Novo filme da saga John Wick pode ser visto nos cinemas
Em 2014, tivemos a triunfal chegada de um novo personagem ao cinema: John “Jonathan” Wick. O “Mr. Wick”, lançado em 2014, em “De Volta ao Jogo” partia de uma premissa tão simples que já parecia fadada ao puro escárnio: um ex-assassino profissional, inconformado diante da execução do fofo cãozinho que havia recebido de presente da falecida esposa, lançava-se em uma jornada de vingança que acabava por colocá-lo no caminho de uma poderosa organização. No entanto, o que tinha tudo para se tornar uma daquelas produções lançadas mera e diretamente em DVD acabou se revelando um dos melhores filmes de ação do ano, superando facilmente – não nas bilheterias, mas junto à crítica – superproduções como “Transformers: A Era da Extinção”, “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro”, “Godzilla” e as partes 3 de O” Hobbit”e “Jogos Vorazes“.
Pois bem! Mas este texto não é, ao menos, SÓ sobre o John Wick em si, mas sobre seu universo, que, aliás, agora, como objeto central deste texto, ganha uma personagem feminina para chamar de sua. A Kikimora, a braba! Um espírito feminino da mitologia eslava, que é ligado tanto à proteção, como à catarse pelos impulsos puramente vingativos.
Eve MaCarro, interpretada aqui por Ana de Armas, (gerando a piada óbvia: Ana de Armas, com armas! Hahahaha!),
natural que uma franquia hollywoodiana de sucesso se expanda criando ramificações, às vezes até em formatos diferentes do original. A saga John Wick já havia rendido uma série de TV — a pouco lembrada O Continental — Do Mundo de John Wick (2023) — e agora se desdobra para dar visibilidade a outra personagem dessa realidade na qual tribos seguem regras milenares e assassinos de aluguel ganham fortunas para abater seus alvos. “Bailarina — Do Universo de John Wick” (2025) é diferente dos filmes estrelados pelo personagem de Keanu Reeves, a começar pela construção da protagonista já com forte carga sentimentalista. A infância roubada. O trauma. O desejo de vingança e impulso de proteção desde muito cedo. Mas impulso de proteção este pelo fato de ausência de uma figura protetora desde a morte do pai diante de seus olhos quando menina.
John Wick tinha uma reputação lendária no começo do primeiro filme, antes de os canalhas irresponsáveis roubarem o seu carro e matarem o cachorrinho que sua falecida esposa havia deixado para lhe fazer companhia. Vamos descobrindo aos poucos de onde veio o sujeito caladão, como ele alcançou o status de lenda e porque os inimigos tremem apenas ao ouvirem o seu nome. A opção por uma história de origem tradicional não enfraquece “Bailarina”, mas a fortalece. Como escreve a minha colega de profissão, a crítica Tatiane Costa, a imagem de uma bailarina costuma vir carregada de uma ideia já de pura delicadeza, muitas vezes vinculada a esse ser quase etéreo que praticamente se move “pelo ar” pir meio da dança. Então, soa irônico, no mínimo, que aqui venha carregado de luta, vingança e puro sangue nos olhos.
Mas para fazermos um dossiê (calma, querido leitor, volaremos ao filme em si), sigamos!
O terceiro filme de Wick parece menos interessado em uma genealogia da fisicalidade no cinema e experimento purp do gênero e mais em expandir o lore. Nessa revisão pela enésima vez, pouco antes de ir assistir “Bailarina” na estreia, caiu um pouco, ainda que eu continue amando.
Tem umas sequências muito inspiradas e os momentos nos quais os assassinos parecem fantasmas sobrenaturais são bem legais, mas sinto que há uma saturação aqui. Se no segundo, o ritmo não é um problema em momento algum, mas é um crescendo muito bem concatenado, o terceiro me cansa um pouco. Inclusive acho que os momentos em que o filme acena para o público – os assassinos indonésios conversando sobre a fama de John Wick e sobre a honra que é lutar com ele – e referencia o próprio universo são um esforço do Stahelski e dos roteiristas pra evitar esse desgaste e fazer do filme mais autoconsciente. Isso é legal, mas tem limites.
Mas enfim, o que importa é que o ponto narrativo desse universo criado por Derek Kolstad em que se passa “Bailarina” é entre o terceiro filme (de 2019) e o quarto filme (de 2023) de John Wick, mostrando, inclusive, o tíquete e a deserção de Wick da família bielorussa Ruska Roma, a qual Eve também cresceu, foi treinada e, desde que se lembre por gente, fez parte.
Agora, umas das coisas que mais me encantam desde sempre em John Wick é sua frontalidade. Essa característica tão autoconsciente e essencial ao seu funcionamento e neste universo atua em diversas frentes a formar o que é capaz de entregar não só como filme isolado em si, mas como saga.
Acontece que o mesmo que foi dito para os filmes anteriores pode ser feito para o quarto capítulo e, agora, para “Bailarina”. John Wick funciona em uma estrutura de causa e de consequência simples e é justamente nessa simplicidade que oferece uma capacidade profunda de se conectar tão diretamente ao espectador. Não é sobre oferecer uma mensagem super rica ou profunda ou até mesmo construir uma moralidade, é sobre a experiência. Sobre a progressão nos espaços e na lógica intrínseca a esse universo numa dinâmica “gamificada”, isto é, como definiu o crítico Arthur Tuoto, que remete ao mundo dos games. Especialmente aos de tiro mesmo.
Não há meandros cerebrais que muitos filmes de ação acabam adotando quase como puro cacoete – que suplica por atenção quase como construindo um quebra-cabeça de um intelectualismo barato – ao contrário, John Wick traça uma linha reta. O objetivo é simples, direto e não há motivo para dele escapar. E não há qualquer itinerário semântico, mas… apenas espacial.
Com isso, Chad Stahelski (e Keanu Reeves, que funciona quase como uma ator-autor, assim como Tom Cruise, com “Missão: Impossível”) consegue fazer aquilo que é incomum na indústria. O mesmo jogo de dupla perseguição – ao mesmo tempo que persegue, é perseguido – é adotado nos quatro filmes da saga, não é preciso mudar, o que importa não é exatamente a estrutura, o roteiro ou até mesmo a história (não que não sejam importantes). É da frontalidade – essa simplicidade mais direta – que surge permissão por experimentar cada vez mais ao longo da saga, implicando numa melhora substancial filme após filme. O quatro é melhor que o três, que só não é melhor que o dois por problemas de tom e de ritmo (como descrevi), mas que, por vez, é melhor que o um.
O foco é a puro filme pelo filme, a experiência, cada vez mais catapultada pela experimentação. E experimentar não é elitizar o discurso!
Uma saga, portanto, que só cresce por sua possibilidade de experimentar não no caráter cerebral do roteiro, mas na mobilidade exponencial da câmera e da construção emblemática da mise en scene.
John Wick (4) é um filme-prova necessário no cinema contemporâneo. Quase uma antítese de certos autores. Um ídolo importante que demonstra o impacto do experimento em uma abordagem direta e, sobretudo, popular.
Todo mundo é surtado nesse filme da “Bailarina”. A melhor coisa é como o diretor assume que não existe lugar pra um meio-termo dramático. O cara realmente não está interessado em qualquer meandro minimamente humano psíquico ou – tipo, ele introduz a vingança e o desejo de matança, mas não aprofunda nada nisso. Tudo é uma mera desculpa em prol da violência! A raiva catalisada para o elemento puramente catártico! Nada mais superficial do que só extravasar, mas é sensacional! – que a história venha a oferecer.
É tudo exatamente o que precisa ser, do jeito que precisa ser, expandindo um universo de histórias com a mesma energia com que este universo fora criado. Só acho que uma daquelas decisões do tipo – “gourmetizadas” tipo pizza de sorvete – meio que enfraquece o que poderia ser um início bem sólido de uma nova sequência de histórias. É uma pílula de um capítulo solto no meio de uma franquia que, muito provavelmente, voltarão a essa personagem nova, Eve, apenas pelo dinheiro que ela pode vir a proporcionar aos cofres dos estúdios de Hollywood.
Apesar de toda a contextualização fantasiosa, fica muito claro que o que existe de mais forte no filme de Len Wiseman é uma noção de “falso realismo anárquico”, de suspense iminente que não quer que seu espectador tenha tempo de assimilar a ordem lógica dos seus acontecimentos, mas construir uma dimensão de delírio em que tudo acontece ao mesmo tempo, numa dimensão só. O entretenimento não parte de uma pedagogia da percepção, mas busca, na devastação e na reorganização caótica do seu espaço, um ideal gráfico extremo, tipo um gameplay mesmo.
O modo como o filme transforma o seu desenrolar em uma experiência subjetiva, centrada na figura de Ana de Armas, acaba concebendo um dispositivo muito particular na relação entre câmera, personagem e espaço.
Em tempos em que até um filme dos Novos Vingadores da Marvel é burocrático demais com suas resoluções muito imediatas (apesar de pôr a Marvel Studios no divã), “Bailarina” tem um senso progressivo de cena que encontra justamente na perda de um ponto de referência uma das catarses recreativas mais poderosas do ano de 2025.
Em “John Wick 4: Baba Yaga” (2023), novamente, a título de exemplo, muito convém voltar à parte da Torre Eiffel para dar crédito aonde é devido: a personagem da telefonista/radialista que convoca personagens para a perseguição (outra solução simples e imediata que dispensa maiores complicações) é referência direta à radialista que vai colocando gangues no caminho dos Warriors em “Os Selvagens da Noite” (1979). Evocar o trabalho do cineasta Walter Hill é muito oportuno porque serve de lembrete que no passado, em filmes como “Warriors”, como “Caçador de Morte” (1978) ou “Inferno Vermelho” (1988), Hollywood fazia muito bem, obrigado, esse tipo de filme de perseguição atravessada pelas luzes plenas de cor e contraste da noite da metrópole. Hill engatinhou para que Stahelski, Keanu Reeves & trupe maravilhosa pudessem correr, saltar, rolar, cair, e se levantar.
Aqui, quando Wick (Reeves) reaparece, ele é tratado, novamente, por todos mais do que com respeito, mas com puro medo e reverência, como a lenda que é. Digo, até mais que isso, diria até que ele é já tratado como uma espécie de semi-deus para seu próprio universo. Porque, quando extrapolam isso, dá ruim!
“VAMOS ENFRENTAR?!”
“É SUICÍDIO… É O JOHN WICK, PORRA!”
“QUE SE FODA! BORA, ELE É SÓ UM!”
E eis que morrem pelas mãos implacáveis do Mr. Wick.
Agora, com a Eve matando geral em Hallstatt, a vila no meio do nada, comunidade onde vive uma seita de assassinos treinados e crescidos na violência, fora até das tradições e das, digamos assim, “jurisdições” da organização Alta Cúpula, com armas, katana, muita pólvora e bala, granadas, machados e facas, e um inusitado lança-chamas, oferece-nos um verdadeiro espetáculo de ação.
E a prova final que o ideal do blockbuster moderno está muito mais próximo do anti-filme do que do storytelling: o cinema não tem um futuro e tanto Wiseman, como Stahelski e Kolstad sabem bem disso, ponto.
É isso, meus amigos!
Aproveitemos o que ainda está por vir!
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Foto: Divulgação: Espaço/Z
