Filme traz uma relação complexa entre humanos e máquinas, que remete aos primórdios da literatura de horror
Em 1818, Mary Shelley trouxe à luz um dos pilares da literatura de terror: Frankenstein. O Monstro (cujo nome é erroneamente confundido com o do seu criador, Dr. Victor Frankenstein) é um amontoado de partes de corpos humanos. Uma experiência científica que marcou a literatura e, no século seguinte, invadiria o Cinema, reinventando seu impacto original. Na sétima arte, foram várias as incursões pelo universo das experiências – más e bem sucedidas em diversos níveis. Com os sucessivos avanços tecnológicos, ficou claro que, em breve, máquinas poderiam tomar o lugar dos homens, o que gerou um novo filão de filmes com essa premissa – e cujos finais nem sempre são bons para a raça humana: nessa lista, vale destacar O Exterminador do Futuro (James Cameron, 1984), Robocop (Paul Verhoeven, 1987), Blade Runner: O Caçador de Androides (Ridley Scott, 1982), A.I – Inteligência Artificial (Steven Spielberg, 2001) e mesmo 2001: Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968). O que todos esses filmes têm em comum? O fato de mostrar uma complexa relação entre humanos e máquinas. Além do fato de que os humanos, inevitavelmente, se dão mal em algum ponto deste relacionamento.
Em Acompanhante Perfeita (Companion), acompanhamos o casal Iris (Sophie Thatcher) e Josh (Jack Quaid) em um fim de semana num local paradisíaco. O filme vai nos envolvendo de maneira delicada e romântica. São três casais que compõem a cena: Iris e Josh, Kat (Megan Suri) e Sergey (Rupert Friend), e Eli (Harvey Guillen) e Patrick (Lukas Gage). Uma casa isolada perto de um lago convidativo, três casais jovens, um fim de semana… tudo nos leva a crer que será um divertido fim de semana, romântico, regado a vinho e sexo… Até começa assim. Mas aí vem o primeiro assassinato, jogando o espectador num turbilhão de acontecimentos que seguem frenéticos até os créditos finais.
É interessante como o filme trabalha com a antecipação da emoção: na primeira cena (e isso pôde ser visto também no trailer), Iris narra que houve apenas dois momentos realmente memoráveis em sua vida: o primeiro, foi o dia em que conheceu Josh; o segundo, o dia em que o matou. Isso acende um alerta em nós: já sabemos o que vai acontecer. Mas isso prejudica o filme? Em nenhum momento. Essa antecipação de emoção é até mais comum do que imaginamos. Já sabemos de antemão que o Titanic vai afundar, mas queremos ver o momento exato do naufrágio. Dona Lola, nas páginas iniciais de Éramos Seis, nos adverte de que, entre seus filhos, Carlos é o único que ela sabe exatamente onde encontrar: está no cemitério. Mas lemos e nos emocionamos com a cena de sua morte. Citando a personagem Lisbela, de Lisbela e o Prisioneiro: “não é saber o que aconteceu, mas saber como aconteceu.”
Então, seguindo essa premissa, resolvemos nos deixar levar pelas engrenagens bem posicionadas de Acompanhante Perfeita e, aos poucos, vamos descobrindo os destinos de todos os personagens. Até a inevitável batalha final entre Iris e Josh.
Iris, o nosso Monstro de Frankenstein do século XXI, nada mais é que uma avançada experiência tecnológica feita para pessoas que não conseguem ou não querem – dadas as complexas dinâmicas sociais da atualidade – manter um relacionamento com outro ser humano. Ela é pensada, criada e mantida apenas para ser uma acompanhante de luxo ou, em outras palavras, uma namorada de aluguel. Nas palavras do próprio personagem Josh, uma “Fodaboot”, ou seja, um robô feito para satisfazer as necessidades sexuais de quem o compra. Além, claro, de posar como a sua acompanhante perfeita (neste ponto, o título em português foi cirúrgico) perante à sociedade.

O filme, neste ponto, teria duas linhas a seguir: na primeira, Iris deveria saber que era uma máquina, qual era a sua missão e as implicações disso. Algo parecido com O Exterminador do Futuro.
Na segunda linha, a máquina não sabe de sua condição, o que leva a novos questionamentos e descobertas ao longo da projeção. Isso já havia sido trabalhado com cargas dramáticas diferentes em Blade Runner e A.I.
Acompanhante Perfeita opta pela segunda linha.
Após matar Sergey, numa das cenas mais interessantes da primeira metade do longa, Iris é confrontada pela própria realidade. E percebe que, se não fugir rápido, não existirá mais.
A partir daí, o filme se torna uma corrida de gato e rato divertida, com elementos slasher e muita ação. Novas revelações são feitas, uma nova máquina é descoberta e o caos se instaura completamente.
Sophie Thatcher está perfeita como a robô Iris. Ela entrega uma interpretação que cresce à medida em que a personagem descobre mais sobre sua história e adquire novos poderes controlados por um aplicativo de celular (vocês se lembram do professor Octavius em Homem-Aranha 2: “o poder do sol na palma da minha mão”? Pois é…).
Jack Quaid dá vida a mais um psicopata. E, mais uma vez, desempenha seu papel com maestria. O espectador é confrontado pela dualidade “cafajeste x rosto bonitinho”. Ele vai aumentando sua dose de psicopatia na mesma proporção em que Iris vai aumentando sua carga nociva. Isso o aproxima dela nos quesitos força e inteligência, deixando o embate final ainda mais empolgante.
Harvey Guillen e Lukas Gage também estão impagáveis como um casal que vive o auge do amor. Até descobrirmos a verdade sombria sobre Patrick. E mais: descobrimos que ele já sabia de tudo (vale lembrar a comparação feita, parágrafos acima, com O Exterminador do Futuro e Blade Runner. Pois é, Patrick tem consciência de sua existência).
Por fim, o casal mais fraco do filme é composto por Megan Suri e Rupert Friend. Entenda: Megan está ótima em cena e tem uma boa química com Jack Quaid (ué, mas ele não é o namorado da Iris? Corra pro cinema e descubra as intrincadas relações amorosas do filme, amigo), já Rupert Friend não decola. Além do personagem ser chato (mas não um chato amável como o Franklin (Paul A. Partain) de O Massacre da Serra Elétrica, Tobe Hooper, 1974), o ator não ajuda. Nas poucas cenas (ainda bem que são poucas) em que ele aparece, não agrega em nada ao filme, além do fato de ele ser o dono da casa no lago e guardar uma vultosa quantia de dinheiro no cofre. Sergey é insípido, fazendo um tipo deslocado da realidade em que o filme se passa. E Rupert Friend, seu intérprete, acaba se tornando um canastrão que não nos convence em nenhum momento de seu papel. Na verdade, é um alívio quando Sergey morre, o que nos livra de ter que encarar ator e personagem por mais tempo na tela.
A ambientação do filme é certeira: a casa de Sergey exala alta tecnologia, mas com um charme de décadas passadas. Até um som que toca CD é visto em cena. Nos momentos de flashback conhecemos também o apartamento de Josh, e sua rotina com Iris, remetendo aos namoros idílicos dos anos 1960. A cena do supermercado traz essa mesma conotação: parece um comercial de chocolate ou margarina. Excelentemente construída.

A trilha sonora é pontual, embalando as cenas nos ritmos adequados. O roteiro dá uma deslizada nos minutos finais, quando Iris é salva por um técnico da empresa que a criou. Neste momento, há um embate entre Patrick, Iris e dois técnicos, dos quais um morre. O outro é salvo por Iris e retribui a ajuda dando-lhe liberdade: ele a livra dos últimos protocolos que a prendiam aos aplicativos e controles da empresa. Depois, nada mais é falado sobre o personagem: ele fugiu? Iris, ao se tornar autossuficiente o matou? Ele entrou em contato com a central e explicou que o robô fugiu? Nada é visto, mostrado ou citado, mas Iris ainda tem tempo de voltar para casa e confrontar Josh, dando sequência ao momento anunciado lá no início do filme: “O dia em que eu o matei”.
Interessante, ainda, como é criada uma espécie de MacGuffin às avessas: na prática, o termo é usado para designar objetos ou situações que parecem ter uma imensa importância no começo da história, mas que perde essa mesma importância no decorrer do enredo. Um exemplo clássico é o dinheiro roubado por Marion Crane (Janet Leigh) em Psicose (Alfred Hitchcock, 1960). No filme, o espectador foca sua atenção na quantia que Marion rouba do patrão. No entanto, quando a moça é assassinada na icônica cena do chuveiro, percebemos que o dinheiro perdeu sua carga narrativa, já que a morte não tem nenhuma ligação com o furto.
Em Acompanhante Perfeita ocorre o oposto: A partir da morte de Sergey entra em cena a questão de um dinheiro guardado no cofre da mansão e como ele seria o catalizador para a onda de crimes engendrada por Josh e executada por Iris. São muitas reviravoltas a partir daí e o roteiro, bem construído, nos revela com quem fica a quantia ao fim da projeção. Uma sequência bem bolada e eficientemente executada.
Por fim, o longa de Drew Hancock é uma mescla bem trabalhada de comédia, slasher e sci-fi, sem abrir mão de uma pitada de sexo e bebedeira nas cabanas. Ainda que seja uma cabana milionária e tecnológica do século XXI.
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Cotação por Ossos:
9,5

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Filme: Acompanhante Perfeita
Título Original: Companion
Ano de Lançamento: 2025
Direção: Drew Hancock
Roteiro original: Drew Hancock
Edição: Brett W. Bachman e Josh Ethier
Trilha Sonora: Hrishikesh Hirway
Outros cargos técnicos:
Eli Born (Direção de Fotografia)
Naomi Munro (Direção de Arte)
Nancy Nayor (Direção de Elenco)
Vanessa Porter (Figurinista)
Scott Kuzio (Designer de Produção)
Jamie Buckner (Gerente de Produção)
Kendall Anderson (Cenografista)
Elenco:
Sophie Thatcher – Iris
Jack Quaid – Josh
Lukas Gage – Patrick
Rupert Friend – Sergey
Megan Suri – Kat
Harvey Guillen – Eli
Marc Menchaca – Hendrix
Woody Fu – Mateo
Jaboukie Young-White – Teddy
Duração: 97min
Classificação Etária: 16 anos
País produtor: EUA
Estúdio produtor:
New Line Cinema (Produção)
Warner Bros. (Distribuição)
Sinopse: Em Acompanhante Perfeita, Iris (Sophie Thatcher) e Josh (Jack Quaid) vivem um romance digno de cinema. Após se conhecerem em um mercado, os dois rapidamente se apaixonam e embarcam em um relacionamento intenso. Para aproveitar um fim de semana especial, eles viajam para uma luxuosa casa de campo com amigos, buscando descanso e diversão. No entanto, o que deveria ser um retiro tranquilo se transforma em um verdadeiro pesadelo quando uma revelação inesperada muda tudo.
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O pôster e a foto de cena foram gentilmente cedidos pela Warner Bros. e Espaço/Z.
A foto da tela foi feita por Antônio Pedro de Souza
