Crítica – Missão: Impossível – O Acerto Final

Luca Ramalho Rizzuti

Aqueles que afirmam que as produções de Tom Cruise – tanto como produtor, estrela principal, ou simplesmente as que está envolvido – é mero capricho “digital” (o que não é de todo verdade, visto que ele é absolutamente o único em atividade ainda hoje que se arrisca e que faz o que faz com tanta maestria), um protetor de tela de 1 trilhão de dólares ou apenas um parque de diversões para o astro se “divertir” em suas peripécias insanas, não têm consciência da forma fílmica e de linguagem cinematográfica. Tampouco do real mundo em que vivem.

Tom Cruise realmente é uma pérola. Do auge de seus quase 63 anos, o lendário homem tem mais vitalidade que muito jovem de 25 ou 30.

É que um breve exame na carreira dele – e dos diretores que o comandaram desde o original de Brian De Palma, de 1996 – esclarece que o interesse dos filmes numa ideia de “realidade impossível” advém, em suma, da contínua expressão de um autor.

Mas foi muito antes – e com outro diretor: James Cameron, também um “CEO moderno da tecnologia cinematográfica” -, em “O Segredo do Abismo”, que esse cineasta explorou e “cavou” os mares, fertilizando o arrecife para os filmes com grandes cenas subaquáticas, tal como Stanley Kubrick capinara o espaço sideral em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, permitindo que outros passassem a boiada dos filmes de guerras nas estrelas.

Mas por que entrar nesses detalhes? Bom, é que, numa das passagens mais tensas de “Missão: Impossível – O Acerto Final” (2025), Ethan Hunt (Cruise) mergulha para entrar no Sevastopol, o submarino perdido em algum lugar no meio do oceano. Tudo por um dispositivo intitulado Podkova, que, junto a outra chave, poderia ser parte da jogada final para salvar o mundo da maldita Entidade – uma I.A., que também é uma organização nefasta, que visa acabar com a vida no planeta Terra, controlando todo o arsenal nuclear do poderio de cada nação.

Na verdade, não consigo considerar o roteiro escrito pelo próprio Christopher McQuarrie e Erik Jendresen senão como mais uma mera desculpa para que a ação desenvolva-se sem parar, e não me refiro somente à missão contida na sinopse, mas aos momentos em que a equipe está reunida para planejar as ações seguintes. Você simplesmente aceita que as coisas acontecem daquela maneira e ponto… e que os heróis em questão, da IMF (Impossible Mission Force), precisam desplugar um certo dispositivo em um piscar de olhos, ou então tem só 10 segundos para correr de lá para cá, ou que uma tecnologia confidencial dá a Ethan a capacidade de sobreviver à despressurização em uma profundidade mortal no oceano (na cena do já citado submarino), que seria física e humanamente impossível sobreviver.

Mas vou, enfim, dizer o que realmente importa, se o anti-Deus é a inteligência artificial, então Ethan Hunt é um messias com a missão de se sacrificar física, emocionalmente e, talvez, fatalmente para salvar a humanidade. É uma leitura imediata considerados os acontecimentos narrados em “O Acerto Final”, o oitavo e último (?) capítulo da cinessérie iniciada em 1996 (baseada no universo de uma série para TV), a continuação direta de “Acerto de Contas – Parte I” mesmo tendo aberto mão da “Parte 2” por razões puramente comerciais (o filme anterior não alcançou o êxito esperado). Ethan, ao lado dos agentes renegados da IMF e de adições iniciadas no episódio passado, deve encontrar uma forma de impedir que a Entidade, o nome dado à inteligência artificial, cause a catástrofe que varrerá a humanidade do mundo. Para isso, Ethan deve convencer a Presidente Estadunidense (Angela Bassett, imponente como de costume… desde “Fallout”) a lhe proporcionar os meios necessários para rastrear o submarino onde se encontra a versão original do código fonte d’A Entidade, indispensável para a aplicação da Pílula criada por Luther (Ving Rhames), um vírus que altera a realidade da inteligência artificial, enquanto rastreia o histriônico vilão Gabriel (Esai Morales), que pretende utilizá-la para reconstruir a ordem mundial à sua maneira.

O roteiro é, de certo modo, uma “caixa preta”, que nos dá acesso ao suficiente: os (sub)temas discutidos. A tecnofobia caracterizada pela evolução exponencial e descontrolada da tecnologia é relacionada à ansiedade apocalíptica de um conflito nuclear, quando a Entidade torna-se capaz de acessar o arsenal das potências nucleares (“naturalmente”, a dos Estados Unidos é a melhor protegida) fazendo com que as armas por nós criadas sejam viradas contra nós mesmos, adotando a desinformação como forma de manipulação dos povos e a desobediência como a alternativa para enfrentar governos autocráticos.

O.k., soa, no mínimo, meio esquisito que o filme passe uma hora tentando dar mais peso e escala para as coisas – mas, claro, com sucesso – sendo que ele já tinha imagens que fariam isso por si só. A fragilidade da metade inicial é um sintoma da tentativa de encontrar o equilíbrio entre o ontem e o agora, a nostalgia e a narrativa, embora venha temperada com um bem-vindo senso de humor, como aquele em que as ações brutais de Ethan são enxergadas pelo ponto de vista de Grace (Hayley Atwell, é coerente que o nome dela aluda à graça, o dom divino), e também uma dose de autocrítica em notar quão amalucados e estapafúrdios são os planos elaborados por Ethan e Benji (Simon Pegg) para salvar o mundo.

Mas diria que é justificável, visto que o filme tem vários filmes dentro de si e tem a missão de não só ser a droga de mais um capítulo, uma continuação, mas um possível desfecho e uma culminação de anos de franquia.

Aliado a isso, o roteiro reconhece a importância da união de diferentes, sejam estes os membros da equipe da IMF, ou os personagens coadjuvantes que precisam confiar em Ethan, sejam as nações que têm a opção de atacar, ou não. Em um mundo dividido, um tema que acena à diplomacia e à possibilidade de construir o futuro livre de conflitos é sempre bem-vindo. Ao lado desses temas, o subtexto parece apelar à vocação divina de Ethan, e de certo modo Tom, não apenas por enfrentar o anti-Deus, como também por símbolos apresentados na narrativa, um em especial sugere até mesmo a ascensão dele ao céu e a sua ressurreição. E não posso esquecer a confiança inabalável, ou se preferir a fé, que todos depositam nele de concluir a missão, ou de ser a pessoa que não faria o mau uso da tecnologia caso caísse em suas mãos. Não é apenas Ethan, cuja identidade cinematográfica confunde-se com a persona de Tom, é também o ator que apresenta a imagem de salvador da experiência cinematográfica. Não é uma crítica, só constatação de que o imaginário divino respinga nas ações de ator e da criação, o que tem evoluído no decorrer da série.

É um equilíbrio quase perfeito entre nostalgia e renovação. É um filme que harmoniza bem as tendências ingênuas e românticas dos outros filmes com a objetividade e a praticidade da ação dos últimos filmes da franquia – especialmente os dirigidos pelo Christopher McQuarrie.
A presença do avatar de si mesmo da alta performance física que o Tom Cruise desenvolveu e o posto do próprio Christopher McQuarrie na cadeira de direção certamente ajudaram.
O grande feito do McQuarrie foi fazer um filme em que a ação soa muito contemporânea e dinâmica ao mesmo tempo em que existe uma evocação romântica clássica em certas imagens chaves mais icônicas e distantes (submarino, aviões, carros, estradas, o par romântico).
Um elemento contemplativo e sentimental que ele já tinha trabalhado muito bem em filmes anteriores da franquia. Mesmo esse distanciamento que a temática futurista dos seus outros filmes possui, de certo modo é trabalhado aqui como um distanciamento lírico nessa temática nostálgica: o personagem do Tom Cruise não é um homem que vive no presente, relíquia da Guerra Fria – é um renegado, que iria passar o resto da vida na prisão, mas por um propósito maior e mais nobre decidiu abraçar a causa da IMF, junto de seus amigos. Então, ele é um viajante do tempo que chega de moto ou de avião direto de um filme de 1996.
É um filme que se por um lado atualiza esse apelo de uma ação mais agressiva e que sempre se renova nos obstáculos que apresenta (aquelas complicações e resoluções inusitadas do ato final, principalmente, tem muito a cara do Christopher McQuarrie, que também assinou no roteiro), por outro me remete até ao Cameron pelo modo como consegue fazer uma cena simples entre um casal soar épica, como quando a Grace salva o Ethan da morte certa no gelo. Ou pelo modo como consegue transformar todos os diálogos em um pequeno acontecimento que merece nosso interesse.
Inclusive é um filme extremamente afiado no modo em que lida com os seus diálogos e situações circunstanciais. Apesar de ser longo, nada soa excessivo e cada frase surge num timing que fica entre um cinismo aceitável (não é aquela coisa chata dos personagens ficarem mostrando que são mais espertos que a audiência) e um drama que nunca passa do ponto.
Isso soa até como algo que o diretor usa pra controlar melhor algumas atuações. Ele sabe até que ponto o Cruise fazendo drama dá certo e sempre corta antes da coisa parar de funcionar.
Os momentos entre o Cruise e o personagem do Morales poderiam ir pra um lado mais enfadonho, mas é tudo muito preciso e até calculado dentro de uma certa tolerância para que a audiência entenda, se emocione, mas não seja chantageada emocionalmente.
No fim das contas é um filme com um rigor que remete a uma fórmula mais clássica de blockbuster justamente por se focar numa eficiência específica do que tem a sua disposição e não numa tentativa de reinventar as coisas.
Ele entende muito bem o que tem em mãos, sabe até que ponto pode tornar as coisas mais ou menos complexas pro espectador e tende a se basear mais em resoluções estimulantes e práticas do que em dramas complexos
Mesmo o fato da missão ter, literalmente, um inimigo sem rosto, mas complexíssimo, de proporções catastróficas, reforça esse minimalismo da fórmula clássica de um blockbuster high concept.
O que importa é muito mais a evidência de que existe um mal que deve ser exterminado (um tubarão gigante, um ditador estelar com uma máscara, um caminhoneiro que persegue um pai de família na estrada, um demônio no corpo de uma garota de 12 anos) do que a compressão exata desse mal.

Ao mesmo tempo que os filmes da franquia Missão: Impossível articulam, desde sempre, com o seu início com o de Brian De Palma, um jogo de ilusão muito característico – farsas, máscaras, plot twists -, os longas fazem questão de trabalhar com uma dinâmica de ação realista e objetiva.
Mesmo que alternando entre diferentes diretores, é possível perceber esse denominador comum entre um componente imaginativo (o artifício fantasioso e mesmo irreal de algumas sequências e elementos em cena) e uma praticidade, um trato franco com o espaço da ação.
É essa ambiguidade que preserva a autenticidade dessas obras. Trabalhos que nunca se determinam por um tratamento restritiva e conservam-se abertos a uma constante flutuação nesse sentido. 

E nisso, mesmo se este for o final desta saga que vimos há anos, será um encerramento mais que digno.

Esta é a missão, caso aceitemos: entender o fim de Missão: Impossível como algo real, possível e próximo.

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