Crítica “Amores Materialistas”

Entre a frieza dos contratos matrimoniais, a quietude do “estar junto” romanticamente e a quentura das paixões

Luca Ramalho Rizzuti

No mundo de liquidez das relações humanas, como descreveu Bauman, é até bem assustadora a forma como a casamenteira Lucy (Dakota Johnson; sim, a “Madame Teia”!) desempenha o seu trabalho. Ela age como se fosse uma inteligência artificial ou um Tinder humano, dotada de muita “inteligência e expertise”, como ela própria diz, ao escolher pretendentes para suas clientes de acordo com determinados parâmetros objetivos. Lucy atende solteiras em busca de homens com bons salários, que tenham gostos e visões políticas semelhantes às delas, corpos desejáveis – não podendo esse pretendente ser mais baixo do que as expectativas consideram ideal. Numa sociedade em que somos levados a assimilar qualquer experiência a partir da lógica capitalista, Lucy trabalha numa empresa que sacia o apetite de mulheres e homens solteiros por um produto correspondente aos seus desejos consumistas. Assim mesmo.

Não deixa de ser um modo mais “clean” e legitimado de uma prostituição moderna.
Chega um dado momento, em que a personagem Sophie (Zoe Winters) fica “p*@#” da vida com Lucy e a joga na cara o adjetivo: “cafetina!”.

Pois bem.
“Amores Materialistas” é o segundo filme da diretora Celine Song, que antes disso, na sua estreia na direção, havia feito nada mais, nada menos que o aclamado “Vidas Passadas”, um dos melhores romances do século, um dos melhores dramas do século e um dos melhores filmes de todos os tempos desde já.
Difícil, então, não criar expectativa para a sequência do trabalho da diretora depois disso, certo?
Então veio o anúncio de que o próximo projeto contaria com um trio de peso como protagonistas, Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal, envolvidos num triângulo amoroso de uma protagonista dívida entre seu antigo e pobre amor, vivido por Evans, e outro homem gentil e cheio de riquezas, vivido por Pascal.

A cineasta Celine Song mostra as engrenagens dessa atividade (que, aliás, ela própria chegou a desempenhar na vida real, sabiam?!) como um sintoma dos nossos tempos em que pessoas vão ao mercado afetivo com atitudes similares as de quem entra numa concessionária à procura de um automóvel novo. Escolher o par certo não é muito diferente de preferir este ou aquele modelo de carro segundo os opcionais de fábrica. Faz sentido que a protagonista seja interpretada por Dakota Johnson, atriz carismática e esforçada, mas que parece – realço, apenas PARECE! – sempre desempenhar o mesmo papel com pequenas variações. Essa aparente falta de versatilidade (e até de profundidade dramática) está a serviço de uma personagem que existe e opera somente entre dois polos antagônicos: o cinismo total e a adesão romântica.

Posso pensar em várias coisas que me desapontaram neste filme, principalmente em como Celine não consegue desenvolver com muito sucesso toda a questão titular da obra: o materialismo nos relacionamentos modernos líquidos e em como o amor, na suposta “ciência dos encontros”, assim como tudo sob a égide do capitalismo, é tratado como um produto, um mero negócio, uma indústria. Segundo lugar, acho o filme, apesar de curto, inchado e, por Jesus, não tinha material para 1h56min de filme! Quase literalmente 2h de projeção! Não tem cabimento nos custar esse tempo todo! Sinto que se tivesse sido mais cirúrgico e tivesse tido um pouco menos de tempo ainda, tipo 1h20, poderia ser mais enxuto, “redondinho”. Tem umas “gorduras”, umas barrigadas narrativas. Chegou um momento que pensei de cara: “mania de não saber quando cortar. Dava para acabar e é de teimosia continuar onde não tem mais e só para esticar mais”.
Pois o problema nem é ser formulaico. Em 2024, com a romcom “Todos Menos Você”, Will Gluck nos consagrou com um estudo de gênero super formulaico e fez funcionar. A questão é saber fazer funcionar dentro da estrutura de gênero que se está jogando. Tudo é possível. Basta ter sabedoria para saber operar a máquina das convenções de gênero a seu favor.
Todavia… em outros aspectos, é um filme lindo de doer. Uma obra que dialoga com inseguranças universais, solidão, incertezas e, principalmente, com o desejo de ser desejado e amado — temas difíceis de não se identificar. É um filme muito honesto, e mais agradável que o debut da diretora, diga-se de passagem. 

Chama até muita atenção que no primeiro terço de “Amores Materialistas” a protagonista fale tanto de morte, citando ao menos umas três vezes sepulturas e aludindo ao destino final em meio às tentativas de convencer alguém sobre o valor de outro alguém. Pela falta de desenvolvimento, é uma recorrência solta, mas não deixa de ser curiosa. 
Não acho que seja uma comédia de forma alguma, embora esteja sendo vendido como tal. Acredito que seja algo bem único, muito próprio, que não se encaixa facilmente em nenhuma caixinha. Por falta de um adjetivo melhor — mas no melhor sentido possível —, diria que é um filme bem esquisito, estranhamente confortável e potencialmente devastador. Uma grata surpresa. Confesso que não esperava gostar tanto.

Enfim, “Amores Materialistas” é um filme perfeito para o público adulto que ainda tenha paciência para um filminho na pegada romcom moderna – de todas as idades, não necessariamente as de seus protagonistas – tão carente de grandes opções do tipo hoje em dia nos cinemas. Leve, sutilmente divertido, profundamente humano, e com uma boa história para contar, apesar de seus deslizes e de seu tempo a mais escorrido, talvez fique ofuscado frente a tantos lançamentos como até “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” e “Superman”. Mas tomara que seja visto o suficiente por uma galera que compõe o público pagante e é entusiasta de romcoms.
Porque público para isso ainda existe… SUPER!

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