Primeira animação da Letônia tem efeito no país semelhante a Ainda Estou Aqui no Brasil
Antônio Pedro de Souza
Durante muito tempo, a palavra “animação”, em se tratando de cinema, era comumente ligada à Disney e suas maravilhosas histórias que uniam adultos e crianças na frente de uma tela. ERA. É notório que nas últimas décadas outros estúdios, inclusive fora da hegemonia hollywoodiana, tenham crescido em quantidade e qualidade em produções cinematográficas de animação. Mesmo no Brasil, onde o gênero ainda é claudicante, percebemos esse crescimento, com títulos recentes como Chef Jack: O Cozinheiro Aventureiro (2023) e Arca de Noé (2024), sem contar na infinidade de animações da Turma da Mônica, que não deixaram de ser produzidas – com maior ou menor intensidade – desde fins da década de 1970. Além, claro, de animadores brasileiros que conquistaram o mundo, como Carlos Saldanha e suas franquias A Era do Gelo e Rio.
Pois bem, neste novo cenário da animação mundial, surge da Letônia, um pequeno país do Leste Europeu, com aproximadamente 2 milhões de habitantes, um dos filmes de animação mais bem feito da temporada: Flow. O longa, que conta as desventuras de um gato em meio a uma inundação, cresceu tanto em popularidade, rompendo as barreiras do próprio país e do continente europeu, que garimpou prêmios importantes e ainda foi indicado às categorias de Melhor Animação e Melhor Filme Internacional no Oscar 2025.
E isso surtiu um efeito encantador na Letônia: Flow é, para os habitantes da Letônia, o que Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui são para os brasileiros. O Globo de Ouro conquistado pelo filme está exposto no Museu de Arte Nacional, atraindo milhares de pessoas, que enfrentam horas de filas para ver a honraria de uma produção nacional. Além disso, pinturas pelos muros e até uma estátua de Flow foi erguida. É a força do cinema e da cultura!

A história gira em torno de um gatinho preto solitário e a mensagem do filme pode ser entendida perfeitamente por dois públicos distintos: enquanto as crianças torcerão pela sobrevivência e vitória do animalzinho, sem precisar se preocupar como ou porquê as coisas estão acontecendo, os adultos poderão criar teorias de como e onde a história tomou determinados rumos. E isso só faz com que Flow seja ainda mais brilhante.
Quando a história começa, o gato preto está brincando numa área coberta de relva e flores, com um rio nas proximidades. Aparecem alguns cães, que tentam pegá-lo, mas ele se desvencilha. Há também grandes pássaros. Logo, uma manada de animais passa correndo (numa cena que remete, rapidamente, à trágica debandada de O Rei Leão (1994) e, na sequência, uma onda gigante toma conta do lugar. Flow precisa lutar para sobreviver à enchente e vê outros animais em perigo. O gato volta para casa e conhecemos um pouco do lugar: Há vários projetos de estátuas de gato, desenhos, pinturas. Morava ali um artista, arquiteto, engenheiro? Que fim levou essa pessoa? É uma pergunta que fica sem resposta e ressalta as duas linhas de interpretação citadas no parágrafo anterior: para crianças, basta saber quem é o gato e se ele vai ficar bem; para nós, adultos, cabem os questionamentos incômodos da vida. Esse humano que cuidava do gato e tinha tantos projetos desenhados morreu? Foi avisado de uma inundação e teve que deixar o lugar às pressas, sem conseguir levar o melhor amigo? São perguntas que vão e voltam à medida que o filme avança.

Um cão amarelo segue o gato e passa a noite no quintal da casa. Pela manhã, após um momento de aparente calmaria, a água volta a subir e os dois animais precisam deixar o lugar. Começa, então, uma jornada de descoberta e encantamento que, como sugere o fluxo (flow) do título, será longa e com percalços naturais. É isso: ao longo da projeção, os animais seguirão o fluxo das águas. Claro que, em um momento ou outro, eles alteram esse fluxo, mas acabam caindo de novo na linha que os guia rumo a um futuro incerto, desconhecido (outra reflexão adulta: não seríamos todos gatos pretos seguindo o fluxo de nossas vidas?).
À medida que o filme avança, o gatinho faz novos amigos: uma capivara, que está em um barco, um lêmure e o já citado cão, que volta à ativa em momentos cruciais da história. Talvez, porém, a amizade mais comovente seja a feita com uma garça. Em vários pontos da história, o gato e as garças aparecem como inimigos, mas no fim, uma das garças e o bichano se ajudam, o que causa desconforto com os demais membros do grupo alado.
Deixada ferida, a garça integra a equipe do barco, reiniciando sua jornada. Os momentos cômicos ficam a cargo do lêmure, que é um recolhedor compulsivo de quinquilharias. E o cão, que após dias no barco, reencontra seus antigos parceiros, fazendo com que sejam acolhidos também.
Neste ponto da história, o barco chega ao que parece ser uma cidade abandonada, repleta de prédios e construções alagados. Mais uma vez, a dualidade de interpretações se impõe aqui: para as crianças, cabe a curiosidade de saber o que tem por detrás daquelas portinhas e janelinhas distantes, inacessíveis aos sobreviventes do barco.
Para nós, adultos, cabe a indagação: aquela foi uma inundação programada, como as que são feitas quando os humanos querem construir uma represa ou uma hidrelétrica, por exemplo? Ou foi uma inundação oriunda de um acidente, de uma catástrofe? Cabem, aqui, várias conjecturas.

Pouco explorado, mas de extrema importância, é o papel de uma baleia, vista em momentos-chave do filme. Ela, aliás, salva os habitantes do barquinho numa hora em que o veículo fica preso em galhos, com o leme quebrado. Isso reacende a discussão sobre a inundação: teria sido, então, um tsunami o responsável por toda aquela água? Como a baleia chegou ali?
Seguindo a história, nossos amigos encontram terra firme após uma terrível tempestade. Separados momentaneamente, eles precisam unir forças e mostrar que a improvável amizade será mais forte que as intempéries da natureza. Há uma possível baixa no time dos nossos heróis. Ressalto: possível baixa, porque o destino de um dos animais não fica muito claro, a cena é ao mesmo tempo de redenção e de despedida. Também temos a separação definitiva dos cães. Sendo o labrador, o único que fica com o gato. É interessante ainda notar que o lêmure deixa seus pares para se juntar, novamente, à equipe com a qual ele passou todos os perigos do filme. Assim, o gato, a capivara, o lêmure e o cão parecem estar destinados a seguir juntos um novo fluxo.
E é neste ponto que uma nova debandada de animais, leva nossos amigos a um outro animal em comum, visto rapidamente antes: a baleia. O final é incerto – e tem uma cena pós-créditos – deixando abertas novas indagações: como eles ajudaram a baleia? A água teria subido novamente salvando o mamífero? Neste caso, como os demais animais, se salvaram, já que o barco havia sido destruído? É um final intrigante, mas que nos faz pensar apenas, que foi feliz. Tão feliz quanto o povo da Letônia comemorando as premiações. Flow merece os aplausos.
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Cotação por Ossos:
9,5

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Filme: Flow
Título Original: Flow/Straume
Ano de Lançamento: 2024 (No Brasil: 20/02/2025)
Direção: Gints Zilbalodis
Roteiro: Gints Zilbalodis, Matiss Kaza
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Cartaz e fotos do filme gentilmente cedidos por Mares Filmes e Léo Rolim Assessoria de Imprensa
