Comédia emotiva sobre perdas e reencontros
John Malkovich já mostrou que tem talento suficiente para versar entre drama e comédia. E nesta nova produção francesa, da qual é o protagonista, o astro vive um papel por vezes comovente, por vezes hilário: Andrew Blake (o Sr. Blake do título).
Convivendo com uma depressão desde a morte de sua esposa, Andrew Blake não vê sentido em mais nada em sua rotina. Assim, decide ir para a França para tentar resgatar lembranças felizes que viveu ao lado da amada esposa.
Chegando ao país, ele se depara com uma inusitada condição: é confundido com um candidato à vaga de mordomo em uma mansão/hotel e, para que possa ficar próximo das lembranças de sua falecida mulher, aceita o desafio. É claro que isso vai gerar muita confusão e situações inimagináveis.
Com uma direção precisa e cores vivas, “Sr. Blake ao seu dispor” (Complètement Cramé!) mescla comédia e drama com dosagem certa. É um filme tanto sobre afeto, memória e apego, quanto um filme sobre descoberta, reencontro e recomeço.
Não é apenas Blake quem se sente descolado do mundo: as pessoas que cuidam da mansão também estão perdidas, seja nas contas, seja na manutenção. A mansão evoca uma Belle Époque que, definitivamente, não existe mais. Toda a beleza e a altivez outrora existentes, dão lugar à uma tentativa de manter a importância e imponência do lugar, mas também ter que arcar com seus altos custos.

Nesse contexto, há uma dualidade: uma pessoa deseja alugar os quartos da construção para hóspedes, enquanto a outra pretende chamar mais funcionários. E é nesse desenrolar que acontece o grande mal entendido da história: Andrew Blake chega como hóspede, mas é tratado como funcionário.
Disposto a resgatar as memórias de sua esposa, ele resolve aceitar o destino e dá uma “renovada” em sua vida, fazendo desta confusão, a oportunidade para um hilário recomeço. Claro que o filme não foca apenas nesse caos – caso contrário, não teria história suficiente para preencher as 1h50 de projeção. Mas é se moldando a partir deste ponto de conflito, que a trama traz os questionamentos necessários para o público: até que idade podemos recomeçar nossas vidas? Quanto valem as nossas memórias e apegos emocionais? Quanto estamos dispostos a pagar para preservar a História (física, material, cultural e emocional)?
Enfim, ao mesclar esses elementos, o diretor Gilles Legardinier, também autor do livro que inspirou o filme, mostra que os seres humanos podem, sim, se adaptar quando querem ou quando é necessário. E que ninguém, em nenhum momento, é uma ilha solitária perdida num oceano longínquo. Mas, ao contrário, apesar de cada história de vida ser única, estamos sempre entrelaçados uns aos outros, para o bem ou para o mal. Seja para alcançarmos nossos objetivos, seja para fugirmos dos nossos problemas. Ninguém constrói (ou reconstrói) sua história sozinho.
No fim, “Sr. Blake ao seu dispor” evoca a ideia de como o pertencimento e a necessidade de resgate pode mudar de acordo com a situação e o contexto. E como uma história engraçada a princípio pode desencadear tramas mais densas e até melancólicas. Bem como histórias tristes e reflexivas, podem, sim, vir pinceladas com traços nonsenses. Ou seja: O filme é uma miscelânea de sentimentos e gêneros cinematográficos para sair da sala do cinema com o coração quentinho, mas o cérebro a mil por hora.
***
Cotação por Ossos:
8,0

___
Fotos: Divulgação Mares Filmes/Léo Rolim
