, essa versão em DVD continha apenas um disco.

         O filme também pôde ser encontrado na versão dublada (a mesma dublagem do cinema, da fita e que foi exibida na TV aberta), com as vozes de Danton Mello (Jack) e Mônica Rossi (Rose), em DVD duplo: o filme foi, novamente, dividido em duas partes e os extras foram inseridos nos dois discos. Havia ainda as versões com quatro e seis discos. A diferença era só a quantidade de extras que cada versão possuía. Nestes DVDs (exceto a versão simples, legendada), era possível ver um final alternativo, em que a equipe do navio de buscas descobre que Rose está com o diamante. Se ela entrega ou não o diamante para os navegadores, só vendo para saber.

         Em 2012, o naufrágio do RMS Titanic completou 100 anos e o filme de James Cameron, 15 anos. A data foi celebrada com o relançamento do longa nos cinemas usando a tecnologia 3D. Uma nova oportunidade, para quem ainda não havia visto o filme nas telonas, de curtir a primorosa produção de Cameron.

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Cartaz usado para o relançamento do filme em 3D – 20th Century Fox/Divulgação

          O processo de conversão deu tanto trabalho quanto a produção original: o diretor revisou quadro a quadro do filme corrigindo os erros que passavam a ficar visíveis com a inserção do 3D. Foi escolhido o 3D passivo, ou seja: você vê os objetos principais na tela e os secundários num campo anterior à tela. Diferente do 3D ativo, onde vemos os objetos secundários na tela e os principais, “fora da tela”, próximos da gente.

         A trilha sonora também foi relançada em uma edição especial com dois discos: o primeiro, traz a trilha composta por James Horner (incluindo a canção “My Heart Will Go On”, na voz de Celine Dion). O segundo, traz as músicas interpretadas pela orquestra do navio. Estão incluídas aí “O Danúbio Azul”, “Orpheus”  e “Nearer My God to Thee”.

         O filme ganhou uma nova dublagem – deixando muitos fãs da dublagem original descontentes – e saiu em DVD duplo e em Blu-Ray. Na nova mídia, ele ganhou duas versões: 2D e 3D.

         Nos extras, James Cameron revisita os bastidores originais de 1997 e reconta um pouco do processo de criação, incluindo alguns erros sobre o naufrágio e que só foram descobertos depois do filme lançado. Em um momento, ele brinca: “Então, descobrimos que a água entrou desse jeito, e não do jeito que filmamos. Teremos que refilmar toda a obra.” E sorri.

         O fato é que, seja no cinema, em VHS, em DVD ou em Blu-Ray; seja em 2 ou 3D, Titanic continua sendo um dos filmes mais aclamados e assistidos de todos os tempos. Sua bilheteria permaneceu inalcançável por 12 anos, só sendo ultrapassada por “Avatar” (2009), coincidentemente, de James Cameron…

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*Este texto foi publicado originalmente em 15/04/2017 no Site Feira Cultural e republicado no mesmo site em 15/04/2018. Esta versão foi editada especialmente para o Projeto Lumi.

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