O que fazer quando seu vira-lata se apaixona por uma cadela de raça?
Meu cachorro Édipo se apaixonou pela cachorra do vizinho. Ele, um vira-lata de porte médio. Ela, uma pastor alemão. Os dois nunca tinham se visto até o fatídico 3 de fevereiro de 2026. Na semana que antecedeu o Carnaval, o excesso de chuvas fez com que parte do muro dos fundos da minha casa desabasse revelando para meus vira-latas surtados, bem como para a cachorra de raça do vizinho, um mundo novo. Logo, os cães começaram a transitar entre os dois quintais.
Claro que um pastor alemão e quatro vira-latas no mesmo cenário não daria boa coisa. A primeira reação foi a de inimizade: Drácula, meu cachorro, digamos, mais atentado, foi o primeiro a excursionar pelo lote do vizinho, mas foi posto para correr pela pastor alemão.
Depois, ela entrou em nosso quintal, e os quatro cães correram atrás dela. E ficou nisso, enquanto as chuvas desabavam sobre Vespasiano e o vizinho e eu pensávamos em um jeito de levantar o muro: placa, alvenaria, latão, cerca?
Um dia, Chicó, outro dos meus vira-latas, tentou a fazer a política da boa vizinhança e se deu mal. A cachorra deu-lhe umas dentadas e ele resolveu não aparecer mais na cerca improvisada entre os dois lotes. Depois foi a vez da Laika, minha cadela mais velha. Foram duas brigas com a pastor alemão, na qual a minha cachorra levou a pior. Uma espécie de Brasil x Alemanha canino, entende?
Por fim, Édipo: meu cachorro mais novo, menor e inexperiente. Ele foi se aproximando da cerca improvisada, a pastor alemão foi se aproximando do lado dela, a tensão pairando no ar. Energia estática e… Os dois não querem mais ficar longe um do outro. Já tive que ir buscar meu cachorro no terreno do vizinho umas cinco ou seis vezes desde o último sábado.
Enfim, tive que colocá-lo num cercadinho que temos para emergências – quando um dos cães está doente ou com filhotes, por exemplo. Mas basta soltá-lo, que o amor fala mais alto e lá vai Édipo atrás da pastor alemão.
Juntos, eles conseguiram cavar um buraco entre telhas, tijolos e latas que eu e o vizinho pacientemente encaixamos no último mês para tentar conter os avanços dos próprios cães. É como aquela velha máxima “O amor tudo vence”.
Tentei argumentar com meu cão que não tenho condições de pagar pensão alimentícia para filhotes de pastor alemão. Que ele e ela não pertencem à mesma classe social, e que esses romances só dão certo na TV e no cinema, mas de nada adianta. Soltamos o Édipo e lá vai ele correndo para a cerca, a fim de se encontrar com a cachorrona de raça.
Enquanto tento manter a honra da cachorra intocada e livrar meu cachorro de um possível processo de paternidade, também penso num outro ponto: ao separar os dois prováveis amantes mais badalados do Jardim Daliana, não estaria eu condenando o Édipo a ter um destino semelhante ao meu? Ou seja: ficar eternamente preso ao Encalhados Futebol Clube? Enfim, são muitas coisas a se pensar. E eu julgava que, pelo nome, meu maior pesadelo seria afastar meu cachorro de sua própria mãe. Ledo engano.
[Sugestão de música: “O Vira-Lata”, na voz de Sandy & Júnior, álbum “Aniversário do Tatu”]
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Crédito da Foto: Antônio Pedro de Souza
