Crítica: Nas Terras Perdidas

Paul W. S. Anderson continua a imaginar o fim do mundo a partir da construção digital de espaços

Raphael Lages

“Vê a forma como a luz brilha e se transforma? Você pode ver formas nela se olhar por tempo suficiente. ”

De vez em quando, assistindo os filmes do Paul W. S. Anderson – cineasta conhecido pelo seu cinema popular, despretensioso e pouco preocupado com grandes temas ou mensagens – depara-se com alguma meditação sobre natureza da mídia cinematográfica radicalmente bela, ainda que muitas vezes pouco esclarecedoras. Uma das minhas favoritas está em “Resident Evil: Retribuição” (2012), a protagonista Alice ensina uma personagem a atirar com uma pistola: “É como uma câmera,” ela diz. “É só apontar e atirar”, sugerindo o gesto de fazer cinema como algo que carrega em si uma certa violência.

Em “Nas Terras Perdidas” (2025, In the Lost Lands), baseado no conto homônimo de George R. R. Martin, Anderson ainda interroga como seu cinema de ação toma forma dentro do grande esquema da sétima arte. No longa Gray Alys (Milla Jovovich), uma bruxa que nunca nega um pedido, precisa conseguir a pele de um metamorfo para conceder o pedido da rainha Melange (Amara Okereke) de poder se transformar em um lobo. Ela segue numa jornada com Boyce (Dave Bautista), um caçador de recompensas que conhece o perímetro e promete a escoltar até o lar da besta. A premissa fabulesca já começa contaminada pelo tom sombrio da obra, que abre com Alys escapando da forca.

Anderson parte do mundo fantástico de Martin para poder revirar a imagética do faroeste. O mundo de “Nas Terras Perdidas” parece obedecer à lógica e aos códigos do Oeste que conhecemos dos filmes. Boyce é um pistoleiro clássico, figura errante que não pode se ater em lugares, conhece e sabe navegar pelo deserto punitivo e sair com vida; por isso, é condenado a criar laços temporários e a vagar para sempre pela imensidão cruel das Terras Perdidas. Anderson e Martin partem da fantasia para reimaginar essa figura como amaldiçoada, de forma muito literal. Sem entregar muito do filme, mas é curioso como toda a fantasia (gênero associado a uma visão mais inocente do mundo) vai na verdade se converter em maneiras de perverter ainda mais o mundo inóspito do faroeste.

Similar ao último “Resident Evil“, Anderson se inspira nos ermos de George Miller em “Mad Max”, onde mundo em ruínas volta à barbaridade do Oeste, mas frontaliza ainda mais os símbolos. Não só na figura do pistoleiro, mas todos os espaços remetem diretamente ao faroeste. Cedo no filme, Boyce e Alys visitam um Posto de Trocas que é basicamente um espaço de velho oeste gerado por CGI. “Nas Terras Perdidas” é faroeste simulado por tela verde, tentando provocar uma iconografia clássica do cinema a partir do efeito visual. Trazendo nova distopia para essas imagens através desse grande simulacro, onde a única coisa real e tátil nesse ambiente são os humanos, o resto são ideais que se agarram à narrativa, buscando renascer das cinzas.

Alys também é uma figura errante e condenada de sua própria maneira, a própria personagem anuncia isso. Mas, como esperado dos filmes de Anderson, ela é uma personagem que só responde ao próprio filme. Ela é condenada a viver as próprias narrativas, nunca podendo negar um pedido feito ela e pago em dinheiro. Em algum lugar aqui, existe um comentário sobre essas histórias e projetos existirem como escambo. Talvez uma frontalização sobre a dinâmica comercial do cinema de Anderson, que só pode existir em troca de alguma recompensa, mas que age com suas próprias vontades e interesses, como a personagem de Alys.

Voltando à frase do quinto Resident Evil, “Nas Terras Perdidas” tem alguma resposta a isso. Em certo momento do longa, Alys queima uma tropa de inimigos com uma tempestade de fogo, que preenche a tela em computação gráfica e explode em hipérbole nos ambientes distópicos imaginados do longa. Logo depois, Boyce diz que não sentiu o calor do fogo e Alys responde que não existia fogo. “Mas para eles a ilusão era real o bastante”. É um momento que expõe o cinema do Anderson como um de ilusão agressiva. Lá a câmera é uma arma, aqui a encenação pode carbonizar os inimigos. É um filme que quer queimar seu público, ser tátil, através das formas que engana.

Alguns dos planos mais estilizados do longa se assemelham a animações 3D, ganhando vida através da carne dos atores que precede e sucede os planos. Anderson é um cineasta de ilusão, um Méliès da era digital, que parece satisfeito em operar nesse registro. Existem comentários sociais no longa – alguma crítica à igreja aqui, alguma sobre figuras de poder ali – coisas que dão contornos a história, mas que o longa nunca se aprofunda, ou que talvez não consegue se aprofundar. Acabam sendo mais textura do que tese. Os diálogos ruins já são tradição do cinema do diretor, então talvez o interesse dos temas se perca em algum lugar entre as palavras. Eu nem acho que o cinema do Anderson é totalmente vazio de temas (ele ainda consegue muita coisa através das imagens que conjura), mas óbvio que seus maiores interesses são no pulp e na imagem como fim. Ele parte primeiro de contar uma história material e concreta, para depois se arriscar em falar algo. Um tipo cinema que é repudiado por boa parte dos críticos, mas, com o olhar certo, é possível enxergar muita força nesses planos e ideias.

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Cotaçã o por Ossos:

7,0

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Ficha Técnica

Título: Nas Terras Perdidas
Título original: In the Lost Lands

Direção: Paul W.S. Anderson

Roteiro adaptado: Constantin Werner

Argumento: Costantin Werner & Paul W. S. Anderson

Baseado em: “In the Lost Lands” de George R.R. Martin

Estrelando: Milla Jovovich, Dave Bautista, Amara Okereke, Arly Jover, Fraser James

Com trilha sonora de: Paul Haslinger

Fotografia de: Glen MacPherson

Montagem de: Niven Howie

Produção: Constantin Film / Impact Pictures

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Pôster e fotos do filme gentilmente cedidas por Diamond Films/Divulgação: Sinny Assessoria e Comunicação

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