Crítica: Tatame

Há pouco tempo a icônica banda de rock brasileiro Titãs fez uma apresentação que chamou muita atenção ao mostrar em telões gigantes documentos da década de 80 onde o estado brasileiro dizia em detalhes o que a banda podia e o que não podia apresentar ao público da época. Essa realidade causou espanto para muitos ali presente no show que talvez não fizessem ideia de que a famosa ditadura da qual sempre se fala era daquele jeito. Exemplos tão claros assim de uma realidade que parece distante é essencial. Por isso, o filme ¨Tatame¨ é tão honesto na forma que se apresenta como um drama esportivo, envolvendo mulheres inseridas em um regime autoritário onde são peças decorativas e não pessoas.

É uma história desprovida de rodeios e o drama aparece sem recursos para torná-lo maior do que é. Leila, atleta de judô, é a personagem principal e juntamente com o apoio fundamental de sua treinadora, disputa a oportunidade de sua vida em campeonato mundial sediado em outro país. É pressionada pelo governo de sua terra natal, o Irã, a desistir da competição devido a situações políticas que nada tem a ver com o esporte. Na medida que o tempo passa, a pressão para que ela saia da competição só vai escalando a níveis maiores e a violência chega como o “amigo” que não foi convidado.

¨Tatame¨ é apresentado em preto e branco e esta foi a melhor decisão que poderia ser feita porque impacta diretamente na nossa atenção, voltada totalmente para o competente trabalho da atriz Arienne Mandi que interpreta Leila. A ausência de cores é perfeita como metáfora de um mundo de mulheres que não podem ser o que querem ser. Embora isso não seja discutido em panfletagem, é mostrado cruamente, naqueles olhares de medo, naquela incerteza de ser abordada ou agredida por um desconhecido a qualquer momento.

Apesar de Leila possuir vantagens que talvez sua treinadora não tenha tido em relação a apoio da família, marido e amigos, vemos que chega um determinado momento em que a escolha de abandonar o país é essencial para se manter vivo. A violência de um regime político que não respeita a dignidade humana passa por camadas de realidades das mais distintas, desde a música de artistas que são barradas ou modificadas, ou a própria liberdade de ir e vir.

No filme, o governo iraniano não quer Leila lutando com uma atleta israelense. Curiosamente vivemos atualmente peculiar momento nas relações desses dois países. Ironicamente o longa é codirigido pelo israelense Guy Nattiv e a iraniana Zar Amir Ebrahimi que justo interpreta a treinadora de Leila. Por isso entende-se a qualidade de um filme que por ser tão pessoal a quem o fez entrega essa história forte e bem apresentada. 

No universo daquelas mulheres, seus rostos estão sempre tensos por diferentes motivos, mas em todas elas reside um fator comum: a pressão da sociedade iraniana.  E o silencio das companheiras de esporte dos outros países é cruel. Muitas delas, senão todas, conhecem a realidade iraniana, mas por medo e indiferença preferem não se envolver. Inclusive quem tem poder para interferir, como dirigentes do campeonato de judô, prefere usar uma justificativa qualquer para se omitir. E a indiferença talvez seja um dos mais cruéis atos de violência.

¨Tatame¨ é altamente recomendável.  Premiado internacionalmente, além de ser uma agradável experiencia com uma história de tensão e suspense e reflexão, guarda um desfecho que óbvio ou não, é bastante corajoso para aquelas mulheres.

Vitor Damasceno

Deixe um comentário