Josh Safdie e Ronald Bronstein aumentam suas apostas e ideias narrativas, extrapolando os limites – até então contidos – de suas histórias
O ato de sonhar é doloroso. Um sonho é algo que, por definição, está fora de seu alcance. Costumamos pensar o sonho pela distância entre seu ideal e sua realização material, mascespecialmente pela obstinação do sujeito. Talvez por isso existe algo belo no sonho – criar uma imagem em sua cabeça e moldar sua vida ao redor dela. E, nessa imagem, se encontracpropósito. Algo que é tão essencial quanto é perigoso porque – nesse caminho do ideal até o material, é muito fácil se perder. Se o custo de construir algo é destruir tudo a sua volta, é um preço que vale a pena pagar? Para o espirito juvenil dionisíaco, pouco parece fazer mais sentido. Afinal, existe motivação mais universal do que querer ser alguém?
Se sonhar é acreditar em uma história que não aconteceu, dá para entender Marty Mauser(Thimotée Chalamet) como um homem de fé inabalável. O garoto vende sapatos e, nas horas vagas, é um dos melhores jogadores de Tênis de Mesa do planeta. Na sua cabeça, é o maior – o mundo só não sabe disso ainda. Fora isso, ainda brinca de empreendedor se sobrar tempo. Ele interage com o mundo como se tivesse a resposta de todos os problemas, de todo mundo ao seu redor. É um personagem magnético. Mas todos esses positivos de Marty também trazem o outro lado da moeda – é um personagem que se define por seu egoísmo. “Eu tenho um propósito”, regurgita Marty em autodefesa enquanto foge de Rachel (Odessa A’zion), grávida do seu filho, “o que faz da minha vida muito mais difícil”.
Desprezível e cativante na mesma proporção, o Thimotée Chalamet deve estar fora de poucos quadros de “Marty Supreme” (2025), primeiro trabalho solo de Josh Safdie após suas colaborações de sucesso com o irmão. A câmera parece tão absorvida pelo protagonista quanto ele é por si mesmo. Também é tão dinâmica, insistente e irresponsável. Nos filmes do Josh Safdie (até então, junto de seu irmão Benny), o sonho americano está a uma grande oportunidade de distância. Tão próximo que seus personagens conseguem sentir o cheiro, mas sempre longe demais para sentir o gosto. Seus trabalhos anteriores são de uma América crua, que cerca e sufoca seus personagens até becos sem saída. Onde a moral e a lei são um mero inconveniente para seus protagonistas, mas as estruturas que as afirmam parecem incontornáveis. Eles estão sempre à beira de escaparem do buraco onde vieram (ou se enfiaram) mas parecem cada vez cavar mais fundo em um frenesi desesperado onde as proporções se invertem o inferno se confunde com o céu.
“Marty Supreme” dá continuidade as ideias que o diretor Josh Safdie, acompanhado do roteirista Ronald Bronstein (colaborador recorrente desde 2010), vinham trabalhando até então, mas agora dobram a aposta em escala. Marty Supreme é um filme de duas horas meia, se desenrolando num período de 9 meses através de múltiplos países – se opondo as narrativas que costumavam se desenvolver em nova-Iorque durante uma noite, como “Bom Comportamento” (Good Time, 2017, Benny & Josh Safdie) ou poucos dias, como a obra-prima da dupla de irmãos diretores – “Joias Brutas” (Uncut Gems, 2019). Safdie e Bronstein estruturam o filme ao redor de um pulo temporal que reconfigura o mundo e acumula inércia no protagonista inquieto. O que permite com que ele consiga só seguir o mesmo princípio dos longas anteriores, condensando a maior parte dos acontecimentos em curtos períodos de tempo, onde eles se empilham enquanto os protagonistas implodem, mas agora divididos em dois momentos diferentes que parecem fazer o tempo cercar o personagem.
Após um triunfo tamanho como “Joias Brutas”, a dupla tomar caminhos separados é a lógica. Os irmãos descreviam o longa protagonizado por Adam Sandler como o objetivo de suas vidas. E, depois de realizar o próprio sonho, tiveram que se perguntar para onde ir agora. Benny também fez sua cinebiografia esportiva, em “The Smashing Machine” (2025, Benny Safdie), abaixando um pouco o ritmo e fazendo um drama sentimental sobre um lutador que nunca perdeu e, então, não sabe perder. Não surpreende que Josh tenha feito o mesmo caminho, mas trazendo o Bronstein consigo, faz algo muito mais na veia de “Joias”. Também um filme sobre alguém que não sabe perder, mas ao invés de estar no topo da montanha, Marty está embaixo imaginando o ar rarefeito. É mais do mesmo, mas agora maior, porém também sacrificando um pouco do aspecto grosseiro que fazia do filme de 2019 tão especial. É um jogo de ganho e perda, muito pelo fato do Josh precisar contar com cenários artificiais e a própria escala pedir algumas coisas mais exuberantes.
Ainda assim, existe um esforço tremendo por parte do diretor de preservar um realismo imprevisível na reconstrução de época. É impossível conseguir de fato toda a instabilidade que levantar uma câmera em Nova Jersey ou Manhattan hoje vai proporcionar, mas as metrópoles cinquentistas do longa mais caro da história da A24 são tão vivas e cheias de movimento quanto podem. Todos os rostos e espaços constroem um universo, mas também falam por ele. Safdie é um cineasta essencialmente realista, mas que sabe manter personalidade no seu recorte entendendo seus personagens como peculiares e vendo humor no mundo. Marty Supreme é uma comédia. Até existe um elemento anacrônico no filme, especialmente no trio central de jovens – O Marty Mauser de Thimotée; sua situationship, a Rachel de Odessa A’zion; e seu melhor amigo Wally interpretado pelo Tyler, The Creator – que parecem todos muito contemporâneos nas formas que se movem e comunicam. E sinto que o Safdie é consciente disso, é um filme que fala uma linguagem muito contemporânea e consegue incorporar isso na personalidade do seu universo. A trilha-sonora, tanto nas escolhas de needledrops e quanto nas composições originais do Daniel Lopatin, que variam entre Eletrônica Progressiva nos seus momentos propulsivos e um New Age transcendental, dão uma paisagem sonora oitentista para o longa. Pode ser uma narrativa de época, mas o interesse do Safdie vai só até onde existem qualidades pessoais para ele que apelam de forma universal.
Não é o drama de prestígio que o Oscar Buzz implica, muito pelo contrário é um filme indecoroso o bastante para abrir com uma sequência de título onde espermatozoides entram num óvulo que se torna uma bola de golfe ao som de “Forever Young”. Fora o humor de mal gosto, a sequência ainda vai servir para poupar a ambiguidade do Marty ser ou não pai do filho da Rachel, o longa já responde logo de cara. Algo que é fundamental para dinâmica de todas as cenas do casal, ser o ponto de início e também conclusão do arco do protagonista. O Josh Safdie se diverte.
Existe uma tendência nos filmes de esporte contemporâneos de deixarem de ser sobre os grandes vencedores dos maiores campeonatos, dos esportes mais nobres e agora, abordarem as figuras esquecidas e jogos pouco climáticos. “Rivais” (Challengers, 2024, Luca Guadagnino) brincava com essa ideia ano passado, “Smashing Machine” é outra abordagem subversiva do gênero e “Marty Supreme” segue o mesmo pensamento. Marty Reisman não é um jogador que está na boca do povo, mesmo de alguns entusiastas de Ping-pong. É uma figura que não tem espaço num cânone e aqui, vai ganhar uma obra epopeica sobre sua tentativa de rasgar um lugar na história.
E é raro encontrar um filme tão desiludido com o gesto de sonhar. Não só o protagonista tem um sonho completamente individualista e, francamente, banal como também é um ególatra maníaco que atropela tudo em seu caminho. O processo de Marty é tentar superar uma estrutura que vai constantemente provar para ele a impossibilidade material do seu sonho. Marty passa a grande maior parte do filme tentando juntar alguns dólares para viajar, mas cada nova ideia para gerar uns trocados, se tornam desastres de escalas progressivamente mais absurdas. O capital elude o personagem, até que finalmente humilha ele para que ele consiga chegar onde quer. É um filme que parece enxergar sonhar como um ato ultimamente lindo – o ato de reescrever a história disposta a sua frente, a qualquer custo. Talvez o ato humano mais cativante possível, mas também fundamentalmente juvenil e possivelmente desprezível. Mas como viver sem sonhar?
“Marty Supreme” não tem medo das suas próprias contradições. É um filme que tem um protagonista tão abjeto quanto envolvente, não se desprende dele e sabe não amenizar seus defeitos. Safdie disse em algumas entrevistas que a câmera captura a alma dos atores, por isso sua predileção por não-atores. A câmera de “Marty Supreme” parece querer interrogar a alma do Chalamet aqui, extrair tudo que tem de belo e horrível nesse personagem, sem condescender a ele, mas também sem o admirar. É essa dialética que faz o filme, a contradição de vibrar com alguém que talvez só merecesse quebrar a cara. E de quebrar a cara com alguém que você só gostaria de vibrar.
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Cotação por Ossos:
9,0

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Sinopse:
Em Marty Supreme, um malandro se torna uma das grandes lendas norte-americanas do tênis de mesa. Seu nome é Marty Reisman (Timothée Chalamet) e, de jogar pelo dinheiro das apostas em Manhattan, o homem se torna campeão de mais de 22 competições de pingue-pongue, colecionando ainda, aos 67 anos, o título de atleta mais velho a vencer um campeonato nacional de raquete. Marty Mauser se recusa a ser apenas mais um trabalhador precarizado na cidade de Nova York dos anos 1950. Ele não medirá esforços para alcançar seus sonhos megalomaníacos, nem mesmo se for preciso roubar. Indo contra aqueles que duvidaram dele, o jogador alcança a grandeza em grandes torneios internacionais, mas também coleciona inimigos no processo.
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Ficha Técnica:
Timothée Chalamet – Marty
Gwyneth Paltrow – Kay Stone
Odessa A’zion – Rachel
Kevin O’Leary – Milton Rockwell
Tyler Okonma – Wally
Abel Ferrara – Ezra
Fran Drescher – Mrs. Mauser
Penn Jillette – Hoff
Sandra Bernhard – Judy
Spenser Granese – Clark
Emory Cohen – Ira Mizler
Géza Röhrig – Béla Kletzki
Joshua Bennett – Ted Bailey
Kevin O’Leary – Judy
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Direção: Josh Safdie
Roteiristas: Josh Safdie
Ronald Bronstein
Trilha Sonora: Daniel Lopatin
Produtores: Ronald Bronstein
Eli Bush
Timothée Chalamet
Anthony Katagas
Josh Safdie
Diretor de fotografia: Darius Khondji
Diretor de elenco: Jennifer Venditti
Montadores: Ronald Bronstein
Josh Safdie
Chefe figurinista: Miyako Bellizzi
Designer de produção: Jack Fisk
Distribuição: Diamond Films
Produção: A24 Films
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Galeria de Fotos:













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LUMITV – 6ª Temporada – 4º Programa:
