Terror simples e eficaz
Eu costumo dizer que alguns filmes vêm em ciclos. E isso no gênero terror é mais comum do que parece. Se pegarmos exemplos históricos veremos que Halloween, Banho de Sangue e Sexta-Feira 13 foram lançados em sequência, dando início a uma era prolífica de exemplares do slasher/trash. Na década de 1990, após Pânico, um turbilhão de filmes mostrando como a nova geração lidaria com assassinos em série surgiu: Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado e Lenda Urbana são apenas alguns desses exemplares. Pouco antes da pandemia, entre as décadas de 2010 e 2020, outros filmes que pareciam ser feitos em conjunto conquistaram os fãs deste segmento, mesclando assassinos em série com maldições que precisam ser quebradas de algum modo: Corrente do Mal, A Morte te dá Parabéns 1 e 2, Verdade ou Desafio e Ma (este último sem o elemento sobrenatural) parecem beber de uma fonte parecida. Por isso, é uma grata surpresa que em 2026 tenhamos um filme como “O Som da Morte”, dirigido por Corin Hardy.
O longa-metragem traz de volta alguns elementos citados nos filmes anteriores, em especial, a questão da “maldição que precisa ser quebrada de algum jeito”, enquanto seus desafortunados personagens sucumbem um a um diante do perigo.
Inicialmente, o filme parece deslocado no tempo, já que a leva mais recente de filmes com essa temática foi lançada há mais de cinco anos. Porém, vale ressaltar que algumas sequências e/ou refilmagens de filmes clássicos começaram a pipocar no último biênio: tivemos um novo Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, um novo Premonição, uma nova versão de Natal Sangrento (desta vez abarcando um olhar “amaldiçoado” sobre a trajetória do Papai Noel Assassino), e vem aí um novo Pânico. No filão de objetos amaldiçoados, tivemos em 2025, O Macaco, baseado num conto de Stephen King e cuja equipe produtora está por trás deste novo filme. Ou seja: “O Som da Morte” está envolto em um novo ciclo de filmes e que ainda pode render mais títulos nos próximos anos.
Como dito no bigode deste texto, o terror é simples e, talvez por isso, eficaz. Não há uma tentativa de reinventar a roda. De criar um caos novo. De tentar ser maior do que realmente é. E essa é a eficiência do filme: um terror simples que funciona.
Os cenários nos remetem, obviamente, aos clássicos do slasher: um colégio e estudantes até certo ponto estereotipados: o nerd que nutre uma paixão pela bela líder de torcida altamente popular. A prima deste nerd que passou por um trauma horrível; uma estudante que está descobrindo sua sexualidade; o atleta babaca; a já citada líder de torcida; e um tipo relativamente novo, que parece ter saído das redes sociais brasileiras, embora o filme seja estadunidense: para os pais, ele é um jovem pastor/coach levando as crianças e adolescentes para o caminho de Deus; nos bastidores, ele vende drogas para essas mesmas crianças e adolescentes, tendo sido responsável pela overdose de uma delas um ano antes.
No meio disso tudo, está um objeto sombrio encontrado num dos armários da escola e que será o responsável por invocar a morte de cada um dos personagens. Sem muitas informações de como proceder a respeito de seu iminente fim, os jovens vão atrás de uma antiquária que tem ligação com o jovem mostrado na cena de abertura. Ela dá algumas pistas de como eles poderiam driblar a morte; algo na linha do que Tony Todd fazia na franquia Premonição. Inclusive com a regra de que “ofereça outra vida para a sua morte e, com isso, sobreviva.”
As pistas, claro, deixam os jovens cada vez mais confusos e, com isso, indubitavelmente, eles se deparam, cada qual, com o seu fim. Como qualquer filme de slasher, O Som da Morte tem seus altos e baixos: algumas mortes são “forçadas” em relação aos efeitos técnicos e outras são até injustas. Em determinado momento, o personagem Rel, vivido por Sky Yang, (o nerd) consegue criar uma armadilha para o personagem traficante vivido por Percy Hynes White. Estava tudo certo para ele dar cabo no vilão, quando é impedido por sua prima e pela namorada dela, que insistem em dizer que “há um outro jeito para resolver o caso.” Depois, elas mesmas utilizam o artifício, enquanto o pobre Rel… É preciso assistir para saber o que acontece.
Outro ponto é uma inquietante repetição de que as maldições nunca surgem nos EUA, mas em países latinos. Assim como em Verdade ou Desafio, o artefato de “O Som da Morte” veio de fora do país, reforçando alguns estereótipos. Mas até que isso é perdoável: para um país que já tem um presidente como Donald Trump, não é preciso ter mais maldições naturais, não é mesmo?
Outro grande achado é a cena pós-créditos, numa pegada semelhante a vista em O Chamado 3 e o já citado Verdade ou Desafio. Vale a pena ficar na poltrona do cinema até o fim.
Em suma, O Som da Morte é um daqueles filminhos gostosos de terror para se assistir em dias chuvosos, comendo uma pipoca quentinha e tomando refrigerante. Entra para o novo ciclo de filmes slasher: sem criar nada novo, mas sem se repetir totalmente e deixa aquele gostinho de “quero mais”, não importa se é uma continuação ou um novo título derivado.
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Cotação por Ossos: 9,0
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