Crítica: Operação Vingança

Luca Ramalho Rizzuti

Realmente, como já escrevi em outros textos meus – como no de Batman (Os Batmans de Tim Burton – Batman de 1989 – e seu sucessor – Batman: O Retorno; de 1992 – , sua mitologia, seus olhares e suas possibilidades de sentido nos estudos decoloniais e na teoria queer e sua relação com o erotismo à luz da intermidialidade com os quadrinhos), deve ter sido um dos muitos efeitos do atentado de 11 de setembro de 2001, que muito se faziam ainda sentir na produção de Hollywood em 2005, que o cinema norte-americano revogasse por completo a pulsão pelo desconhecido e o desejo pela alteridade no novo milênio, e os substituísse pela fantasia do mero puritanismo militarizado.

Com o pavoroso “007 – Um Novo Dia para Morrer” – indubitavelmente, um dos piores de todos os longas protagonizados pelo personagem. A esta altura, a série já havia ultrapassado a fronteira do ridículo, incluindo vilões incapazes de sentir dor, fortalezas de gelo, carros invisíveis e até mesmo um Bond surfista gerado por computador. Com isso, os fãs adultos do subgênero da ação – o de espionagem – migraram sem remorsos para as aventuras de um personagem que lembrava muito o 007 dos tempos de Sean Connery: Jason Bourne, vivido por Matt Damon nos ótimos “A Identidade Bourne”, A Supremacia Bourne“, “Ultimato Bourne”. Depois de assistir ao amigo Matt Damon criar para si (depois desistir, depois retornar) uma franquia de suspense e ação, os filmes de Jason Bourne, até Ben Affleck esboça fazer o mesmo com “O Contador”(“The Accountant”, 2016)
Mais realista e pé no chão do que um Bond que até voa de tudo quanto é jeito. Os Batmans – o Cavaleiro das Trevas -, iniciado com “Batman Begins” (2005), de Christopher Nolan, são pontos-chave na estética desaturada e do “realismo sombrio” dessa vertente no cinema calcado num pretenso verniz mais verossímil.

Mas por que venho a isso? Bom, é que “The Amateur”, ou simplesmente “Operação Vingança” se insere nesse contexto desses thrillers de espionagem. O que acontece é que – nem os realizadores – nem mesmo o bocó do Rami Malek pareceram entender é que o próprio Malek em si não tem o “molho”, o carisma (talvez?), a boa-pinta e a fibra pra bancar personagem de filme de ação, que, certamente era o que queriam fazer aqui, mas decidiram por inserirem o personagem numa caçada não por vingança mortal numa carnificina com porradaria desenfreada como em John Wick (franquia, do um ao quatro), mas, sim, numa revelação de propósitos: “foi para isso que eu vim. Para ver na sua cara. A cara do fracasso. Eu cheguei até você, até seus homens… (blablablá…)”. Seja como for, Charlie Heller, seu personagem, não é um assassino. Ele mal consegue segurar o peso de puxar o gatilho. Não entende como é estar nessa posição: matar alguém, tirar uma vida.

Tudo o que ele queria era poder acordar mais dias ao lado de sua linda esposa Sarah. Mas uma viagem dela a Londres foi fatal: o suficiente para tirar isso dele para sempre! Nada mais foi o mesmo. Até a oportunidade de passar os dias juntos e tomar o café matinal com a sua amada esposa se foi.

Mas Charlie Heller (Rami Malek) não é um Jack Bauer (Kiefer Sutherland), de “24”, nem um Jack Reacher, ou um Bryan Mills (Liam Neeson), de “Busca Implacável” (“TAKEN”). No máximo, ele convence como um habilidoso nerd de computadores, algo que trouxe da série Mr. Robot.

Logo de início, vem a impressão: “já vi esse filme antes”. E quem pensar assim, estará errado apenas em parte. Afinal, não assistiu a essa estória apenas uma vez antes, mas talvez duas, até mesmo três! Porque é incrível o quão genérico consegue ser.

Pena que nunca confia de fato e totalmente nos gêneros que quer trabalhar e sempre insere alguma reviravolta forçada e “espertinha”  para manter o espectador engajado.
Ele tenta se sustentar na imagem de um filme de gênero descolado, embora previsível, mas nunca leva em conta a experiência como um todo, tratando cada nova sequência apenas como uma forma de chamar a atenção.

É lamentável!
Fica apenas como mais um desperdício.

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