Crítica: O Esquema Fenício

Pedro Sallomé

Wes Anderson já se estabeleceu como um dos diretores mais icônicos do século XXI, isso é fato inegável, seus dois longas de 96 e 98, Pura Adrenalina (Bottle Rocket) e Três é Demais (Rushmore) foram o suficiente para chamar a atenção de produtoras e distribuidoras que lhe renderam seu primeiro sucesso, Os Excêntricos Tenenbaums, de 2001. Desde então sua carreira tem crescido numa confortável progressão geométrica, acompanhando a também crescente qualidade de seus filmes. Até 2014, onde O Grande Hotel Budapeste alavancou sua popularidade de forma logarítmica, se tornando a maior bilheteria de sua carreira e lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor diretor e de melhor filme, é correto dizer que esse filme “furou a bolha” da cinefilia, Wes Anderson se tornou o ícone que é após ele. Começo essa crítica falando do passado pois acho que O Esquema Fenício retoma muitas práticas desse cinema inicial de Anderson.

No seu mais novo longa, um notório criminoso de colarinho branco, Zsa-Zsa Korda, interpretado por Benicio del Toro deve navegar uma relação complicada com sua filha, a Noviça Liesl, interpretada por Mia Threapleton, e o enfadonho professor particular de biologia Bjorn, o brilhante Michael Cera.

Após sobreviver mais uma tentativa de assassinato, o Sr. Korda se encontra numa posição onde ele tem que garantir que seu império estará seguro caso ele morra, e então ele convoca sua filha diretamente do convento onde ela reside para treiná-la nos negócios da família e colocar em movimento o que ele descreve como a maior obra de sua vida, o titular Esquema Fenício. Para isso eles devem viajar pelo deserto, onde diversos esquemas estão se desenvolvendo simultaneamente, e garantir que os acordos sejam cumpridos para que, caso tudo dê certo, eles tenham controle total de toda a mercadoria que passa pela região.

Naturalmente eles têm adversários nessa empreitada, uma união de governos e empresas que já foram prejudicados diversas vezes pelos trabalhos do Sr. Korda, se unem e tentam colocar um fim no plano dele da única forma que a burocracia permitiria, influenciando o mercado para que o preço dos rebites de aço usados na construção civil se inflacione tornando a execução do esquema inviável.

E então começa a jornada pelo oriente médio, onde conhecemos diversos personagens caricatos, com maneirismos que apenas Wes Anderson poderia criar, e com um elenco que apenas ele conseguiria juntar em um único projeto, para citar alguns: Riz Ahmed, Tom Hanks, Bryan Cranston, Scarlett Johansson, Richard Ayoade, Jeffrey Wright, e claro, Bill Murray.

Wes Anderson tira o pé do acelerador numa tendência teatral que assolava seus últimos filmes, “Asteroid City” de 2023, extrapola nas caricaturas e parece uma paródia de si mesmo, e “A Incrível História de Henry Sugar” também de 2023, apesar de ter conquistado o primeiro Oscar de Wes, teve um lançamento no mínimo incomum (que provavelmente foi feito para inflar os números da Netflix, mas esse é outro texto) e que prejudicou o primeiro contato que a maioria dos espectadores teve com o filme. A artificialidade vintage que é sinônimo de seus filmes está presente, mas desenvolvida de forma muito mais sutil, como em Grande Hotel Budapeste, e tenho a sensação de que o Esquema Fenício vai também furar a bolha e ser um enorme sucesso. A narrativa é interessante, os personagens são incríveis e o filme é visualmente lindo e acima de tudo, é uma delícia de assistir.

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