Crítica: Quando Chega o Outono

É mais um filme que finge ser um thriller complexo, mas, na verdade, é só mais um daqueles filmes estranhos, simples e previsíveis

Luca Ramalho Rizzuti

Havia, e creio que ainda há, nas faculdades de cinema, uma espécie de rivalidade
entre aqueles que só gostam do “cinema de entretenimento” e dos que só admitem assistir
“cinema de arte”. Sempre achei estranha essa divisão, mas na época em que havia ingressado
na graduação eu não possuía argumentos, nem interesse suficiente para concordar ou refutar
das nomenclaturas. Porém, segundo colegas, eu passei grande parte da faculdade defendendo
a ideia de que uma boa interpretação não precisava ser somente possível na leitura dos filmes do Godard, ou do Tarkovski – olhares muito interessantes podiam partir dos mais banais filmes, entre eles, os produzidos pelos próprios alunos que em muito eram marginalizados pelos próprios professores. Infantilmente, em meio a esses egos orgulhosos e sensíveis que compõem um universo artístico, eu via, quase que escondido, alguns filminhos tidos como “terríveis” pela boa cinefilia e de diretores que se afastam da lógica do bem-fazer cinematográfico, como François Ozon, por exemplo – precisava manter minha reputação de artista anti-sociedade do espetáculo.
Com o tempo, o pensamento vai se transformando. Ao longo da minha pós e da minha cinefilia depois da faculdade, esses receios foram desaparecendo aos poucos. Percebi o óbvio: a leitura não está no texto, está no leitor que a faz acontecer… e, se for para eu ter que ler alguma coisa, nada melhor que seja
aquilo que me dá algum gozo, que faça parte das minhas obsessões. Por isso, o primeiro projeto de dissertação se chamava “A morte do homem no cinema”, onde, analisando 8 ½, do
Fellini, os dois Solaris, de Tarkovski, e Sodebergh, e junto com os dois filmes do Batman do Tim Burton
apontar no cinema, a morte do homem que Foucault – e agora eu também – vê em Nietzsche.

Mas por que entrar em tais detalhes?!
Calma, querido leitor.

Em seu texto “Lost Highway: o isolamento sensorial segundo Lynch”, publicado em 1997 na Cahiers du Cinéma, o crítico Thierry Jousse escreveu sobre a abordagem sensorial de David Lynch em “Estrada Perdida” (1997).
Jousse diz que, na obra de Lynch e de outros cineastas dos anos 1990, a distribuição de signos enigmáticos e a ausência de uma ligação aparente entre eles tornaram-se uma figura de estilo. Pode-se dizer o que quiser de Ozon e o xingar como eu, o quanto quiser, mas não se pode negar: o homem tem estilo. Seu cinema é cheio de trucagens, situações, sacadinhas, encenações e até escalações para o elenco a partir do que lhe “parece correto”. É interessante e estilisticamente parece fazer algum sentido dentro da proposta? O.k., é só pôr no filme. Azar! Dane-se! É como no “meio”-musical “Oito Mulheres”, de 2002.

Quando Chega o Outono” (Quand Vient L’automne, 2024), é um longa francês de drama e mistério, distribuído pela Pandora Filmes, que estreia, oficialmente, no Brasil, a partir do dia 27 de março de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 103 minutos de duração, dirigido por François Ozon (“Oito Mulheres”, “Verão de 85”).
Em sua charmosa casa no estilo de chalé inglês, Michelle (a encantadora Hélène Vincent) é tanto uma avó dedicada à cozinha quanto uma mulher sofisticada. Dá-se início a uma trama de desconfiança e segredos entre duas famílias. Michelle vive uma vida tranquila num vilarejo bucólico e pitoresco da Borgonha junto com sua amiga e vizinha de longa data Marie-Claude. Enquanto desfrutam desses dias pacíficos de aposentadas, Michelle está particularmente ansiosa em passar as férias de verão com seu neto Lucas. Os planos, porém, são cancelados quando sua filha Valérie é envenenada acidentalmente pelos cogumelos que Michelle serve no almoço. O caso abala ainda mais a relação carregada de mágoas e traumas do passado e deixa Michelle desolada.
É mais um filme que finge ser um thriller complexo, mas, na verdade, é só mais um daqueles filmes estranhos, simples e previsíveis, em que o protagonista é um sujeito insuportável e infeliz que busca sua felicidade e inspiração na vida das pessoas ao seu redor.

Como é característico nas obras de Ozon, nada acontece conforme o previsto, e o que deveria ser uma semana tranquila e prazerosa toma um caminho surpreendente, trazendo à tona diversos segredos há muito enterrados. Enquanto isso, o filho de Marie-Claude retorna para morar com a mãe após anos vivendo na obscuridade.
Com a pouca habilidade que lhe é característica, o cineasta francês aborda as dinâmicas familiares mais complexas de maneira incrivelmente truculenta, mas radiante como gosta de ser. Embora reúna todos os elementos de um grande filme de mistério, com o enredo ganhando força graças ao crescente clima de segredo, a obra se mantém completamente tediosa.

Com um elenco excepcional em suas mãos, o realizador desperdiça – como era de se esperar por mim – a oportunidade prendendo todos a tipos genéricos.

Na verdade, a única que consegue fazer alguma coisa de interessante é Josiane Balasko, que traz certo grau de complexidade a uma mulher que, em mãos menos capazes, se tornaria esquecível, mas graças à sua intérprete nos convence de que todo o projeto deveria girar em torno de seus dilemas. Quanto às cenas envolvendo a protagonista e seus passeio, meu palpite é de que existem somente para aumentar a duração da narrativa – como se monólogos terríveis (e inexplicáveis) não fossem tortura suficiente.

Enfim, o filme é em essência um guia de turismo centrado na figura moribunda (mas externamente saudável para ninguém ficar deprimido) de Hèlene Vincent, que, de modo apropriado, passa todo o tempo andando para lá e para cá vestida de modo extravagante.
Pois confesso que, como acontece com a maioria dos filmes de Ozon, não sentirei falta alguma de “Quando Chega o Outono“.

Cotação por ossos:

1,0

***

Foto: Pandora Filmes/Divulgação: Sinny – Assessoria e Comunicação

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