Crítica: Trilha Sonora para um Golpe de Estado

Os fatos apresentados são narrados em uma estrutura linear que, além de permitir um entendimento claro de como os eventos se desenvolveram, se constrói em crescente tensão

Vitor Techio

“Trilha Sonora para um Golpe de Estado”, um dos indicados ao Oscar de melhor documentário, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta, 30 de janeiro. Dirigido por Johan Grimonprez (O Mundo Sombrio das Armas, Dial H-I-S-T-O-R-Y), o ganhador do Prêmio André Cavens de Melhor Filme da Associação Belga de Críticos de Cinema narra as tramas políticas que levaram ao assassinato do líder anticolonial e primeiro-ministro da recém-independente República do Congo, Patrice Lumumba.

            Até 1908, o Estado Livre do Congo era tido como propriedade privada do Rei Leopoldo II da Bélgica. A exposição internacional da crueldade do reinado de Leopoldo II, que levou a milhões de mortes e foi responsável por milhares de mutilações, resultou em sua renúncia. A partir disso, surgiu o Congo Belga, não mais propriedade de Leopoldo II, mas colônia da Bélgica e, portanto, ainda subserviente ao Estado responsável pelas maiores atrocidades que o povo congolês já havia sofrido.

            Já no fim dos anos 1950, em meio às tensões crescentes entre Estados Unidos e União Soviética, crescem os movimentos do povo congolês demandando sua independência até que, pressionada, a Bélgica concede a independência política ao território rico em urânio, cobalto e titânio. Esses minérios seriam as matérias-primas para a criação de bombas nucleares, principal motivo do interesse das grandes potências pela região.

            O Movimento Nacional Congolês foi fundamental na conquista pela independência, tendo, em junho de 1960, um de seus fundadores eleito primeiro-ministro na então denominada República do Congo. Este era Patrice Lumumba que, em janeiro do ano seguinte, se tornaria vítima de um assassinato político que teria como principais responsáveis o governo belga e a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos da América (CIA). É justamente neste período de 6 meses que se concentra Trilha Sonora para um Golpe de Estado.

            O documentário analisa minuciosamente as dinâmicas políticas que levaram ao assassinato do líder congolês, desde os interesses dos Estados Unidos e da Bélgica no Congo, a responsabilidade de instituições como a CIA e as Nações Unidas, e o apoio de países tidos como comunistas à libertação do Congo. O filme também se atenta aos efeitos da colonização no país, às reações dos movimentos de resistência e às dinâmicas internas que permitiram o golpe pouco após a independência.

            Os fatos apresentados são narrados em uma estrutura linear que, além de permitir um entendimento claro de como os eventos se desenvolveram, se constroem em crescente tensão, se permitindo um ritmo acelerado em momentos voltados para a exposição de fatos. Um dos elementos que auxilia nesta progressão é a trilha musical que utiliza de composições e performances de jazz da época para pontuar tonalidades, demarcar momentos específicos e como prelúdio para os eventos sucessores, de modo que a música se torne uma parte essencial da estrutura da obra, fazendo parte ativa da narrativa.

            A história de artistas musicais da época se cruza com aquelas aqui contadas. Louis Armstrong, por exemplo, é introduzido ao som de sua própria obra como o embaixador do jazz, enviado dos EUA em ações diplomáticas. Assim, esta forma artística de origem popular se torna uma arma do governo estadunidense, usada, muitas vezes, para mascarar ações imperialistas. Ainda assim, o papel do jazz assume diferentes variantes, com o álbum We Insist! Freedom Now Suite se tornando um clamor pela liberdade de um povo.

            A montagem é precisa na construção e em conciliar música, acontecimentos e relatos. Um senso de humor ácido se manifesta na introdução de Nikita Khrushchev, então premiê soviético. Assim que Armstrong é introduzido, sua trilha continua para introduzir Khrushchev desligando um aparelho de rádio, e assim, a trilha, e expressando seu desprezo pelo estilo musical. Outro momento particularmente interessante é na leitura de um relato de Andrée Blouin, da qual a autobiografia é constantemente referenciada, que articula imagens da própria e de sua família. As imagens são registros familiares ternos em vídeo, e o relato de um momento de violência e medo. Um desses registros, que enquadra a mulher apenas dos ombros para baixo, segurando uma flor, é interrompido após um travelling e, após outra imagem, retorna em movimento inverso.            

Vale ressaltar que Trilha Sonora para um Golpe de Estado é uma produção belga. Ou seja, o mesmo país que está aqui falando sobre o processo de descolonização do Congo é o que o teve como colônia. Dito isso, é um filme que reconhece a responsabilidade de seu país nos efeitos até hoje presentes do processo de colonização não se intimidando ao abordar os aspectos mais complexos e sombrios de seus temas, e articulando-os de uma maneira única e sempre interessante. Um filme que merece ser visto e, com certeza, merece seu lugar entre os concorrentes ao 97o Oscar.

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Cotação por Ossos:

10,0

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Ficha Técnica:

Filme: Trilha Sonora para um Golpe de Estado

Título Original: Soundtrack to a Coup d’État

Ano de Lançamento: 2024 (2025 no Brasil)

Direção: Johan Grimonprez

Roteiro: Johan Grimonprez

Pirouz Nemati

Ila Firouzabadi

Baseado numa história real

Edição: Rik Chaubet

Outros cargos técnicos:

Jonathan Wannyn (Diretor de Fotografia), Rémi Grellety e Daan Milius (Produtores), Katja Draaijer e Frank Hoeve (Coprodutores)

Duração: 2h30

Classificação Etária: 14 anos

Países produtores: Bélgica, França e Holanda

Estúdios produtores: Onomatopee Filmes

Pandora Filmes (Distribuição no Brasil)

Sinopse: Música e política se misturam nesse documentário sobre o processo de descolonização do Congo. Trilha Sonora para um Golpe de Estado reconstitui os últimos meses antes de Patrice Lumumba, primeiro presidente eleito democraticamente do Congo, ser assassinado em 1961. Em protesto, os músicos Abbey Lincoln e Max Roach invadem o Conselho de Segurança da ONU. Ao mesmo tempo, Louis Armstrong é enviado para o país como uma cortina de fumaça dos planos norte-americanos de depor Patrice. É a partir desse episódio, um bom representante das conexões entre imperialismo, capitalismo e jazz, que o diretor Johan Grimonprez traz o panorama das artimanhas políticas que incendiaram o contexto internacional da época. Marcado pela Guerra Fria, pelo movimento de independência pan-africanista, pelas mudanças no quadro de poder das Nações Unidas e pelas lutas por direitos civis nos EUA, o século XX e suas revoluções são o mote para um documentário ávido em entender os dilemas de uma história em disputa.

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Cartaz e fotos gentilmente cedidos por: Pandora Filmes e Sinny Assessoria e Comunicação

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