Crítica: Redenção

“Redenção” é um  emocionante relato sobre a culpa, o perdão e o fechamento de feridas abertas

Luca Ramalho Rizzuti

“Redenção” ou, do original, “Maixabel”, é um  emocionante relato sobre a culpa, o perdão e o fechamento de feridas abertas. Até diria que é bem interessante o modo como o filme tenta se livrar de algumas convenções, ou de aspectos dramáticos mais apelativos, para construir uma narrativa livre que, assumidamente, coloca a sua própria figura em primeiro plano. Particularmente interessante pelo ponto de vista dos membros da ETA; muito emocionante pela empatia que desperta por todas as partes. Bollain evita o risco de cair no puro melodrama – não do ponto de vista de gênero, mas como recurso apelativo fácil e barato – e nos envolve com uma narrativa intensa e emocional, mas nunca manipuladora. Vale destacar também a música de um contido Alberto Iglesias, que também evita enfatizar sentimentos que já são suficientemente poderosos por si mesmos.

Bollaín evita cair no sentimentalismo fácil, embora não consiga escapar de uma estridente sequência de carro acompanhada pelas memórias sonoras de um dos protagonistas, um recurso um tanto batido e ultrapassado, que ainda ocupa mais tempo do que o desejado.

Por outro lado, Maixabel também consegue se apropriar do relato fantasmagórico, colocando os móveis daquele café amaldiçoado em uma das cenas mais emocionantes do filme.

No fim das contas, com seus altos e baixos, Maixabel é uma experiência mais do que satisfatória. As conversas e encontros entre os protagonistas são tão boas que fica a sensação de terem privado o espectador de mais momentos com o impressionante Urko Olazabal. Mas o importante é que sua história real, trazida à ficção com delicadeza e respeito, está aqui para nos lembrar que, apesar de tudo, ainda pode haver algo que nos faz humanos.

É, de fato, um poderosíssimo filme sobre o perdão e o horror gerado pelo terrorismo em todos os protagonistas de um conflito (semântica à parte).
Vítimas, algozes, familiares, espectadores — todos são abalados quando as bombas e pistolas soam, paralisados em um momento específico do tempo. Essa sensação de vidas congeladas é perfeitamente alcançada graças às interpretações brilhantes de todo o elenco, embora seja impossível não destacar uma magnífica Blanca Portillo (se deixassem, ela disputaria até um Oscar).

Icíar Bollaín demonstra por que é uma das melhores diretoras deste país, e talvez algo mais. Sequências resolvidas de forma muito original e interessante, como o início do filme, a ligação para Maixabel sobre o atentado a Jáuregui, ou a composição do plano na homenagem ao final do filme. Mas também a maneira como ela apresenta narrativamente a jornada de Tosar por seu passado, seus atentados, despedindo-se do que restava de sua desumanização. E é que, entre outras coisas, o filme é uma jornada de dois personagens que seguem em direções opostas: Maixabel quer perdoar para avançar como sociedade, enquanto Ibon desfaz o caminho sectário da ETA para se reumanizar e se reintegrar na sociedade.

Como Marcelo Hessel, do Omelete, bem escreveu num de seus textos críticos sobre o filme, Júlio Cortázar, um dos mestres latinoamericanos do conto, uma maneira de diferenciar o romance desses textos mais curtos é que o romance frequentemente se encarrega de apresentar problemas, para então buscar solucioná-los. “Já os contos nunca ou quase nunca são problemáticos”, disse o escritor, para quem os contos são antes experiências autocontidas de um tipo de arrebatamento. Numa equivalência com os curtas-metragens, dá pra dizer que “Maixabel” funciona melhor como conto: é um filme bom em sugerir um estado de espírito ou uma comoção, e razoável ao lidar com problemáticas.

É um filme que não precisa se deleitar no sofrimento dos personagens nem chocar o espectador para fazê-lo sentir “algo”, mas que constrói sequências brutalmente belas e duras por meio de diálogos longos e olhares profundos.
Várias confrontações dramáticas ocorrem tanto de modo mais direto nessa relação com a encenação, inclusive usando das cenas mais dramáticas como uma espécie de reflexo psicológico da protagonista (ele soa como uma pessoa excessivamente metódica, mas que traz resultados bastantes concretos) como também dos aspectos que orbitam sua montagem.
Nesse sentido, quem escreve aqui gostou muito mais do que de outras propostas menos tridimensionais, como “Patria”, para citar uma mais recente.

“Maixabel” te conduz pela mão para fazer você compreender o caminho que, como sociedade, precisamos enfrentar mais cedo ou mais tarde. É grandiosa, emocionante, equilibrada, dura e necessária.

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Foto de capa: Cena do filme “Redenção”/Divulgação Pandora Filmes e Sinny Comunicação

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