O Espelho de Esmeralda: Por que o novo “Morro dos Ventos Uivantes” é um delírio pop e não uma lição de literatura

Fábio Gomes

Curioso como um filme, antes mesmo de sua estreia, já tenha sido alvo de tantos vereditos
precipitados. Imagens de divulgação e registros vazados acabaram tirando a essência da obra
de contexto, alimentando uma espécie de ‘comoção’ entre os fãs mais tradicionais do livro. No
entanto, o que vi prova que o cinema não deve favores à literalidade.
Confesso que, após os créditos subirem e eu cruzar a porta da cabine de imprensa, o silêncio
me dominou. Eu não sabia por onde começar. Nem o que pensar hahaha. Fui esperando que
iria receber absolutamente nada e recebi um soco estético que subverte qualquer expectativa.
Nunca fui um devoto fervoroso do livro de Emily Brontë, sempre respeitei a força da história,
mas sem o fascínio que consome os puristas. E talvez seja exatamente por isso que o filme me
conquistou, ele não é uma adaptação para os fãs de cabeceira; é uma VISÃO AUTORAL, uma
escolha artística que prefere a febre à fidelidade.
​Este filme certamente vai dividir águas. Para os que buscam uma tradução literal ou para
aqueles que já chegam prontos para surfar na onda do hate por conta das escolhas ousadas, o
longa será um desafio. Mas para quem quer cinema, a experiência é fascinante.
Esqueça tudo o que você projetou sobre o clássico de Emily Brontë enquanto lia sob a luz de
um abajur. A nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennell (Saltburn –
2023) não é um serviço aos fãs do livro; é um espelho autoral da diretora, uma visão que
subverte a lama das charnecas por um delírio estético que beira o hipnótico. Uma fábula gótica
visceral, onde a beleza é a arma mais letal e joga o mofo vitoriano para escanteio.
​O filme é visualmente avassalador. O design de produção e o figurino quase fantasioso elevam
a obra para um lugar onde o tempo não importa. Não estamos na Inglaterra de 1800; estamos
dentro da mente febril de personagens que se acham maiores que o próprio destino. A
fotografia sensacional não serve apenas para “ficar bonita na tela”, ela serve para isolar
Heathcliff e Cathy em uma redoma de luxo, onde a decadência moral é mascarada por tecidos
caros e enquadramentos milimétricos.
​O grande xeque-mate da direção foi entregar a trilha sonora nas mãos de Charli xcx. A escolha
é brilhante e propositalmente anacrônica. As batidas eletrônicas e o som pulsante da artista
arrancam o filme do conforto do “drama de época” e o jogam em uma urgência quase clubber.
A música de Charli traduz o que as palavras não dão conta. A sensualidade aqui não é
romântica, é química pura, é uma “bad trip” de desejo que embala a trama com uma energia
perigosa.
​Se você vai ao cinema esperando um romance, é nesse momento que você leva um murro na
cara. Este filme é, essencialmente, um estudo sobre ego, vingança e vaidade. Cathy e
Heathcliff não são almas gêmeas perdidas na névoa; são narcisistas obcecados pela própria
dor. A diretora entendeu que o cerne de Brontë não é o amor, mas a destruição mútua. Nesta
versão, a paixão é apenas o combustível para uma vaidade ferida que queima tudo ao redor. É
a celebração da vilania vestida de cetim.
As atuações são o pilar que sustenta esse delírio visual, impedindo que o filme se torne apenas
um editorial de moda vazio. Margot Robbie entrega uma Catherine Earnshaw que foge de
qualquer estereótipo de “mocinha vitoriana”; sua atuação é uma aula de como transitar entre

a vulnerabilidade e a arrogância, transformando sua Cathy em uma força da natureza movida
pelo narcisismo. Ao seu lado, a escolha de Jacob Elordi como Heathcliff é, francamente,
certeira e magnética, ele utiliza seu porte para dar corpo a um animal ferido pela própria
vaidade, equilibrando brutalidade e uma vulnerabilidade perversa que reverbera em cada cena
com Margot.
​No entanto, o triunfo do filme também reside na precisão do elenco de apoio. Os demais
atores não apenas orbitam os protagonistas, eles constroem a tensão necessária para que o
colapso social e emocional seja crível. Cada olhar de desdém e cada silêncio ensaiado dos
personagens secundários servem para polir esse espelho de obsessão, transformando o drama
em um embate de castas e ressentimentos que preenche a tela com uma densidade rara. É
uma engrenagem humana impecável onde ninguém está ali por acaso.
E é claro que a obra não é isenta de ressalvas. A principal delas está no ritmo inconstante ao
longo de suas quase três horas de duração, um fôlego que parece testar a resistência do
espectador (afinal, será que a indústria esqueceu como contar boas histórias em menos de 150
minutos?). No entanto, decidi seguir por um caminho diferente nesta análise. Ao chegar para
assistir o filme, percebi que muitos já entravam na sala armados com críticas prontas,
alimentadas por uma proteção quase religiosa ao texto original de Brontë. Como prevejo que o
filme será inundado por ondas de negatividade vindas dos ‘defensores do cânone’, optei por
focar naquilo que o filme entrega de melhor. Acredito que, quando equilibramos a balança, os
acertos artísticos e a coragem da direção superam os excessos do tempo de tela. Prefiro
celebrar a ousadia de uma visão nova a me juntar ao coro previsível de quem não aceita a
mudança.
O filme se recusa a ser uma tradução literal das páginas para as telas. É uma interpretação
ácida, pop e visualmente impecável. É cinema de autor para quem tem estômago para a beleza
cruel. Ao trocar a melancolia pela opulência e a trilha clássica pelo sintetizador, a produção
entrega a versão mais honesta possível sobre a podridão humana: aquela que é tão linda que
você não consegue desviar o olhar.

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