Dos filmes mais aguardados e polêmicos do ano, chega no dia 21 de setembro de 2023, com o ator Jim Caviezel (Jesus em “A Paixão de Cristo” – 2004), pela produtora independente Angel, a mesma da famosa série “The Chosen” e quem comanda a direção é Alejandro Gómez Monteverde . A obra aborda questões como tráfico infantil, turismo sexual e seitas religiosas, porém, apenas superficialmente
Na história, somos apresentados a uma família de Honduras, na qual os protagonistas mirins são enganados com uma falsa promessa de um contrato artístico para se tornarem futuros modelos. No entanto, tudo é uma fachada, levando as crianças de Honduras para o México e Colômbia, onde se tornam escravos sexuais de pedófilos. É então que conhecemos Tim Ballard, um policial honesto que se envolve em uma busca implacável para resgatar os irmãos Rocío (Cristal Aparicio, “Perdida”) e Miguel(Lucás Ávila, “Enfermeras”) devolvê-los à seu pai Roberto( José Zúñiga, “Crepúsculo”)
O diretor acerta ao mostrar que o tráfico infantil é uma dura realidade, mas falha ao sugerir que isso afeta mais os americanos do que outros países, quando, na verdade, é uma doença global da sociedade. Falta coragem ao diretor para assumir quem são as verdadeiras vítimas dessa história e quem são os agressores, pois tudo gira em torno de Tim, que se torna o herói branco padrão que se infiltra e se disfarça para salvar as crianças.
Todo o melodrama começa desde o momento do sequestro e como os pais lidam com a situação, mas é frequentemente ofuscado por Tim, que está determinado a mostrar sua virilidade e coragem para alcançar seu feito histórico.
O ritmo do filme é coerente com a proposta, com surpresas constantes nas aventuras do protagonista. No entanto, torna-se uma jornada centrada no “Salvador” e não nas crianças. Tudo se perde quando o filme parece prestes a mostrar o drama dessas crianças que precisam se submeter e entregar seus corpos a homens para o prazer, mas recua. Fica a impressão de que os dramas das crianças seriam explorados, mas são constantemente interrompidos pela narrativa da jornada heroica de Tim.
A trilha sonora oscila entre o épico e o sagrado, entre tensão e calmaria, o que funciona até certo ponto. No entanto, há uma tentativa de manipular as emoções do espectador que não funciona, mesmo com o esforço evidente do ator Jim Caviezel para arrancar lágrimas.
Falando de Tim, sua caracterização é superficial. A única parte de sua vida pessoal que é mostrada é que ele é pai, tem uma esposa e muitos filhos, o que o motiva a resgatar crianças desaparecidas devido ao tráfico sexual infantil. Embora seja um motivo justo, falta explorar sua relação com as crianças e com sua esposa, bem como possíveis conflitos familiares. A impressão é de que estamos vendo a típica família perfeita de comercial de margarina, o que enfraquece a motivação de Tim.
Para piorar, na conclusão, o filme se distancia das situações reais para se concentrar novamente no heroísmo de Tim e suas recompensas. Isso contrasta com “O Quarto de Jack”, que aborda situações de sequestro de forma mais estratégica, dando voz à criança, Jack.
Em “Som da Liberdade”, a criança e o abusador se tornam meros dispositivos de roteiro para enaltecer as ações heroicas do ex-agente do governo, silenciando mais uma vez a voz da criança em prol do protagonismo do herói aplaudido e reconhecido.
Cena pós-créditos:
Na cena pós-créditos, o protagonista reforça que a história não é sobre ele, mas sim sobre as crianças. No entanto, o ator destaca a importância de debater esse tema no cinema e menciona a dificuldade de finalizar o filme. Fica a dúvida se é apenas mais uma cena ou um apelo real quando ele menciona o Financiamento Coletivo por meio de um QR Code para levar mais pessoas ao cinema, comprando ingressos e ampliando o alcance da mensagem do filme.
***
Imagem gentilmente cedida por Paris Filmes e Espaço/Z.
