Crítica: O Beijo da Mulher-Aranha (2025)

O Beijo da Mulher-Aranha
Em sua segunda adaptação para o cinema — e a primeira concebida como um musical — O Beijo da Mulher-Aranha, inspirado na obra do escritor argentino Manuel Puig, surge como uma tentativa evidente de se firmar como uma força relevante na temporada de premiações. Ao mesmo tempo, o filme parece buscar um lugar simbólico como contraponto de orgulho latino em meio ao retorno da retórica conservadora associada à segunda era Trump e ao movimento MAGA.
Logo no início da narrativa, somos apresentados a Luis Molina (Tonatiuh), um homem homossexual apaixonado por cinema, que se encontra preso durante a ditadura militar argentina. Ele divide a cela com Valentim (Diego Luna), um militante político igualmente encarcerado pelo regime. A partir dessa convivência forçada, o longa constrói sua dinâmica central: enquanto Valentim representa a resistência política e ideológica, Molina encontra refúgio emocional e escapismo nas histórias que conta. É por meio dessas narrativas que ele compartilha sua devoção ao cinema clássico, especialmente à sua diva imaginária, Ingrid Luna (Jennifer Lopez), que em um filme fictício interpreta a enigmática personagem Aurora.
Na versão atualizada dirigida por Bill Condon — cineasta que já traz no currículo outra adaptação de sucesso da Broadway, Dreamgirls (2006), responsável, entre outros feitos, pelo Oscar de atriz coadjuvante para Jennifer Hudson — percebe-se uma clara intenção de homenagear os grandes musicais da Hollywood clássica. No entanto, apesar dessa ambição estética, o filme carece de vigor, energia e, principalmente, alma. As sequências musicais, embora tecnicamente corretas, raramente alcançam impacto emocional duradouro ou o encantamento característico do gênero.
Além disso, o roteiro ensaia abordar temas contemporâneos relevantes, como identidade de gênero e sexualidade, especialmente por meio da construção do personagem de Molina. Contudo, essa abordagem se mostra superficial, já que o filme evita se aprofundar nessas questões, optando por caminhos mais seguros. O mesmo ocorre com o contexto político: apesar de ambientado em um período histórico marcado pela repressão e violência estatal, o longa não explora com a profundidade necessária as implicações políticas de seus personagens e do regime que os oprime.
Ainda assim, sempre que Jennifer Lopez surge em cena, o filme parece ganhar novo fôlego. Sua presença é magnética, e sua performance se destaca como um dos principais pontos altos da produção. É evidente o empenho da atriz em sustentar o projeto, conferindo brilho, intensidade e carisma às sequências em que aparece. Nessas ocasiões, O Beijo da Mulher-Aranha finalmente se aproxima do impacto emocional que promete, ainda que de forma intermitente.

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