Crítica: Como Treinar o seu Dragão

Luca Ramalho Rizzuti

“Eu sou o primeiro em gerações a não conseguir matar um dragão”.
“Sim, você é. Mas é o primeiro a montar um”.

O.k., vamos lá!

Em seu comentário sobre o recente live-action de “Branca de Neve”, o Prof. Philippe Leão, grande crítico de cinema e da cinefilia BR – cujo qual tem um incrível trabalho com Matheus Fiore no mesacast Desencontros -, disse: é notório – realmente o é! – como cada novo filme live-action da Disney parece pior que o anterior. Ele está com razão, total, eu diria! As causas são provenientes do próprio sistema fabril de re-produção da empresa para otimizar seu potencial fabril-industrial dentro do recorte contemporâneo do capitalismo tardio (momento histórico este em que estamos inseridos hoje em dia), que monopolizou as salas de cinema nas últimas décadas, mas que, na medida em que solidificava sua hegemonia no mercado, menos criativo e mais displicente ficava (seja com os exorbitantes orçamentos, seja no aspecto estilístico padronizado por baixo). Fato é que para “Lilo & Stitch” (2025) – que também já está em cartaz agora – seria hercúlea a tarefa de ser pior que o anterior, e ainda que tenha os exatos mesmos problemas – guardadas as devidas proporções – provavelmente proveniente da ação do próprio estúdio, não conseguiu vingar como bom filme.
O novo filminho da vez tem um aspecto bem televisivo que em alguns momentos lembra clássicos do cinema infanto-juvenil dos anos 2000, com uma fotografia que permite ver, colorida e solar. Mas parecendo a forma sépia e preconceituosa que Hollywood encara países latinos, na fotografia. Além de um clímax que emocionalmente é funcional. Mas é isso, sempre muito mecânico nas escolhas para atingir essa funcionalidade mais rasa e apelativa possível; com uma montagem que parece uma mera – e merda, com o perdão do “francês” – colcha de retalhos surgida a partir de uma tentativa de ”correção” após teste de público.

Mas… até aqui, dane-se e, por um lado, beleza quanto a isso, pois já discorremos o suficiente sobre. Sigamos.

O texto não era sobre a Disney. Tudo isso era para dar contexto às coisas. Afinal, foi esta empresa, um oligopólio multimilionário que, dentro de seu grande “guarda-chuva” de adaptações live-actions, iniciou essa onda de fazer remakes.

Agora, há muito tempo…

E não, fã de Star Wars… não é sobre a icônica saga criada por George Lucas. Não é “há muito tempo… em uma galáxia, muito, muito distante.”

Vamos lá de verdade, agora!
Há muito tempo, na selvagem e ventosa ilha de Berk – um lugar tão fora do mapa que nem parecia existir em meio a montanhas, vales e fiordes, vivia um viking pequenino, mas de nariz comprido e de alma nobre. Sonhador, sensível, sempre teve características que não são atribuídas socialmente a um homem. Era tido como um viking famosinho por não ter “colhões”. Soluço (do inglês, Hiccup) – como define os livros originais de Cressida Crowell -… Soluço Spantosicus Strondus Terceiro (III). Este era o nome dele.

é resumida logo no começo do filme, quando sua aldeia é atacada por dragões, que passam por ali, saqueiam, destroem e levam embora suas ovelhas. Ele é franzino (o.k. Mason Thames, com seu charme, só conseguiu, no máximo, fazê-lo parecer um pouco maior em estatura que o Soluço das animações da DreamWorks (o mesmo estúdio de Shrek), meio atrapalhado até, e tenta a todo custo ajudar na árdua tarefa de manter aquelas “lagartixas aladas” cuspindo fogo longe nos seus telhados. Mas a cada nova tentativa, ele só piora a situação, o que faz dele motivo de pura chacota entre os outros adolescentes da tribo viking e preocupação para os mais velhos, incluindo seu pai (Gerard Butler, o Leônidas, de “300”).

Em um dos ataques, o Soluço acerta um Fúria da Noite, um dragão negro que voa quase invisível entre as estrelas e jamais erra seu alvo. Seria a glória de qualquer guerreiro viking voltar para casa carregando uma cabeça deste dragão. Mas o garoto não consegue. Ele não o mata. E acredita ter sido “fraco”. Sua maior força, para ele, torna-se, sua maior “fraqueza”. Ele não é um matador de dragões. Porém, deste ato de compaixão nasce uma inédita amizade entre humano e dragonídeo (como a “fera” é chamada pelo rapaz: Banguela), que vai levar o menino a entender os hábitos dos temidos animais e a domá-los.
O problema, agora, passa a ser outro: como contar para os adultos, os carrancudos e truculentos vikings o seu segredo? Como convencê-los de que tudo o que eles sabem sobre os dragões estava errado? Pode não ser a mais inovadora das histórias, mas e daí?!
Em 2010, nas mãos dos competentíssimos diretores Chris Sanders e Dean Deblois (este segundo, que, aqui, neste live-action assume a direção sozinho), a aventura ganha tons dramáticos até então inéditos nas animações da DreamWorks. Só discordo que seja “pixariano”, apesar de entender porque, talvez, remeta, para alguns por aí, ao estilo da concorrente pelo toque fabulesco e pela sensibilidade.

Soluço não teria o mesmo trato se fosse na Pixar. Garanto que, na Pixar, romantizariam mais ainda o personagem e espremeriam até o último bagaço da laranja ácida para fazer o espectador chorar, mas de forma até barata, como muitas vezes é.

Agora, fato é que existe, hoje em dia, a trilogia, a extensão da trilogia, a nova trilogia, o filme de origem, o reboot, o spin-off, o filme “animado” e o live-action… isso tudo! Tudo mais quanto é meio de o estúdio espremer o suco da laranja e renovar as prateleiras de lojas para vender novos produtos.

Porém, essa questão mercadológica, embora tenha impacto direto na criação dos filmes, não assegura o fracasso artístico desses, e, ao contrário, delega ao cineasta, o diretor, apesar das limitações impostas pelo puro fator comercial, a oportunidade de aplicar seu néctar no bagaço, extraindo da pedra o leitinho quente da nova geração.

Portanto, perante a isso, eu não me importo que lancem um derivado de “Toy Story” a cada novo aniversário do Andy, ou ressignifiquem a jornada de Woody e Buzz.
Muito menos, me incomodaria se mexessem qualquer coisa na jornada de Soluço e Banguela. Desde que o novo suco seja saboroso.

Afinal, não foram os primeiros “Star Wars”, nem “Harry Potter”, ou até os primeiros “Mad Max” e “Missão: Impossível” os melhores, mas os posteriores. Sim, isso mesmo, swus sucessores, ao longo da história da franquia no cinema, com o passar dos anos. Se bem que após “Maverick” (2022) e “Acerto Final” (2025), fica a “missão impossível”, com o perdão do trocadilho emgraçadinho, para o próximo “Top Gun”. E que venha, com os próximos anos! Mesmo que leve décadas, igual foi da última vez (o que acho improvável de acontecer novamente… mas alertemos para a possibilidade).

Este “Como Treinar o Seu Dragão” por ser um exemplar curioso, uma vez que foi o primeiro – e até agora único – que a Universal e DreamWorks fizeram adaptação para mídia em linguagem live-ation, deve puxar o freio (espero!) dos blockbusters que vêm descendo na “banguela” do discurso científico-tecnológico.

E embora seja super natural que os filmes de massa ajustem-se às questões de nosso novo século, de acordo com a ordem mundial vigente, também é extremamente notório que o jovem espectador teve seu imaginário tomado por heróis bilionários, tecnocratas, magnatas, gênios, arrogantes e depressivos (vide Tony Stark e Bruce Wayne). No mundo real, alteregos para Elon Musk, Mark Zuckerberg, afins…

Ou heróis que dão pseudopalpites em causas sociais, cujas missões são abstrações puríssimas.

O problema é que, do ponto de vista semiótico, e até arquetípico, esses heróis são incapazes de estimular o espírito dos fãs atuais (já que seus heróis, hoje, estão nos reels de Instagram ou no TikTok).

E se os filmes, há uns 30 anos para pouco para frente, continham muito mais esperança e otimismo, ingenuidade perene – aquela humildade e esperança casta – hoje despejam um ethos deveras muito desiludido, o qual paralisa, perante o abismo, a compostura do espectador abatido pela realidade.
Perceba a nítida diferença na disposição: quando sai da sessão de um filme da Marvel, o fãzinho tuíta um spoiler na rede social X; se sai da sessão de um “Top Gun”, dá vontade de voar, mas, como não sabe pilotar caças, compensa acelerando sua moto ou seu carro.

E a vontade de colocar o corpo em movimento, algo concreto, advém da necessidade do estímulo de um herói sólido.

Ora, vejamos bem, é desde 1978, com o lançamento de “Superman – O Filme” de Donner, que passamos a acreditar que o homem pode voar. Mas isso não nos impede de ficar maravilhados a cada novo voo.
Pois o desejo de voar, pela força de storytelling, e o fascínio por esse ato mágico, vem desde 1941, com o elefantinho Dumbo voando com suas gigantes orelhas, na Disney em seus tempos áureos.
A adrenalina, a emoção, o sentido táctil de passar as mãos nas nuvens, tudo isso continua encantando profundamente o ser humano e é apenas um dos pontos positivos de “Como Treinar o seu Dragão” (“How to Train your Dragon”)

Falando sobre a magia que existe no filme – de forma silenciosa e discreta, ela está lá –, a escolha é por fazer com que o próprio Banguela seja o meio tanto de o espectador vislumbrar o que é místico quanto de os personagens, Soluço e Astrid (sim, a inexpressiva atriz filha de Thandie Newton) adentrarem nesse mundo mágico. Quando Banguela bate suas asas e voa pela primeira vez após Soluço consertar o que havia de errado na ferida de sua calda e, por exemplo, a trilha abandona os metais e madeiras e aposta em um coral etéreo que evoca uma aura lúdica e fantástica para o momento, como se o filme entrasse em uma nova seara por haver essa quebra do realismo por uns momentos.

Não é porque é live-action e fotorrealista que significa que o filme teria uma abordagem realista ou verossímil.

Daí a ponta para o possível trunfo e, logo, possível sucesso deste filme: ele é vívido, vigoroso, ávido.

Toda a técnica moderna (a montagem dos voos, os treinos na arena, os dragões, o cotidiano do modo de vida viking na aldeia) não ressalta o DeBlois buscando um efeito nostálgico barato e imediato, ou alienante, mas uma distância típica da realidade com a arte, que nos faz contemplar o espírito humano, sempre em movimento.

E é, ao mesmo tempo, incrível como esse filme é tão simples e deliciosamente leve, tendo uma decupagem tão clara e posicionada para levar o espectador a simpatia com Soluço e com o Banguela. A alternação entre o Soluço treinando para matar um dragão na Prova de Fogo com as cenas dele indo cuidar do Banguela são uma prova disso. É muito sensível, passa a mentalidade toda do protagonista. É lindo de se ver… e sentir!

Afinal, nada acontece por acaso ou no “vácuo”. Num “void”. São sempre uma tensão e expressão do establishment político, de uma cultura e de suas épocas, como vimos até aqui. E é pela sensibilidade que Soluço ganha a truculência e brutalidade bárbara viking para mudar seu mundo e tornar a colônia de Berk mais “evoluída”. Pois trazer dragões para ela, para dentro da comunidade viking, não é só “domesticar” ou colonizar: é integrar. Para fazer com que os mais velhos saibam que eles têm o que aprender. E se isso não é puro storytelling, não sei mais o que é.

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